Crítica: Heartstopper Para Sempre
Heartstopper Para Sempre
Direção: Wash Westmoreland
Roteiro: Alice Oseman
Nacionalidade e Lançamento: Reino Unido, 2026
Elenco: Joe Locke, William Gao, Tobie Donovan, Kit Connor, Ashwin Vishwanath, Evan Ovenell, Echo, Yasmin Finney, Corinna Brown, Kizzy Edgell, Rhea Norwood.
Sinopse: Nick e Charlie estão apaixonados, mas novos desafios o esperam: Nick está se preparando para ir para a faculdade e Charlie assume novas responsabilidades na escola.
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Cedo para ir embora, tarde para continuar. Dá para resumir dessa forma a jornada que termina agora com Heartstopper para Sempre, longa-metragem que chegou à Netflix no último dia 17. Depois de três temporadas de grande sucesso, o encerramento era previsto como escrevi na crítica da terceira temporada. Os atores estavam ficando mais velhos que os personagens dos quadrinhos e o nível dramático não encaixava com a tentativa de leveza e aventura que marcou os primeiros anos.
Roteirizado pela quadrinista e criadora Alice Oseman e dirigido por Wash Westmoreland, em Heartstopper para Sempre acompanhamos o último ano no colegial de Charlie Spring (Joe Locke) e Nick Nelson (Kit Connor), que agora precisam se separar. Nick vai para faculdade. Parte da trama se concentra nas ansiedades naturais desse contexto, com foco em Nick. Charlie ainda sofre com as rebarbas do transtorno alimentar e da oscilação da dependência ou paixão do casal.
Necessário elogiar a habilidade do roteiro em escrever o drama da separação, junto a aventura de imaginar o futuro que parece tão promissor ao mesmo tempo que oferece medo. Ver Charlie recuperado e altivo na relação muda as perspectivas, embora sofra recaída quando eles “dão um tempo” — reforçando o uso exagerado de clichês adolescentes. Entretanto, o drama acaba sendo o ponto alto, especialmente pela belíssima atuação de Locke e Connor.

O grupo de amigos continua lateral. São adendos de uma história que sabe que pode contar com eles para dar suporte aos protagonistas, e quando sacam esse recurso, o filme sofre sem saber o que fazer para além disso. Nesses períodos sobram espaços para boas intenções. Um pouquinho da relação de Elle (Yasmin Finney) e Tao (William Gao), que enfrentam crises; bons momentos de afirmação de políticas de diversidade e a necessidade de resistência frente aos constantes ataques do ultraconservadorismo; a boa relação da irmã de Charlie, Tori Spring (Jenny Walser); a troca da mãe de Nick, substituíram Olivia Colman por Anna Maxwell Martin; e os outros amigos com suas vidas paralelas.
Talvez o maior deslize seja na dinâmica de ciúmes por parte de Charlie que foge do tom. Fica chato o ciuminho adolescente sem maiores contrapontos. As repetições de lugares-comuns como o excesso de bebida de Nick, a insegurança marcada de formas repetidas não ajuda o desenvolvimento. Oscilações que tentam tapar buracos de uma história que não tinha substância para segurar quase duas horas de duração. Passa a sensação de que os cortes na escrita foram feitos no lugar errado.
Soma-se a isso a direção insossa e altamente sem graça de Wash Westmoreland. Verdade que ele não tem trabalhos chamativos para chamar de seu, salvo o excelente Para Sempre Alice (2014) em que foi co-diretor. O filme inteiro parece ter sido filmado para as redes sociais. A direção de fotografia de James Rhodes não ajuda em dar uma encorpada nas imagens e no drama. Seu currículo não contribui para cartas na manga. O melhor trabalho talvez tenha sido o divertido Better Man – A História de Robbie Williams (2024).

Mesmo com todos os pontos, continua difícil se despedir do casal adolescente que está crescendo. Ver o epílogo com todos os amigos dando um destino em suas vidas, com esperança de que o mundo pode ser melhor e oxalá seja, cria um sorrisinho de canto de boca irresistível. A conquista dos corações apaixonados continua sendo uma delícia de acompanhar. Assistir Kit Connor e Joe Locke amadurecidos como atores reforça a sensação de verdade que transmitem na atuação. Connor, por exemplo, já experimentou trabalhos adultos, como em Tempo de Guerra (2025), enquanto Locke ainda não emplacou outros gêneros.
Agridoce: palavra que resume o fim cinematográfico apresentado por Alice Oseman. Ela fica marcada pela novidade e ousadia em apresentar ao grande público uma narrativa simples, carismática e de final feliz, contrariando as que apresentavam o oposto nas histórias queers. O encerramento sem uma nova temporada e com um filme, passa um sinal de que não havia tantos espaços para criar, mas dignifica uma narrativa que, quando apareceu, foi bem-vinda e acalentou o coração de pessoas LGBTQIA+ de todas as idades. Heartstopper, apesar de suas instabilidades naturais, terá seu lugar no hall de boas representações das formas de amar.
Nota: 3 /5