Crítica: A Pele Morta (2026) – 59º Festival de Brasília
A Pele Morta (2026)
Direção: Denise Moraes, Bruno Fatumbi Torres
Roteiro: Geraldo Moraes
Elenco: César Troncoso, Luan Iturve.
Sinopse: Um caminhoneiro uruguaio e seu ajudante, um jovem indígena, viajam pelas estradas entre o Brasil e o Paraguai enquanto constroem uma relação entrelaçada por diferenças e descobertas. Em meio à paisagem na fronteira, os dois se deparam com as marcas da perda de território e com as consequências da exploração que ameaça comunidades indígenas.
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Filme de abertura do 59° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, A Pele Morta traz um Brasil que se expande além do nosso território. Lembrando que aqui também é espaço latino-americano e nossos caminhos se entrelaçam com o dos países vizinhos de muitas maneiras, algumas mais sutis do que costumamos imaginar.
Na história conhecemos Saulo, um jovem rapper guarani-kaiowá que está insatisfeito com a vida e com o que vai ser o seu futuro. Perdeu seu irmão mais velho, enquanto o mais novo parece ir de mal a pior. Tudo muda quando seu caminho se cruza com Justo, um caminhoneiro uruguaio que se desloca do Brasil até o Paraguai e oferece trabalho para o jovem. Eles seguem procurando encomendas para levar de um canto a outro quando encontram Rosário, uma menina que segue em busca de sua irmã mais velha que não vê faz 6 anos.
Aqui os personagens estão sempre em deslocamento. O trajeto da estrada refletindo as buscas individuais de cada um. O estranhamento é sempre parte do universo deles. As incertezas também. E assim essa dupla que se torna um trio segue. Sem grandes acontecimentos, mas com a força de continuar independentemente das adversidades.
É interessante como o filme faz questão de trabalhar as relações entre a América do Sul. Os territórios explorados pelos personagens; o idioma indígena compartilhado por Saulo e Rosário, dois jovens nascidos em países diferentes, mas ainda assim de um mesmo povo indígena; a ideia de uma vida melhor na Argentina. O tempo inteiro é proposto pelo filme que apesar das diferenças entre cada local, somos todos uma única região. Com mais semelhanças do que nos damos conta.
É um road-movie cativante e claramente bem intencionado. E que nos mostra e faz refletir sobre a América Latina. Sofre um pouco com problemas de desenvolvimento das relações dos personagens. Os desentendimentos entre os dois protagonistas de vez em quando soam exagerados e forçados. E por mais que Rosário seja parte essencial da trama, soa pouco realista a maneira que a menina simplesmente sobe em um caminhão com dois homens desconhecidos e segue viagem com eles, sem em nenhum momento pensar em sua segurança física. E por mais que isso seja posto por Justo em um primeiro momento, não é bem trabalhado no tempo que ela fica com eles. Isso diminui um pouco a verossimilhança do longa-metragem.

Para um road-movie onde o tempo e o espaço acabam sendo pontos cruciais, nunca conseguimos entender quanto tempo os personagens passaram juntos na estrada. Nem quanto tempo Rosário ficou com eles. Podem ter sido dias ou meses e o filme torna impossível de determinar. E justamente por isso algumas situações acabam parecendo menos críveis, porque se não entendemos quanto tempo se passou, certas conexões acabam soando exageradas e até mesmo forçadas.
A Pele Morta é um filme muito bem filmado. Possui um cuidado no design de produção e na construção de planos. É um belo filme de abertura para o Festival de Brasília. E que mostra a diversidade da América do Sul enquanto retrata as semelhanças entre os países sem cair em estereótipos.
Nota: 3 /5