Nomadland, Latasha… e Hemingway - Cinem(ação)

Nomadland, Latasha… e Hemingway

The world breaks everyone and afterward many are strong at the broken places. But those that will not break it kills.

O mundo quebra toda a gente, e depois muitos ficam mais fortes no lugar da fractura. Mas àqueles que não consegue quebrar, mata-os.

(Hemingway)

Em “Nomadland”, acompanhamos a vida de Fern. Interpretada por Frances McDormand, a personagem ficou sem ter onde morar após uma crise – e a perda do marido – que optou por viver como nômade em um carro.

Em sua jornada, ela encontra pessoas. Pessoas reais, que vivem na estrada, às margens do capitalismo. Pessoas que repensam o sentido da vida e que talvez descubram como ela pode ser mais simples. Forçadas pelas circunstâncias, enfrentam duras realidades, confrontam o passado e seguem por estradas sem fim. Todas elas são sofridas. Não tem quem não carregue na pele a marca do tempo, nem quem não tenha o olhar cansado ou tatuagens com frases marcantes – e marcadas.

“Nomadland” é desses filmes para sentir. Ele nos faz pensar no que nos move, nas etapas da vida, no vai-e-vem das pessoas, e nos faz questionar o que leva cada um de nós a levar a vida que vivemos, a preencher os nossos dias com o que fazemos.

É difícil assistir ao filme sem fazer aqueles questionamentos de sempre: que legado deixarei? Estou aproveitando a vida ao máximo? Qual o sentido disso tudo? O que realmente vale a pena?

Tem horas que o Cinema precisa apenas ser sentimento. No momento em que assisto, o que me importa como a diretora escolheu os cortes, ou quais os efeitos de se trabalhar com um elenco de atores não profissionais? Eu precisava sentir um pouco da vida na estrada, passar frio com Fern e acender um cigarro nas mãos de um jovem que tenta se encontrar.

Cada um de nós é cindido, dilacerado pela vida. Alguns mais, outros menos. E, como disse Ernest Hemingway no livro “Adeus às Armas”, na frase que inicia este artigo, nós somos fortes nesses pedaços. Como bonecas de porcelana remendadas.

No documentário em curta-metragem “Uma Canção para Latasha”, vemos uma homenagem a uma menina que morreu porque foi comprar sorvete. Desculpe o spoiler.

Vemos a poesia em formato audiovisual. Em forma de dor.

Enquanto alguns se fortalecem com as batidas que a vida dá (é o quanto você apanha e continua seguindo, diria Rocky Balboa), outros se quebram por inteiro e perdem suas vidas. E perdem suas vidas porque vivem em uma sociedade doente, que mata pessoas pela cor da pele.

Nomadland é indicado a diversas categorias do Oscar e deve ganhar o principal prêmio da noite. O documentário sobre a menina Latasha também foi indicado.

Ambos promovem reflexões. Ambos são políticos – e como não o seriam? Afinal, são decisões políticas que definem o quanto o mundo ao nosso redor é capaz de nos quebrar. Porque o fato é que a vida sempre vai nos fazer em pedaços… mas a estrutura da sociedade bate demais, forte demais, dilacera demais. E alguns, muito mais.

Muitas pancadas não deveriam existir. Não deveriam matar. Há um limite para a quantidade de partes que nos são dilaceradas.

Quanto menores os cacos, mais se torna difícil remendá-los.

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