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Crítica: Pai Mãe Irmã Irmão

Pai Mãe Irmã Irmão
Direção: Jim Jarmusch
Roteiro: Jim Jarmusch
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2025
Elenco: Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Vicky Krieps, Sarah Greene.
Sinopse: Irmãos se reencontram após anos separados, forçados a enfrentar tensões não resolvidas e a reavaliar seus relacionamentos tensos com os pais emocionalmente distantes.

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Premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza ano passado, o novo filme do diretor Jim Jarmusch estreou em abril nos cinemas brasileiros e agora encontra-se disponível na Mubi. O prêmio de Pai Mãe Irmã Irmão teve mais cara de reconhecimento de carreira do que pelo longa-metragem debutado na cidade italiana. O cineasta já exibiu projetos melhores. Isso não quer dizer que essa nova empreitada seja ruim, apenas segue o protocolar jeito Jarmusch de fazer cinema. 

Antologia de título autoexplicativo — com três histórias —, traz rostos que trabalharam com o diretor, como o parceiro de longa data Tom Waits e recentemente Adam Driver. Estes dois, juntos a Mayim Bialik, fazem parte da primeira moldura, num encontro com o Pai (Tom Waits), numa relação cheia de não-ditos e lacunas, somadas a omissões da vida presente. Os filhos, Driver e Bialik, não visitam o genitor há dois anos. Parece um grande teatro ritualístico e cheio de boas (ou falsas?) intenções — de ambos os lados.

A segunda pintura, Mãe (Charlotte Rampling) espera as duas filhas, Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps), para o anual chá da tarde, quando as três se encontram. Enquanto Lilith esconde seu relacionamento homoafetivo e parece em outro universo, chegando primeiro à casa da mãe, Timothea, a mais velha, informa do atraso, chamando a mãe de ‘mamãe’. Claramente existe um descompasso entre elas, reforçado pela rigidez militar do chá da tarde — desrespeitada por Lilith —, os silêncios constrangedores e lacunas do passado e presente de todas. 

Irmã (Indya Moore) e Irmão (Luka Sabbat), fazem a terceira parte do quadro em que tudo que vimos continua presente não pelos motivos iguais, e sim porque Irmã e Irmão perderam os pais num acidente de avião. Os vazios e protocolos da relação familiar, existe por não ser possível se afastar por vontade própria dos pais — como aconteceu nas histórias anteriores —, mas por terem sido afastados pelo acaso. O silêncio dialético e carinhoso dos Irmãos contrasta com o gélido afeto dos filhos apresentados anteriormente. 

Protocolar pode ser a palavra que melhor traduz o longa, também roteirizado por Jarmusch, inclusive no luto. Empacotar coisas, visitar fotos antigas, relembrar memórias e descobrir coisas nunca antes ditas — que agora não serão faladas — e fascinar sobre o que poderia ter sido. A distância afetiva de Pai e de Mãe, pode ter se dado por vários motivos que não sabemos e podemos supor. O Pai, história que se passa no inverno norte-americano, parece o cinzento tempo de Dublin onde vive Mãe. 

Histórias diferentes que se complementam: o afastamento tipicamente masculino do Pai e a austeridade tipicamente britânica da Mãe. O contraste só aparece no verão parisiense dos irmãos (Moore e Sabbat) que, apesar do luto, estão em outro momento da relação. Diferente do que vimos, entre eles existe comunicação, nexo, sentido. Os irmãos de Driver e Bialik se conhecem até a página dois, enquanto as irmãs de Blanchett e Krieps vivem em mundos opostos, aparentemente se encontrando uma vez por ano no mesmo dia que encontram a mãe.

Jarmusch, contudo, não faz nada para dar novos sentidos a suas histórias cerimoniais. Sua direção informa pouco ou quase nada para além das palavras escritas no roteiro. O gracejo mora no excelente timing da montagem e na boa interpretação dos atores que, com pouco tempo de tela, incorporam alguma verdade em seus personagens. Às autorreferências jarmuschianas, por assim dizer, tampouco falam algo do desejo dos personagens. Apenas constam na tela. Não há problema em ver um pouco de Estranhos no Paraíso (1984), Uma Noite sobre a Terra (1991) e Sobre Café e Cigarros (2003), por exemplo — embora ninguém fume.

A proposta de reflexão sobre relações familiares termina agridoce, perdendo força na segunda história. Waits, Driver e Bialik estão inspirados. Há vigor e ritmo na esquete feita pelo diretor, que não se furta de apresentar algum tipo de mistério sobre quem são aquelas pessoas que agem como parentes distantes, obrigados a se verem por algum vínculo de herança. Com as três mulheres — a atuação de Charlotte Rampling brilhante — existe um tipo de afeto que não circula, uma tensão comportamental inescapável. Os Irmãos se comunicam pelo vazio a ser preenchido por afeto, e o vazio instalado realmente não diz nada que não seja a tristeza da perda e da recuperação impossível. 

Essa sensibilidade típica do diretor continua sendo sua marca prazerosa. O núcleo exposto dos personagens, incômodos e deslocamentos afunilados pela necessidade dos encontros, dizem do mistério da vida privada dentro de cada família. Para Jarmusch, afastamentos provocados, feitos pelo acaso ou pela impossibilidade da convivência das diferenças, fazem da família ambiente de constante tensão que pode afastar ou aproximar. Uma pena que na tela, o reflexo aconchegante das cenas tenham sido reduzidas a uma simples provocação protocolar.

Nota: 3 /5

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