Como o Coronavírus deve acelerar a mudança de paradigmas no cinema

Como o Coronavírus deve acelerar a mudança de paradigmas no cinema

Não é de hoje que debatemos a forma como as pessoas veem filmes. Já faz anos que o Streaming se tornou padrão para vermos obras audiovisuais, e as empresas da área começaram a comprar brigas com o mercado de cinema estabelecido há décadas e baseado na venda de ingressos.

Afinal de contas, é fato que não existe jeito melhor de assistir a um filme do que em uma sala escura com o som devidamente paramentado. No entanto, também é fato que os ingressos vinham se tornando cada vez mais caros, e boa parte do público estava se acostumando cada vez mais a ver filmes online, seja em streaming ou VoD.

Algo muito interessante de se analisar é que a pandemia do coronavírus, ao impedir aglomerações e parar quase todos os setores econômicos no mundo todo, funciona como uma lente de aumento para muitos dos problemas do mundo: evidenciam-se os problemas da falta de serviços de saúde pública nos Estados Unidos, evidencia-se o problema da falta de estrutura da saúde pública no Brasil, a disparidade socioeconômica é elevada à máxima potência (já que é mais fácil fazer quarentena quanto mais rica uma pessoa for), ao mesmo tempo em que a solidariedade entre as pessoas e a cooperação entre cientistas aumentam e a necessidade de reinvenção é patente: escolas serão forçadas a criar métodos de EaD, lojas serão forçadas a fazer vendas online, etc.

O mesmo pode ser visto na indústria cinematográfica. O hábito das pessoas, a necessidade de reinventar a produção de filmes, a pausa em todas as etapas da indústria: tudo eleva à máxima potência as tendências que já existiam, e amplia os debates que já faziam parte do segmento.

Para compreender melhor essas mudanças, vamos pensar em alguns acontecimentos recentes:

1- A Universal Pictures arrecadou 100 milhões com Trolls 2 em VoD:

Quando a Universal Pictures decidiu lançar o filme Trolls 2 em Video on Demand (pelo preço salgado de 19,90 no aluguel online do filme), muita gente achou que não ia dar em nada. O “nada” foi simplesmente uma bilheteria bastante satisfatória para um filme desse porte, garantindo um lucro maior do que o primeiro filme da franquia. Um dos motivos para isso é que, ao lançar para aluguel online, o estúdio divide menos dinheiro com a plataforma do que dividiria com os exibidores de filmes.

Isso mostra tanto aos grandes estúdios quanto às pequenas produtoras que há um nicho de mercado importante que foge das salas de cinema convencionais. Com isso, e considerando que é possível vermos o fechamento de muitas salas de cinema diante da crise que se agiganta, não é difícil imaginarmos que o lançamento de muitos filmes poderá ocorrer diretamente em VoD ou, em outros casos, com uma janela muito curta de diferença (o que significaria que em questão de poucas semanas após sair dos cinemas, o filme já estaria disponível a ser visto em casa, como já ocorre com muitos filmes, reduzindo ainda mais o apelo da sala de cinema).

Grandes lançamentos continuam precisando das salas de cinema e isso não deve mudar tão cedo. Grandes blockbusters que custam centenas de milhões de dólares para serem produzidos vão precisar do marketing e do processo tradicional de lançamento. Mesmo assim, a crise causada pela pandemia deverá acelerar o processo de redução do tempo de exibição dos filmes nos cinemas, e levará muitos filmes de médio e baixo orçamento direto para os serviços online.

2- O Oscar permitirá filmes lançados em streaming

Segundo as novas regras da Academia, o Oscar 2021 aceitará filmes lançados em serviços de streaming e VoD como elegíveis para a categoria de Melhor Filme. Isso significa que, pela primeira vez em muito tempo, os filmes não precisarão ser lançados em salas de cinema de Nova York e Los Angeles, como era a regra anterior. Essa nova diretriz seria apenas para a próxima premiação, de forma que tudo voltaria ao normal no ano seguinte. No entanto, certamente isso abre um precedente importante para mudanças de regras tanto das premiações do Oscar quanto de outros festivais – que certamente aumentará a rixa entre os representantes dos exibidores e das empresas de VoD.

O Festival de Cannes, por exemplo, já anunciou que estuda outras formas de ser realizado, o que provavelmente culminará em um festival com seções online e negociações de filmes em salas e reuniões também de maneira remota. Se os estúdios e distribuidores já começarão a discutir a exibição unicamente online dos filmes ao realizarem a milionária feira de negociações antes feita na Riviera Francesa, aí é questão de esperar. Mesmo assim, vale destacar que os organizadores do Festival de Cannes ainda não divulgaram detalhes de como o evento será realizado.

Ainda sobre o Oscar, vale destacar que a Academia também mudou as regras de porcentagem de música original para que um filme seja elegível na categoria de Trilha Sonora, e também vai permitir que todos os votantes da Academia possam votar já na seleção preliminar de filmes Internacionais, quando antes isso só seria possível na lista final de cinco indicados.

Tais mudanças podem não ser diretamente ligadas à pandemia, mas provavelmente têm relação com a necessidade de evitar aglomerações, já que os filmes internacionais poderão chegar a mais pessoas por meio dos lançamentos online – embora não haja certeza de como será a escolha dos filmes internacionais em detalhes. No caso das mudanças na regra para Trilha Sonora (que poderá ser 60% original ou 80% em caso de continuações), a mudança pode facilitar o trabalho de filmes atualmente em fase de pós-produção, que poderão finalizar seus trabalhos com equipes reduzidas em estúdios e até mesmo trabalhos em casa.

Houve mudança na forma de premiar a categoria de Som, já que Mixagem e Edição de Som, antes categorias separadas, se tornarão apenas uma. Sobre este assunto, que não tem relação com a pandemia em si, pretendo tratar em outro texto.

No anúncio da Academia, é dito em relação à cerimônia de 2021 que “qualquer informação atualizada sobre a premiação será divulgada posteriormente”. Isso indica que há possibilidades de uma premiação sem tapete vermelho ou plateia, como muitos especulam, a depender da evolução da pandemia ao longo dos próximos meses (e de quando uma vacina será descoberta).

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Com essas questões apontadas, é impossível prever o que pode acontecer com a indústria do cinema e sua relação com as principais premiações e festivais. Assim como é impossível prever o que será do mundo pós-pandemia em todos os sentidos, o fato é que essas mudanças nas regras do Oscar também deverão afetar a maneira de se fazer campanhas para os filmes, o que pode gerar novos tipos de resultados. As mudanças que ocorrerão no mundo em decorrência do isolamento social serão, portanto, um resultado ampliado e acelerado das mudanças que já despontavam no horizonte. O coronavírus deverá funcionar como um catalisador de alguns avanços e mudanças tecnológicas, e também será uma grande ferida em todas as pessoas do mundo, cuja cicatriz deverá evidenciar o que há de melhor (e de pior) em nossa sociedade.

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