Crítica: Pillion
Pillion
Direção: Harry Lighton
Roteiro: Adam Mars-Jones, Harry Lighton
Nacionalidade e Lançamento: Reino Unido, 2025
Elenco: Harry Melling, Alexander Skarsgård, Douglas Hodge, Lesley Sharp, Jake Shears, Mat Hill.
Sinopse: O jovem indeciso e tímido Colin (Harry Melling) leva uma vida monótona até conhecer Ray (Alexander Skarsgård), um galã incrivelmente bonito que é líder do clube de motociclistas. Logo, Colin aceita virar submisso do misterioso Ray, que o tira de sua existência suburbana e introduz o rapaz a um universo queer e uma comunidade de fetiches nunca antes vivenciado por Colin.
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Existem filmes que realmente te tiram da zona de conforto e te provocam a reconhecer a sua própria moralidade como um obstáculo a ser enfrentado caso deseje conectar-se em um nível mais profundo com a obra. Pillion, a estreia na direção de longa-metragem de Harry Lighton, é um deles, ao retratar a dinâmica de relacionamento BDSM entre um rapaz tímido e desajeitado, interpretado por Harry Melling, e um motoqueiro bad boy, interpretado por Alexander Skarsgård.
Ambos, Ray (Skarsgård) e Colin (Melling), se conhecem, ocasionalmente, em um pub londrino. O que foi apenas um flerte de olhares se transformou em um encontro inusitado em um beco escuro na noite de Natal. Dali em diante, o relacionamento entre os dois evoluiu para uma paixão avassaladora cheia de química, baseada na dinâmica de dominação e submissão definida em um relacionamento BDSM, com atos de humilhação constantes, em que infligir o outro à dor é uma das práticas mais comuns, e onde raras demonstrações de afeto acontecem da maneira como geralmente o reconhecemos.
A direção de Lighton evidencia essa distância abismal que existe entre os protagonistas nos enquadramentos e na decupagem, quando repetidamente isola os personagens em quadros, mesmo quando estão juntos ou ocupando o mesmo ambiente. A cena em que Ray toca piano e ambos se comunicam, pela primeira vez, em um nível mais profundo, por meio de um espelho, é muito inspirada. No início, tais escolhas são mais perceptíveis, já que elas constroem o que absorvemos daquela dinâmica; uma frieza que, quando não nos provoca sentimentos mistos, de estranhamento ou revolta, sem dúvida proporciona boas gargalhadas pela comicidade britânica sempre peculiar.

Por um tempo, a rotina e dinâmica entre o casal vão bem; é quando mais vemos a influência da subcultura que Ray faz parte em Colin, do corte do cabelo às roupas que o mudam completamente. É quando uma tragédia familiar, já prevista desde o início da trama, fragiliza Colin de tal maneira que a dinâmica entre ambos estremece-se e muda de maneira irreversível. A fragilidade em Colin leva à flexibilização das regras impostas por Ray e esse movimento anuncia que o fim entre os dois está próximo. A mesa de poder foi para sempre desestabilizada.
A cena do beijo, em que ambos se engalfinham no chão em uma rima visual que remete à primeira cena, em que ocorre o primeiro sexo com penetração da vida de Colin, demonstra exatamente isso. Com a câmera na mão, a sequência da grama, ao ar livre, já é naturalmente instável. Mas, quando Colin acaba com o corpo sobre o de Ray, existe uma clara noção de que o poder mudou de lado e agora Ray, cedendo ao beijo, parece estar mais submisso a Colin do que o contrário. A primeira e última demonstração de afeto desse tipo entre os dois é, também, uma espécie de beijo da morte.
Voltando ao início, por vezes me vi completamente revoltada pela humilhação à qual Colin se submetia. Não podia compreender um relacionamento em que a dor e humilhação constantes não fossem apenas um meio para o prazer, mas para o desenvolvimento de uma conexão, um laço afetivo. A cena em que Ray responde à Peggy, mãe de Colin, que a maneira como tratava seu filho não era feita para agradá-la, e sim para agradá-lo, foi como se quatro dedos apontassem de volta para mim enquanto passei o tempo todo apontando para eles.
Sim, é verdade. O relacionamento que Pillion aborda não é para agradar o espectador, é mais para confrontá-lo diante de sua própria moral. É um filme que enfrenta a moralidade muito de frente, seja nas provocadoras cenas de sexo, até à maneira como escolhe retratar BDSM enquanto prática. É muito natural para o filme, e talvez por isso o final seja tão bom. Não há qualquer julgamento moral sobre as escolhas de Colin, então, por que eu teria?
Nota: 3,5 /5