Crítica: Aqui Não Entra Luz
Aqui Não Entra Luz
Direção: Karol Maia
Roteiro: Karol Maia
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 2025
Elenco: Mãe Flor, Cristiane Graciano, Marcelina Martins, Miriam Mendes.
Sinopse: Entre memórias pessoais e pesquisas históricas, uma cineasta, filha de uma trabalhadora doméstica, percorre o Brasil procurando rastros da escravidão na arquitetura. No caminho, encontra outras mulheres que enfrentam o mesmo legado.
.

O universo das empregadas domésticas já foi explorado algumas vezes dentro do cinema brasileiro. Em 2012 Gabriel Mascaro trouxe ao mundo o documentário Doméstica, mostrando as complexidades das relações entre essas mulheres e as famílias para quem sempre trabalharam. Tudo isso através do olhar dos filhos dos patrões. Já Que Horas Ela Volta? de Anna Muylaert cria uma ficção para retratar a realidade difícil dessas profissionais que muitas vezes precisam abrir mão de uma parte da própria vida, para cuidar da vida dos outros. Duas formas diferentes de retratar e também criticar a maneira que o país trata essas profissionais.
O trabalho doméstico no Brasil é essencialmente feito por mulheres. Boa parte delas negras. O quartinho de empregada sendo praticamente uma senzala moderna. E as trabalhadoras que “são praticamente da família”, tratadas com resquícios de comportamentos que remetem à época da escravidão. E é aí onde o filme de Karol Maia vai se iluminar em meio aos outros trabalhos audiovisuais que aborda o mesmo assunto.
Diretora do filme, mas também personagem, Karol vai dar voz a cinco mulheres de diferentes estados do Brasil, e com histórias distintas. E que trazem o trabalho doméstico como ponto em comum. Uma delas, sua própria mãe.

O longa parece uma experiência catártica para a cineasta, que a partir desse trabalho se permite elaborar a própria relação com àquela que lhe deu a vida, mas também com o trabalho dela e o que isso significou para a sua família. E o que chega ao público é uma narrativa de muita sensibilidade. Karol Maia entende o quanto as histórias dessas mulheres trazem questões gigantes de gênero, raça e classe. Violências de diversos tipos que são ignoradas pela sociedade, enquanto a mesma continua a fechar os olhos para os problemas que a classe das empregadas domésticas passam, simplesmente porque é conveniente.
Ter acesso às histórias dessas profissionais a partir do olhar e da voz delas mesmas é de uma riqueza ímpar. Especialmente porque o filme jamais julga essas mulheres. Elas sempre são tratadas com a beleza, dignidade e respeito que merecem. Sem afetação, exageros, excesso de polimento. Apenas cru e real. E por mais que me incomode dizer que algo é necessário, me obrigo a dizer o quanto esse tipo de narrativa e olhar ainda é necessária para o audiovisual brasileiro.
Nota: 4 /5