Crítica: Lima Barreto ao Terceiro Dia - Cine PE 2021 - Cinem(ação)
Lima Barreto ao Terceiro Dia
Cine PE

Crítica: Lima Barreto ao Terceiro Dia – Cine PE 2021

Lima Barreto ao Terceiro Dia Cine PE 2021

Sinopse: Aos 42 anos de idade, nos três dias da sua última internação no manicômio D. Pedro II, no ano de 1919, o escritor Lima Barreto, que sofreu com depressão e alcoolismo, relembra sua vida como jovem autor enquanto escrevia “Triste Fim de Policarpo Quaresma” e fantasia sobre os personagens que criou. Misturando o tempo passado com presente e realidade com fantasia, questões sociopolíticas são trazidas a tona e os questionamentos feitos por Lima se mostram ainda bastante atuais.
Direção: Luiz Antônio Pilar
Roteiro: Luiz Antônio Pilar e Luís Alberto de Abreu
Produção: Luiz Antônio Pilar
Direção de Fotografia: Daniel Leite
Montagem: André Pacheco e Luiz Antônio Pilar
Trilha Sonora: Paula Leal e Amora Pera
Edição de Som: Gabriel Pinheiro
Direção de Arte: Doris Rollemberg
Figurino: Helena Affonso
Ator Principal: Luis Miranda e Sidnei Santiago Kuanza
Elenco: Luis Miranda, Sidnei Santiago Kuanza, Orã Figueiredo, Maria Clara Vicente, Eduardo Silva, Camilo Belivacqua, Cristiane Amorim, Fernando Santana, Gisele Fróes, Ronny Kriwat

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Não é preciso ter o conhecimento prévio de que Lima Barreto ao Terceiro Dia teve suas origens na peça teatral homônima de sucesso para perceber a influência dos palcos sobre a incursão dessa história no audiovisual. Dirigido por Luiz Antônio Pilar, o filme procura explorar os primeiros dias do internamento do renomado escritor brasileiro Lima Barreto (Luis Miranda), com 42 anos, agora alcoólatra e com depressão, enquanto Barreto revisita mentalmente seu passado, no qual uma versão jovem de si mesmo (Sidnei Santiago Kuanza) escrevia “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, sua obra definitiva. Quando o protagonista é internado num quarto minúsculo junto de outro paciente, na primeira cena do filme, nos atentamos já de início ao evidente aspecto artificial do set com as luzes azuis sem difusores, que entram duras e cintilantes pelas janelas, como se o cenário fosse, literalmente, um palco para que as angústias e arrependimentos do escritor sejam trabalhados. O mesmo ocorre nos segmentos ambientados no passado de Lima, particularmente na mesa de trabalho de lima, foco principal da luz no entorno de escuridão, como num palco. Da mesma forma, estas viagens ao passado possuem as atuações mais teatrais, acima do tom, o maior exemplo sendo o boêmio Gregorinho, amigo de Lima e alívio cômico, interpretado como se presente numa telenovela das 19h, as que são mais leves em tom.

Na terceira camada, temos os segmentos onde O Triste Fim de Policarpo Quaresma é reencenado, a indignação de Policarpo (Orã Figueiredo) frequentemente se associando com as do jovem Lima, idealista, furioso com os absurdos das famílias burguesas que acompanha e as segregações sociais e raciais contidas na sociedade que vive e retrata em sua obra. Os segmentos onde O Triste Fim é encenado, curiosamente, são os que menos se assemelham ao teatro, com suas tomadas externas e iluminações menos expressionistas. Eles se assemelham mais a uma telenovela de época, e o diretor Luiz Antônio Pilar possui experiência no gênero por trabalhos como Xica da Silva (1996), Mandacaru (1997) e Sinhá Moça (2006). Pilar pretende estabelecer três narrativas separadas que dialogam entre si (às vezes, literalmente), com objetivo de navegar na psique de Lima enquanto ele se adentra cada vez mais em sua loucura, até que as três cheguem ao ponto direto de convergência. O problema é que essa proposta só fica clara próxima ao final de Lima Barreto ao Terceiro Dia. Na maior parte da projeção, temos um equilíbrio um tanto capenga dessas três camadas, a de Policarpo sendo a de sensação de falta de propósito. Ainda que Orã Figueiredo esteja sempre estelar e continue a tradição com seu Policarpo, extraindo humor do drama na medida certa, sua performance se encontra a mercê de uma abordagem um tanto quanto protocolar, como se estivéssemos vendo justamente uma minissérie de O Triste Fim que foi condensada num longa metragem, seus segmentos incluídos sem que dialoguem de forma contundente com o resto.

Mas o problema não reside no aspecto de telenovela. É sempre interessante ver um diretor especializado em uma de nossas maiores tradições culturais e artísticas trazer algumas dessas características ao cinema a nível de exploração. A relação do estilo deste segmento com os outros dois é um dos elementos de maior potencial da obra a nível conceitual, na relação do romance que se torna “real” enquanto o mundo de fora é teatralizado. Entretanto, tem-se justamente isso: um potencial interessante que não é aproveitado ou consumado para se tornar, de fato, tema.

No clímax final, quando as três narrativas colidem, sentimos de verdade esse potencial desperdiçado. Miranda e Orã finalmente brilham com seus monólogos dramáticos e a falta de coesão ou clareza temática até então presentes dá lugar ao entendimento da proposta, mas é uma pena que até esse clímax chegar presenciemos uma produção que carece de um melhor entendimento de como as partes do resto de seu corpo se encaixam.

  • Nota
2

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