Cine PE 2019 | O Corpo é Nosso!

Cine PE 2019 | O Corpo é Nosso!

Um dos êxitos da curadoria da 23a edição do Cine PE esteve em não se restringir apenas a conexões temáticas, crescentes a cada dia do festival. Desta forma, como“Espero Tua (Re)Voltaconsagrado como melhor filme desta edição -, “O Corpo é Nosso!” é um documentário que não possui uma “narrativa convencional”: enquanto os protagonistas do filme de Eliza Capai se apossavam da forma, com suas narrações irreverentes e montagem vídeoclíptica não linear que nos colocava na pele dos mesmos, o filme de Theresa Jessouroun mescla seu documentário com uma trama ficcional que, de linguagem metalinguística, comenta o próprio filme que estamos assistindo. Como na obra de Capai, os resultados alcançados são variados, fortalecendo mas também enfraquecendo – principalmente no filme de Jessouroun – a obra.

Acompanhamos o jornalista vivido por Renato Goés, mulherengo, bonito, de classe alta e machista (e é horrível que isso seja quase que inerente a tais características), que é encarregado por seu chefe de fazer uma reportagem sobre a liberação do corpo da mulher brasileira. O trabalho de pesquisa desse personagem se mescla com o documentário e os entrevistados reais que vemos na tela: “tem uma documentarista fazendo um filme sobre isso, procura ela”, incube o chefe. Quando visita uma das favelas para pesquisa, no entanto, o jornalista se tromba com a personagem de Roberta Rodrigues, antiga empregada da família com a qual teve um caso, e descobre que tem uma filha com ela. O choque que o protagonista tem se alia com o dever de fazer a reportagem, e sua pesquisa sobre esse movimento empoderador o leva às raízes do funk, ao papel da mulher no samba – e a cimentação da objetificação das mesmas culturalmente (essa passagem é complementada por outro link temático presente no festival em #Procuram-se Mulheres – e até mesmo ao feminicídio, que está ligado diretamente a estes fatores.

O maior problema de “O Corpo é Nosso!” reside justamente pela escolha de possuir seus segmentos ficcionalizados, que contrapõem entrevistas reais de pesquisadoras, ativistas, historiadores e mulheres ligadas diretamente aos movimentos vistos no documentário com uma artificialidade que diminui o peso do todo, como se tentasse adicionar uma carga dramática que já existe por si só na realidade da situação, e a existência dos mesmos soa mais como um artifício para se diferir de um documentário mais convencional, porém de informações ais completas. Assim, se “Espero Tua Revolta” conseguia conciliar muito bem a forma com o conteúdo, “O Corpo é Nosso!” não alcança esse êxito.

Se os segmentos ficcionalizados não tivessem uma progressão dramática de escalação tão rápida e didática (Jessouroun tem, afinal, que equilibrá-los com o documentário de fato), até se alcançaria algum sucesso, mas tudo acontece de forma tão abrupta (a missão de fazer a reportagem, o descobrimento de que tem um filho, as questões que surgem na cabeça do protagonista), que a sensação é de estarmos assistindo à um comercial conscientizador e didático feito sob encomenda pelo governo. Um filme como esse deve ser conscientizador, mas através das ficcionalizações vistas aqui, a mensagem perde parte do efeito. É acertado que a diretora coloca atores como Renato Goés e Roberta Rodrigues, que são competentes e elevam a dramaticidade do material, mas trabalham com frases prontas, que vêm de forma um tanto quanto deslocada na história, como o risível “agora tenho que ser pai de uma funkeira?” que o protagonista solta enquanto reflete consigo mesmo.

Frases como esta são recorrentes do homem machista atual (e o filme é quase que uma espécie de “greatest hits” do homem machista), e a intenção de desconstruir o masculino moderno é louvável, mas o “O Corpo é Nosso!” frequentemente fica num parapeito conceitual perigoso: ao tornar o documentário que vemos parte da jornada de descobrimento de seu protagonista, a sensação que se tem, ao fim, é de que o protagonismo era de fato do homem machista, e que o trabalho de pesquisa e informação visto aqui serviu apenas para a jornada ficcionalizada de crescimento do mesmo, e não das mulheres que vemos aqui. Mesmo que não intencional, a escolha dessa “dramatização” no próprio cinema nos leva à isso.

Apesar de possuir momentos de certa subversão interessantes nessa ficção (como quando o personagem de Goés anda na praia ao som de Garota de Ipanema, de Tom Jobim), “O Corpo é Nosso!” não é nem uma ficção completa sobre um homem que se desprende do machismo, nem um documentário completo sobre a liberação do corpo da mulher. Ainda que o trabalho de pesquisa sobre as raízes do funk e dos movimentos vistos na tela sejam notáveis, as imagens finais resumem muitos dos sentimentos acumulados na obra: um sonho idealizado, onde tudo se resolve prontamente, à beira da praia, com o pôr do sol ao fundo, para a resolução pessoal de nosso protagonista. Quer fantasia mais cinematográfica que essa?

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