Crítica: Gatilheiro - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
3 Claquetes

Crítica: Gatilheiro

Gatilheiro
Direção: Cristian Tapia Marchiori
Roteiro: Clara Ambrosoni, Cristian Tapia Marchiori
Nacionalidade e Lançamento: Argentina, 2025
Elenco:
 Sergio Podeley, Julieta Díaz, Ramiro Blas, Maite Lanata, Mariano Torre, Matías Desiderio, Susana Varela, Gonzalo Gravano.
Sinopse: Um thriller em tempo real filmado em uma cena contínua. Nas ruas de Isla Maciel, Buenos Aires, uma história contundente de tragédia e redenção se desenrola que mantém o espectador na beira da cadeira.

.

Gatilheiro mostra ousadia do cinema independente argentino

No último dia 02 de junho aconteceu a maior premiação do cinema argentino, o XX Prêmios Sur, dado pela Academia de las Artes y Ciências Cinematográficas de la Argentina, com ganhadores esperados e algumas surpresas. O vencedor de melhor película foi Belén (2025), dirigido por Dolores Fonzi (disponível no Prime Vídeo), que foi o enviado pelo país como representante no Oscar  — passou na primeira seleção, ficou na shortlist e o resto, história. Inclusive, O Agente Secreto ganhou o prêmio de Melhor Filme Ibero-americano.

O segundo maior ganhador — na verdade empatado com Belén com 5 prêmios —  foi Gatillero, ou Gatilheiro (2025), filme de ação inteiramente em plano sequência, independente, quase marginal, e que no Brasil, apesar da identificação temática, não foi assistido como deveria. Não se trata de um novo clássico argentino, mas merece o reconhecimento pelo feito técnico e narrativa simples.

Escondido no catálogo confuso da HBO Max desde setembro do ano passado, Gatilheiro, segundo longa do diretor Cristian Tapia Marchiori, acompanha em tempo real a recém saída da prisão de El Galgo (Sergio Podeley), um matador de aluguel que trabalhava para a Madrinha (Julieta Díaz), a chefe do tráfico do bairro. Dentro de uma única noite, Galgo retoma laços com os capangas da Madrinha e se vê numa rede de traição, assassinatos e controle de território. 

Galgo foi usado por uma ala da quadrilha que encomendou a morte de Madrinha e buscava dar um golpe e tomar o poder. O plano não funciona e a guerra pelo território toma proporções grandiosas com a morte de inocentes. Apesar da recusa inicial de Galgo, um sujeito meio recluso, na companhia de seus ex-colegas, se vê solto e imponente, numa aparente tentativa de não passar fragilidade.

O roteiro enxuto de Marchiori e Clara Ambrosini, favorece a percepção de urgência, junto a delimitação temporal, embora enquadre o protagonista num emaranhado de importância difícil de comprar. A ideia de estar no lugar errado na hora errada, mesmo tendo sido peça importante na dominância do território antes de ser preso, carece de substância e peso dramático para gerar maior simpatia por ele e sua história. 

Se existe algo interessante são os feitos narrativos da direção em construir uma história em tempo real, que avança madrugada adentro num único plano, às vezes com cortes imperceptíveis, outras nem tanto. Galgo vai de caçador a caça em poucos instantes e se torna fugitivo dentro do próprio bairro, perseguido por colegas, amigos e jovens que ele viu crescer. Fica subentendido a falta de oportunidade naquela periferia e como seria difícil sair daquela realidade. 

Galgo vira bode expiatório de uma disputa interna que, em sua negativa frouxa — qual escolha ele teria? —, aparentemente se viu num beco sem saída. A polícia que deveria fazer a segurança está fechada com a quadrilha, fazendo a população refém. Neste ponto, os roteiristas introduzem um elemento distrativo. Parte dos locais, que nada tem a ver com a guerra dos traficantes, resolve juntar forças para retomar o bairro. Um discurso raivoso e empoderador meia boca, dado pelo que entendemos ser o líder comunitário Nelson, em participação especial de Ramiro Blas, fica completamente deslocado. 

Tal ato cria um levante de moradores com armas em punho que sai do nada para lugar nenhum, pois logo retomamos a companhia de Galgo e sua luta por sobrevivência e justiça depois da morte de Nilda (Susana Varela). Apesar das dispersões, continua um roteiro enxuto, já que tudo ocorre dentro de 80 minutos de duração. O conjunto da obra fez com que Marchiori fosse reconhecido no Prêmio Sur com Melhor Direção e Roteiro Original. Além disso, levou Melhor Fotografia, Som, e Maquiagem e Caracterização. 

A câmera na mão lembra brevemente a sensação que foi Cidade de Deus, com seu faroeste urbano e a direção de Fernando Meirelles. Não vale a comparação, mas Meirelles e Kátia Lund fizeram consistente e esteticamente melhor a relação controversa do domínio de territórios urbanos. A jornada do protagonista, porém, lembra vagamente Carlito, de Pagamento Final, o fabuloso longa de Brian de Palma, com Al Pacino tentando sair do crime e sendo arrastado, por vontade ou gravidade, de volta.

Gatilheiro não pode ser comparado objetivamente a nenhum deles. São meras referências e percepções. Ambos os filmes tinham orçamentos mais generosos, e o estadunidense estava em outro patamar. O segundo filme de Cristian Tapia explora um gênero com pouca força no cinema latino-americano, especialmente no cinema independente. A ação de sobrevivência com violência, esculpida de maneira cuidadosa e visualmente chamativa vale a visita, tendo o reconhecimento como uma surpresa entre os presentes na cerimônia, segundo reportagem do jornal argentino Clarín.

O empate com Belén no Prêmio Sur, por exemplo, aponta para o momento político de resistência na Argentina. O filme de Fonzi, sobre o direito ao aborto, e Gatilheiro que narra os marginalizados, com o diretor vindo da margem da opulenta Buenos Aires, parecem ecos da luta travada entre artistas e o governo ultraliberal de Javier Milei que consistentemente corta o financiamento do cinema argentino. O resultado, por vezes nada positivo, tem sido a tentação do streaming. Com ou apesar disso, qualquer ousadia cinematográfica, mesmo com simplificações, deve ser apreciada. Gatillero foi uma delas.

Nota: 3 /5

Deixe seu comentário

×
Cinemação

Já vai cinéfilo? Não perca nada, inscreva-se!

Receba as novidades e tudo sobre a sétima arte direto no seu e-mail.

    Não se preocupe, não gostamos de spam.