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Crítica: O Convite

O Convite
Direção: Olivia Wilde
Roteiro: Cesc Gay, Will McCormack, Rashida Jones
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2026
Elenco: Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz, Edward Norton.
Sinopse: Joe e Angela são um casal que se vê preso à rotina da relação. Seu relacionamento está à beira do colapso quando eles casualmente convidam seus vizinhos Hawk e Piña para jantar. No entanto, o que era pra ser uma noite tranquila com coquetel, se transforma em um evento repleto de reviravoltas inesperadas.

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Aos amantes de comédias adultas, trago boas notícias: o cinema ainda se lembra de nós. Mais precisamente, Olivia Wilde ainda se lembra de nós. Em seu novo filme intitulado O Convite, a diretora e atriz presta homenagem a esse gênero, que praticamente desapareceu dos cinemas nos últimos anos, com um trabalho tão bem feito que me remeteu a alguns dos meus filmes favoritos não apenas do gênero, mas da história do cinema, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa de Woody Allen, Se Meu Apartamento Falasse de Billy Wilder e a referência que a própria diretora já trouxe em entrevista, o Doze Homens e Uma Sentença do Lumet (este por motivos diferentes).

No filme, o casal em crise interpretado por Wilde e Seth Rogen recebe os vizinhos peculiares e barulhentos, Penélope Cruz e Edward Norton, para um jantar desajustado e cheio de surpresas. Ao longo da noite, as revelações vão mudando o rumo das interações. O que era para ser uma oportunidade de fazer novos amigos se desdobra em uma sessão de terapia, durante a qual nossas emoções flutuam em diferentes espectros, do humor pelo constrangimento até a tensão, mesmo sem sabermos exatamente por quê estamos tensos.

Desde Booksmart, a comédia adolescente de amadurecimento que marcou o debut de Wilde na direção, é notável o talento especial dela para a comédia. Um dos principais elementos de uma boa comédia não se concentra apenas no timing cômico da gag, mas no ritmo do roteiro, na atuação, na forma como se faz a montagem e, não menos importante, nas escolhas que a direção irá tomar quando o assunto é movimentar a câmera pelos espaços.

No terceiro longa-metragem da diretora, o espaço é limitado e isso, por si só, poderia ser sinônimo de limitante. Para direções que não pensam fora da caixa ou não têm o mesmo apreço pela linguagem audiovisual quanto têm pelo roteiro, O Convite poderia se tornar facilmente verborrágico e entediante. Se os diálogos, ainda que muito bons, fossem pensados apenas mediante uma estrutura básica de plano e contraplano, era bem possível que esse se transformasse em um dos piores ou mais desinteressantes filmes do ano, mas é aqui que ela se aproxima da referência de Lumet.

Ela pensa em uma direção que trabalha a encenação com tanto esmero quanto o texto. A imagem comunica tanto quanto a fala; não é somente sobre o que será dito, mas sobre a marcação dos atores e sobre o posicionamento da câmera em relação a estes e ao espaço. Bem como Doze Homens e Uma Sentença utiliza jogo de luz e sombra das janelas e persianas, ela usa espelhos, cômodos inteiros, colunas e também janelas como recursos que somam e comunicam, por exemplo, as dinâmicas transitórias de distanciamento/intimidade entre os personagens ao longo da noite.

Quando Joe (Rogen) finalmente revela seu principal incômodo com os vizinhos, o faz posicionado perto de um abajur que reflete em seu rosto uma luz que distorce suas feições, dando dimensão à raiva que ele sente — mais sobre ele mesmo que sobre o casal a quem ele se direciona. A última cena, uma das únicas com o casal principal (Wilde e Rogen) ocupando o mesmo quadro, é emoldurada pela janela do apartamento e filmada de longe. Ela se transforma em uma ironia interessante: como se observássemos, mesmo depois de saber os mais sórdidos detalhes sobre aquele casamento, ainda não soubéssemos de tudo. Como se ainda houvesse uma intimidade que podemos espiar.

Antes de me encaminhar para o fim desse texto que poderia ter pelo menos mais cinco parágrafos, todos elogiosos, preciso destacar o quanto a escolha de um elenco e a caracterização fazem diferença em um filme como esse, que depende (muito) dos atores e da forma como eles se apresentam. Não apenas é importante que tenham talentos individuais, com momentos para que brilhem separadamente, como também é preciso que haja uma sintonia especial entre todos quando dividem a mesma tela. Nesse filme o entrosamento é genuíno e o talento transborda, de todos os lados.

Para encerrar, me voltando a Allen e Wilder, O Convite me remete aos seus filmes por conduzir o espectador sobre temas e dilemas da vida adulta e do relacionamento a dois com uma sabedoria e maturidade inerentes a uma fase da vida que não tem mais espaço para inocências, mas que ainda vale ser vivida em seus acasos e pequenos milagres. Wilde prova que tem o espectador na mão, manipula as emoções de uma plateia inteira com maestria, um trabalho que além do roteiro e da direção, também une trilha sonora e montagem em torno de um mesmo propósito. Como ela mesma disse, se fizesse apenas esse filme, ficaria feliz. E eu acho que ela deve ficar, e que Diane Keaton também ficaria.

Nota: 4,5 /5

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