Eu Cinéfilo #87: O streaming transformou séries em conteúdo descartável? - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Eu Cinéfilo #87: O streaming transformou séries em conteúdo descartável?

Durante décadas, assistir televisão era quase um ritual. Não era só ligar a TV e escolher algo para passar o tempo. Existia um dia certo, um horário marcado e uma preparação silenciosa que acontecia ao longo da semana. A rotina das pessoas se ajustava ao programa favorito. Jantar mais cedo, tomar banho antes, avisar em casa para ninguém mudar de canal. Havia uma pequena ansiedade que crescia dia após dia. Não era apenas sobre acompanhar uma história, era sobre viver aquele momento junto com milhões de outras pessoas. Se você perdesse o episódio, ficava realmente de fora. No dia seguinte, na escola, no trabalho ou nas redes sociais, a conversa girava em torno daquilo. E quem não assistiu precisava correr atrás ou aceitar o silêncio.

Quando Game of Thrones com seus episódios semanais estava no ar, isso ficou ainda mais claro. O domingo à noite virou quase um evento mundial. Milhões de pessoas apertavam o play praticamente ao mesmo tempo. Assim que o episódio acabava, as redes sociais já estavam cheias de comentários, teorias e reações. Cada cena importante virava assunto imediato. Quem não assistia no dia certo acordava na segunda-feira tentando fugir de spoilers. Era televisão acontecendo ao vivo na cultura, criando um sentimento coletivo. Não era só entretenimento, era experiência compartilhada.

A Netflix mudou esse cenário ao popularizar o modelo de lançar a temporada inteira de uma vez. De repente, a espera deixou de existir. Não precisava mais segurar a ansiedade por uma semana. Bastava dar o play no próximo episódio. A maratona virou algo comum, quase esperado. A pergunta deixou de ser “o que será que vai acontecer semana que vem?” e passou a ser “quantos episódios consigo ver hoje?”. A curiosidade continuava ali, mas acompanhada de pressa. O medo maior já não era esperar, e sim receber spoiler antes de terminar tudo.

Essa liberdade, que parece perfeita, trouxe um efeito curioso. Cada pessoa começou a assistir no seu próprio ritmo. Alguns terminam a temporada em um fim de semana. Outros demoram semanas ou até meses. Isso faz com que a conversa fique espalhada. Antes, todo mundo comentava o mesmo episódio ao mesmo tempo. Agora, cada um está em um ponto diferente da história. O debate que antes durava meses, porque cada capítulo alimentava novas teorias, hoje muitas vezes dura poucos dias. A empolgação sobe rápido e cai ainda mais rápido.

Os números mostram esse comportamento. Muitas séries chegam com força total, dominam buscas e comentários na semana de estreia, e logo depois desaparecem do assunto principal. O próprio sistema das plataformas ajuda nisso. O algoritmo destaca o lançamento novo, coloca em destaque na página inicial, envia notificações. Mas, na semana seguinte, já existe outra novidade ocupando o mesmo espaço. A velocidade do consumo acaba sendo a mesma velocidade do esquecimento. A série vira assunto do momento e, quase sem perceber, vira passado.

Já o modelo semanal mantém a atenção por mais tempo. Cada episódio cria uma nova onda de conversas. As pessoas fazem vídeos analisando detalhes, escrevem teorias, discutem personagens. A expectativa volta a existir, mesmo que por poucos dias. Essa pausa entre um capítulo e outro permite que a história seja digerida com calma. Não é por acaso que várias produções recentes decidiram voltar a lançar episódios semanais. Manter o público falando por semanas significa manter a obra viva por mais tempo na memória coletiva.

Existe ainda um ponto que quase não se comenta. A maratona parece sinônimo de liberdade, mas também cria uma pressão silenciosa. Se você não assistir rápido, corre o risco de pegar spoilers nas redes sociais. O entretenimento, que deveria ser um momento de descanso, às vezes vira uma corrida. Não basta acompanhar, parece que é preciso acompanhar primeiro. A experiência deixa de ser tranquila e passa a ter um senso de urgência constante.

O problema não é o streaming em si. Ele trouxe acesso fácil, variedade e liberdade de escolha. O verdadeiro desafio está na sensação de excesso. Toda semana surgem novas séries, novos filmes, novos lançamentos competindo pela nossa atenção. Quando tudo parece importante e urgente, fica difícil algo permanecer por muito tempo na nossa mente. E aquilo que não permanece tempo suficiente raramente vira lembrança coletiva, daquelas que marcam uma geração.

Talvez a questão não seja tecnológica. Talvez seja sobre como estamos consumindo essas histórias.

Estamos assistindo mais do que nunca.

Mas estamos vivendo essas histórias com a mesma intensidade?

Você prefere a liberdade de assistir tudo de uma vez, ou sente falta daquele momento em que todo mundo comentava o mesmo episódio ao mesmo tempo?

Texto escrito por: Sérgio Zansk

@cine.dende

cinedende.com.br

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