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Crítica: A Fúria

A Fúria
Direção: Ruy Guerra e Luciana Mazzotti
Roteiro: Ruy Guerra, Luciana Mazzotti, Pedro Freire, Leandro Saraiva
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 2026
Elenco: Ricardo Blat, Lima Duarte, Daniel Filho, Antônio Pedro, Paulo César Peréio, Simone Spoladore, Grace Passô, Roberto Frota, Higor Campagnaro, José Urutau Guajajara, Lux Négre, Joelson Medeiros, Antônio Pitanga, Anselmo Vasconcelos.
Sinopse: Muito tempo após eventos de Os Fuzis (1964) e A Queda (1978), o protagonista Mário retorna dos mortos disposto a se vingar dos homens que o assassinaram num mundo cercado pela morte e pela extrema-direita.

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Em tempos que continuações vem geralmente como filmes que só existem para reforçar marcas e surfar em cima do passado por questões meramente mercadológicas, surge A Fúria. Um filme em que o seu autor retoma dois filmes do passado e a história deles por motivos de inquietude criativa e por ter coisas a dizer com a continuação de uma história. A Fúria é um filme de confronto. Aqui tudo é confronto em cada um dos seus elementos, em toda a sua lógica formal, temática, política, ideológica e dramatúrgica, em toda a sua radicalidade tanto como cinema quanto como discurso e justamente por isso A Fúria é um dos melhores filmes de esquerda dos últimos anos.

Saindo do cinema meu amigo Ícaro disse que “esse é um filme do Cinema Novo feito hoje em dia”. E é exatamente isso mesmo. O Ruy Guerra, um cinemanovista de 94 anos, escancara a filmagem digital crua e usa diversas ferramentas de hoje pra falar de como o Brasil se encontra com uma filosofia cinematográfica e princípios típicos do Cinema Novo.

Guerra e sua codiretora Luciana Mazzotti tratam de modo frontal de um país dominado pela extrema direita, pelo fascismo, pela dimensão gigante do reacionarismo, pelo bolsonarismo, pela corrupção cínica dos poderosos hipócritas e oportunistas que comandam o Congresso, pelo fracasso das instituições burguesas e pela ameaça eterna de todos os alvos desse horror. Um fantasma vaga atormentado os seus algozes e sendo ele mesmo atormentado em ver como o seu país se encontra. Guerra e Mazzotti rejeitam qualquer sutileza e escacaram os seus temas. O que eles querem dizer, denunciar e pra quem eles querem apontar.

Eles chegam ao ápice de fazer com que a representação de Jair Bolsonaro — aqui um zumbi tosco e asqueroso — tome uma flechada no pescoço. O filme acredita maravilhosamente na violência aos fascistas e faz uma carta de ódio a eles, mas não é ingênuo de achar que o rastro de horror deles acaba com os seus fins.

O discurso das suas mensagens é completamente direto e escancarado nos diálogos, mas é tudo tão cheio de uma tristeza reflexiva, uma poesia de confronto, de confissão ao espectador e de uma raiva amarga com o mal–estar reacionário ao redor do mundo na crise de um capitalismo que destrói a si mesmo e tudo ao seu redor e das suas repercussões no Brasil que o didatismo se torna hipnotizante de se ouvir. Ao contrário de um caminho professoral vazio.

Os personagens são exagerados e cartunescos, falam sozinhos e falam com a gente, mas também são emocionalmente pesados narrativamente, carregados como interpretação e palpáveis como arquétipos e figuras de uma abordagem pop. A crítica política nunca se torna pueril ou superficial porque por mais clara que ela seja, não existe saídas fáceis e óbvias quanto a como o filme mostra o funcionamento político, institucional e ideológico das coisas. Pelo contrário. Ele é assustadoramente lúcido.

O que existe é essa melancolia amarga com a podridão que infesta o nosso mundo. Guerra, um artista sempre sombrio, faz um filme em que está claro que ele está tomado por uma raiva com o estado das coisas. É uma raiva triste e jamais tola. Uma raiva que motiva e que queima por dentro. Uma raiva que tem foco. Uma raiva que não tem fim. Que persiste. Não desisti ou vira cinismo.

Esse raiva e violência de um filme filmado durante o governo do fascista Jair Bolsonaro e que está sendo lançado no ano que esse mesmo país corre o risco de eleger o fascista Flávio Bolsonaro, seu filho. É uma raiva latente e uma tristeza que estão em cada elemento do filme, mas que servem como alimento de uma elaboração criativa e de ideias de resistência que seguirão para toda a eternidade.

Um fator fúnebre com a relação do passado, o fantasma de Mário feito agora por Ricardo Blat em substituição a morte do protagonista original Nelson Xavier, o fantasma do golpe de 1964, todas as mortes do filme, com o olhar desses agentes do passado pro Brasil de hoje, com as inserções imagéticas das cenas do passado em preto e branco de Os Fuzis e A Queda em tela na montagem, com o sangue digital grosso, com o tiro digital na testa em um assassinato e com o diálogo das fusões se torna emocionalmente mais pesado com o fato desse filme ser povoado de atores idosos entre 70 e 90 anos que não fazem questão nenhuma de esconder o peso do tempo neles, quatro deles já terem morrido e ele ser dirigido por um senhor de 90 anos.

Não existe um grito no vazio, existe uma pulsão criativa que vem dessa organização capaz de unir o teatro no uso de projetores no quadro (um deles passando pela testa de Lima Duarte), nos cenários artificiais, nos fundos falsos, nas interpretações não realistas, nos elementos parciais de fantasia diatópica, na hiper intensidade exagerada do texto, da direção e dos atores e uma mescla disso tudo com o tipo mais arrojado de cinema num trabalho de câmera brilhante flutuando e navegando pelos personagens, buscando ângulos tortos, planos holandeses que são inclinados de modo lateral, uma câmera na mão nos ombros se movendo e adentrando espaços com os personagens e também no chiaroscuro que com o seu alto contraste de luz e sombras banha as figuras de Daniel Filho, Grace Passô e Roberto Frota de escuridão na deslumbrante fotografia digital de Luís Abramo.

Guerra na sua estilização junta cinema, teatro, videoarte e videoinstalação fazendo um filme de direção livre e narrativa abstrata, mas muito inteligente em como enquadra os personagens em primeiro plano e segundo plano numa agressiva troca de diálogos entre Daniel Filho e Higor Campagno, faz uma série closes e planos fechados em seus atores, sempre investigando eles por diferentes ângulos e atento no registro de observação assumida dessas figuras. Ele investiga o rosto de Roberto Frota por baixo num close ou apresenta o capanga policial feito por Campagno pequeno num plano geral numa lente grande angular com ele afastado do quadro sentado num sofá todo esparramado e minúsculo lá no fundo enquanto a câmera vai aos poucos abrindo pra mostrar um espaço já amplo e distorcido dentro da cena graças a grande angular.

A encenação é a manifestação criativa desse terreno de mal–estar e confronto que os personagens passam por um mundo distorcido traduzido imageticamente. Guerra e Mazzotti usam o gigantismo dos seus atores maravilhosos também num painel coral para dar conta dessa ideia. É um filme de confronto cênico, narrativo e de intepretação. As composições teatrais de um modo desavergonhado do elenco chegam em figuras apodrecidas, ridículas, intensas e em constante delírios. Lima Duarte e Daniel Filho estão espetaculares como as duas maiores manifestações desse tipo de abordagem em dois personagens nojentos típicos da extrema direita brasileira. Ricardo Blat, Grace Passô e Simone Spoladore também incríveis vivem embates aterradores com as figuras deles dois. Roberto Frota e Denise Milfont enchem a tela tanto de rigidez quanto de emoção nas suas participações especiais, mas o saudoso Paulo César Peréio com uma tristeza cansada e suave mostra no auge do seu envelhecimento porque era um dos melhores atores brasileiros quando tinha a chance de sair de um piloto automático. Porém quem me deixou mais comovido foi o falecido Antônio Pedro, que aparece só em duas cenas do filme e tem um impacto imenso em tela. A cena dele cantando “Bella Ciao” com o Ricardo Blat e a Denise Milfront num plano fechado conjunto sem cortes indo da empolgação até os olhos maleados de lágrimas é lindíssima. Interpretação fantástica num filme cheio de atores e interpretações fantásticas.

Nota: 4 /5

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