Dois “erros” e dois “acertos” na legenda de Little Fires Everywhere

Dois “erros” e dois “acertos” na legenda de Little Fires Everywhere

Faz pouco tempo que assisti à minissérie “Little Fires Everywhere”, disponível no Prime Video. Quando acompanhei a produção, acabei prestando um pouco mais de atenção às legendas em português e às escolhas utilizadas pela tradução.

A minissérie da produtora Liz Tigelaar e baseada no romance homônimo de Celeste Ng conta a história de Mia Warren e sua filha Pearl, que se mudam para um bairro do típico subúrbio americano nos anos 1990, e seus destinos se conectam com a família Richardson, o que acaba gerando atritos e crises que suscitam debates sobre relações de poder, racismo e sexismo na sociedade.

Erro de tradução?

Quando se trata de tradução, podemos dizer que um erro é quando a transição de uma língua para a outra não ocorre, gerando dúvidas ou interpretações diferentes no interlocutor. Portanto, na maioria das vezes não há um erro propriamente, apenas uma escolha que poderia ser diferente caso houvesse mais tempo ou debate com revisores, por exemplo. É justamente por isso que os termos “erro” e “acerto” estão entre aspas no título deste artigo.

Antes de verificarmos algumas escolhas de tradução na legenda da minissérie, é importante destacar que não há nenhuma crítica ao trabalho da pessoa que fez a tradução, já que as escolhas feitas pelos profissionais também estão atreladas ao prazo de entrega e às condições de trabalho, entre outros fatores.

Little Fires Everywhere — “Seventy Cents” – Episode 103 — Party preparations for Mirabelle McCullough’s first birthday are underway as Mia helps Bebe search for her daughter. Brian fights with Lexie after he learns the truth about her Yale essay, prompting Lexie to befriend Pearl. To Pearl’s dismay, Moody tries to take their relationship to the next level at the homecoming dance while Izzy sends a message to April. Disappointed with the results, Izzy seeks solace from Mia, who is reeling from the discovering that Elena’s best friends, the McCulloughs, are in the process of adopting Bebe’s baby. Mia (Kerry Washington) and Elena (Reese Witherspoon), shown. (Photo by: Erin Simkin/Hulu)

Alien = Alienígena?

Talvez este seja o caso de um erro de tradução propriamente, sem necessidade das aspas. No terceiro episódio da série, a jovem Pearl questiona sua mãe a respeito de seu pai: ela não o conhece e gostaria de saber mais sobre ele. Ao perguntar à mãe, a menina questiona se ele é branco ou negro, se ele morreu e se ele é um “alien”. Em inglês, a palavra “alien” é utilizada para se referir a imigrantes, já que pessoas que vêm de outro país e ainda não passaram por processos de regulamentação de documentos são chamadas por esse termo. Trata-se de uma palavra mais comum em ambientes jurídicos, mas que também é usada pelas pessoas comuns. Desta forma, a tradução mais adequada seria: “Ele é negro? É branco? Ele morreu? É um imigrante?”.

Perguntar se o pai é um alienígena faria sentido em uma conversa irônica. Caso a personagem perguntasse se ele é rosa, se tem quatro braços ou se ele é um bruxo, de forma a apenas provocar a mãe, ela poderia questionar se ele é um alienígena. No entanto, ela faz apenas perguntas reais e objetivas, o que faz com que não tenha sentido ela perguntar se ele é um alienígena.

Goodwill: o que é?

Na mesma sequência em que mãe e filha discutem sobre o pai, Mia propõe a Pearl que não aceite um vestido caro de presente da amiga, e diz que pode comprar uma roupa na Goodwill. A legenda tratou de utilizar o nome da loja, o que pode não significar nada ao público brasileiro. É claro que, dentro do contexto, podemos imaginar que o nome se refere a uma marca de roupas mais baratas. Na verdade, a rede de lojas Goodwill nos Estados Unidos vende apenas roupas usadas, e faz parte de uma organização sem fins lucrativos.

Uma possibilidade de tradução seria adaptar para a palavra “brechó”, que pode até trazer alguma conotação diferente ao público e resultaria em uma perda no processo de tradução, mas ao menos não demandaria tanto esforço do espectador para que ele presuma o significado da marca. Outra opção seria explicitar o tipo de compra e deixar “vestido de segunda mão” ou “roupa usada”, por exemplo.

De qualquer forma, esta escolha não pode ser considerada um erro ou acerto, apenas uma possibilidade.

Jock mattress: a melhor tradução possível

Em uma cena de briga de adolescentes, Lizzy chama sua irmã Lexie de “jock mattress”. A expressão não me parece ser muito usada nesta combinação específica. A palavra mattress, que significa literalmente “colchão”, é uma expressão (machista) para se referir a mulheres oferecidas ou que possuem muitos parceiros, o que seria parecido com “galinha” ou “vadia”, por exemplo. Já a palavra “jock” é utilizada para se referir aos jogadores de futebol americano (ou basquete) de escolas ou universidades, geralmente rapazes populares entre os outros alunos da escola.

Para resumir a combinação, a solução encontrada foi certeira ao escolher um termo utilizado para se referir às mulheres que se interessam por jogadores de futebol: “maria-chuteira”. Trata-se de uma ótima escolha de tradução.

Hold her accountable

Outra tradução que poderia ser feita de outra forma, mas teve sua solução encontrada, foi de uma breve cena do episódio 7. Ao citar algo que aconteceu em um julgamento, Elena diz: “You were supposed to hold her accountable”. A expressão “hold accountable” geralmente é traduzida para “responsabilizar”, o que resultaria em uma tradução quase literal para “Você deveria responsabilizá-la”, ou “cobrar dela”, dependendo da situação. A primeira escolha da tradução foi mudar o sujeito para “ela”, o que é faz mais sentido dentro das expressões que usamos em português. Considerando isso, seria natural que a tradução fosse “Ela deveria ser responsabilizada”, mas sabiamente trocaram a tradução quase literal para algo um pouco diferente. O resultado final foi “ela deveria prestar contas”, o que sai do que se vê geralmente em traduções da expressão, mas que faz todo o sentido na situação que acompanhamos na série.

Gostou? Dê um like e passe adiante!

Leia também:

Apoie o Cinem(ação): contribua com a cultura cinematografica!

  • Críticas cinematográficas
  • Mais de 6 horas de conteúdo inédito por semana
  • Podcasts semanais
  • Grupo no Facebook exclusivo para apoiadores
  • Acompanhamento das nossas conquistas com seu apoio

Abra a porta do armário! Deixe seu comentário:

Material close icon