Crítica: Margô Está em Apuros
Margô Está em Apuros
Criação: David E. Kelley
Nacionalidade e Lançamento: EUA, 2026
Elenco: Elle Fanning, Nick Offerman, Greg Kinnear, Michelle Pfeiffer, Thaddea Graham, Michael Angarano.
Sinopse: Uma jovem mãe tem problemas financeiros. Quando seu pai se oferece para ajudar, ela abre uma conta no OnlyFans. Embora bem-sucedida, ela se pergunta se a fama na Internet tem um custo muito alto.
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Poucas são as chances de racionalmente alguém escolher ter um filho. Uma simples ida ao supermercado, mudanças climáticas, crescimento da extrema-direita et caterva, colocariam abaixo qualquer aventura nesse sentido. Sabemos, porém, que as coisas são mais complicadas que isso. Fatores sortidos fazem alguém consciente ou inconscientemente levar uma gravidez adiante. Uma aposta legítima. Um desejo que tem o direito de se manifestar, mesmo em circunstâncias desafiadoras. Margô Está em Apuros, série da Apple TV+, parte dessa escolha e dos desafios seguintes.
Margô (Elle Fanning), descobre estar grávida de seu professor com quem nutria consensualmente uma paixão ingênua. A recusa dele em assumir o filho, faz com que ela abandone a faculdade e o sonho de ser escritora. As contas que continuam chegando e um recém-nascido que precisa de tudo, colocam nossa protagonista em caminhos pouco convencionais para conseguir dinheiro: ela abre um onlyfans.
Premissa ótima e roteiro irônico, colocam a discussão sobre como sustentar um adulto e um recém-nascido num mundo em que tudo parece inacessível e insustentável. Sem moralismos baratos ou romantização sobre os caminhos da protagonista, a série criada para a TV por David E. Kelley (Big Little Lies; Amor e Morte) e baseada no livro homônimo da escritora Rufi Thorpe, faz um apanhado generoso sobre como Margô constroi uma rede de proteção, afetiva e financeira, para dar conta da escolha de ter um filho no mundo atual.

Obviamente não há ninguém do lado dela. Sua mãe, Shayanne (Michelle Pfeiffer), embora esteja com a filha nos momentos cruciais, vive ruídos entre escolhas e expectativas de ambas as partes, contornadas por amor e compreensão. Das amigas sobra Susie (Thaddea Graham), a única que apoia Margô sem julgá-la — hobby em cosplay — , especialmente em seu projeto financeiro. Seu pai, Jinx (Nick Offerman), um adicto em recuperação e ex-lutador de luta-livre, ausente desde a infância, reaparece.
A ideia de abrir um onlyfans aparece por volta do terceiro episódio, após não conseguir se inserir no mercado de trabalho regular, podemos dizer. A comodidade de trabalhar de casa, perto do filho, com promessas de bons ganhos financeiros — que não se realizam com facilidade — e, em linhas gerais, serem fotos sugestivas, parece sedutora. A receptividade com surpresa do pai — que a apoiará em seguida — e desprezo da mãe, criam um ambiente desconfortável, expondo as hipocrisias do passado parental sobre as escolhas de vida para sobreviver.
Visto essencialmente como pornográfica — verdade em partes —, a plataforma acumula diversas formas de expressão da sexualidade. Margô se encaixa na sugestão com viés artístico, dando vazão para sua escrita e criando uma personagem que mexe com as fantasias sexuais dos pagantes. Nos oito episódios, o dilema ético ou moral da renda pela plataforma não faz parte dos assuntos centrais, mas engatilham problemas que a protagonista precisa resolver, ora por equívocos dela, ora por ingerência das pessoas que a amam.
A relação com a família do pai do bebê, por exemplo, passa de negligente a chantagista, escalando fabulosamente até chegar ao tribunal — com boa participação de Nicole Kidman. Todo esse imbróglio fatalmente divertido e dramático ao mesmo tempo, além de apresentar as dificuldades de criar um filho no século XXI, constroem uma jornada de amadurecimento. Fora do comum no cinema ou TV, a maternidade também pode ser um coming of age.
A decisão da protagonista em trabalhar com conteúdo adulto, forma simples detalhe de uma vida cheia de afeto, contradições, passados, presentes e amores ambivalentes fundamentais para a garantia de sobrevivência de uma nova vida. A partir do momento que Margô escolhe ser mãe, vemos sua ingenuidade caindo aos pedaços e tomando forma uma adulta que encara as consequências de suas escolhas, amadurecendo e se entendendo dentro das circunstâncias que a rodeiam.
Sem abordar frontalmente a precarização dos trabalhadores, e passando rapidamente pelos riscos de exposição da intimidade, a série roteirizada e dirigida apenas por mulheres — cada episódio tem uma roteirista e diretora diferente, com a supervisão de Kelley —, e a própria Elle Fanning e sua irmã Dakota Fanning como produtoras, constroem cenários vivos das contradições familiares e das poucas escolhas no capitalismo tardio. Elle Fanning, aliás, está ótima, e sua química com Michelle Pfeiffer espantosa. Não imaginei que assistir Pfeiffer num papel cômico, histérico e espalhafatoso seria tão satisfatório.

A relação com o onlyfans está o mais próximo do realismo possível. Os ganhos financeiros não aparecem de imediato. Margô investe tempo e criatividade, com parcerias para crescer na plataforma e conseguir ganhar algum trocado. Confundida como trabalhadora sexual, atrae olhares julgadores das amigas que diziam amá-la. A série perde a oportunidade de discutir sobre como a pornografia ou a nudez tem sido o bode expiatório contra a liberdade sexual de homens e mulheres, mesmo em tempos de, supostamente, maior liberdade. O tabu em torno do sexo e da exposição da sexualidade poderia ser melhor tensionado, mesmo acertando sobre a monetização das fantasias sexuais.
No fundo todos vendem uma fantasia. O pai, lutador de wrestling, e a mãe ex-garçonete do famoso bar Hooters — que apostava na sexualização das atendentes — estavam vendendo fantasias para sobreviver ao cotidiano. Se alargarmos o conceito de fantasia, todos estão vendendo a sua, das profissões ditas respeitadas às profissões marginalizadas. De CEO ‘s a trabalhadores sexuais por aplicativo, por exemplo, todos, sem exceção, vendem uma fantasia, encarnam uma promessa que não são capazes de cumprir na totalidade. A virtude de Margô Está em Apuros acaba sendo explorar esse conceito sem produzir qualquer julgamento moral sobre as escolhas para sobreviver num mundo em declínio e sustentar o desejo legítimo de ser mãe, ainda que esse desejo, inicialmente, também seja fantasiado.
Nota: 4 /5