CCXP: uma reflexão um pouco sem rumo - Cinem(ação)

CCXP: uma reflexão um pouco sem rumo

Eu confesso que não estava animado para a CCXP19. Por algum motivo, talvez a correria da vida e o fato de eu não ter olhado tanto para os preparativos do evento tenham me gerado pouca expectativa. Mas isso não durou nem mesmo cinco minutos após a minha chegada ao espaço São Paulo Expo, na Rodovia dos Imigrantes. Só de olhar para a grandiosidade do lugar e sentir a energia presente, percebi o quanto o simples fato de estar na CCXP já encanta os nossos sentidos.

Veio a empolgação, e com ela a vontade de observar as novidades, estar nos lugares e ver as pessoas. Confesso que não sou o maior fã das experiências oferecidas pelos espaços criados pelas marcas. Não faço questão de ir a um labirinto que remete à série da Netflix ou estar em um ambiente com uma réplica de papelão de alguma nave. Mas sei o quanto isso é divertido para muitos, e entendo que o conjunto destes espaços é responsável por criar o clima descontraído do ambiente como um todo.

Civilidade

Muito bem organizada e com um staff sempre disposto a dar a informação necessária, a CCXP tem um nível de civilidade difícil de encontrar por aí (infelizmente). Em terra de tanto tempo de espera, é surpreendente que ninguém tente “furar” as filas. Com tanta gente em um mesmo local, é curioso notar que não há qualquer espaço para momentos de tensão ou de estresse, ao menos nada que se destaque.

Todos são movidos pelos seus gostos em comum e pela paixão direcionada à cultura pop, seja ela representada por séries, quadrinhos, filmes, games ou quaisquer outros produtos do entretenimento.

Se tem uma coisa que eu percebo sempre que converso com as pessoas que vão à CCXP é o quanto esse tipo de conteúdo pode ser uma válvula de escape, uma companhia ou até mesmo a base de sustentação para alguém que se sentia diferente. Os desenhos que viram na infância foram fundamentais para formá-los, assim como as séries e filmes de hoje fazem-nos refletir sobre questões atuais e os quadrinhos e livros foram a principal ferramenta de conexão com os amigos que essas pessoas carregam até hoje.

A mudança do nerd – e o que isso traz

Já bati nesta tecla e continuo a fazê-lo: a base da cultura pop é a diversidade e a empatia. Sei que há alguns anos havia pouca diversidade nesse meio e os personagens seguiam um determinado padrão (que continua a existir, eu sei). Mesmo assim, aquelas pessoas com poucos amigos na escola, excluídas por serem tímidas ou feias ou estudiosas ou “esquisitas”, encontravam nesses prazeres algum tipo de refúgio, aceitação e forma de canalizar seus problemas.

Esse era o “nerd”. Por isso essa figura esteve sempre associada à ideia de alguém que era deslocado, ainda que estudioso e inteligente. Com o tempo, isso foi mudando e hoje essa figura está muito mais próxima do “mainstream”: o nerd é descolado, cool, e sabe tudo sobre os últimos lançamentos do cinema, dos quadrinhos, das séries e outros produtos.

Primeiramente, precisamos entender que essa ideia se configura de maneira muito mais nebulosa na realidade. Pelo que percebo, o conceito e a figura do “nerd” se tornou algo extremamente heterogêneo. Basta olhar ao redor em uma CCXP e você verá de tudo: a pessoa malhada de academia que adora quadrinhos; a menina amante de livros apaixonada por séries adolescentes; o cinéfilo de carteirinha que tem apenas conhecimentos rasos de outros produtos; a pessoa apaixonada por quadrinhos e cultura pop que na verdade não vai bem na escola; o adulto que finalmente pode se dedicar a colecionar itens agora que tem seu próprio dinheiro; a mina que conecta o consumo audiovisual à sua militância; entre muitos outros.

A transformação do conceito de “nerd” ou “geek” (e suas definições sempre mutáveis) se dá em função da transformação do mundo mercadológico. Em um mundo onde o excesso de informação cria inúmeros nichos, o nerd virou um nicho de consumo, e agora se divide em diversos outros nichos e subnichos: para ser nerd é preciso consumir.

Agora você pode ser quem você quiser: tímido, deslocado, esquisito, negro, LGBT… o mundo pode te aceitar como você é (ainda que essa evolução venha aos trancos e barrancos) desde que você consuma. São muitos lançamentos, muitas marcas, muitas séries, muitas novidades… uma enchente de coisas que deixa qualquer ansioso com crise e sem saber o que escolher.

Para onde vamos?

Esse artigo não tem o objetivo de apontar respostas ou propostas. O objetivo é olhar para as coisas como elas são e refletir a respeito. Quando eu deixei o local do evento na sexta-feira, dia 6, após as 21h, vi uma fila de pessoas acampadas em barracas para a entrada no dia seguinte. O objetivo eu já sabia: entrar para os painéis do Auditório Cinemark XD, já que o longo painel da Disney garantia a presença dos astros de Star Wars, a pré-estreia de Frozen 2, e as novidades da Marvel. Chegando em casa, vi a notificação da própria CCXP anunciando que somente aquela fila já lotaria o espaço.

Enquanto muitas pessoas formam filas de cerca de 40h apenas para ver trailers, novidades sendo anunciadas e artistas em um palco, há os que enfrentam longos minutos para visitar a loja do Harry Potter ou pegar o autógrafo do quadrinista preferido. Difícil é estar em um ambiente destes e não gastar dinheiro com alguma publicação, bonecos, foto com o artista no meet-and-greet, entre outros. Todas as marcas querem a sua atenção, o seu dinheiro e a sua presença. Até que ponto isso combina com a função que a cultura tem em acalentar desesperanças, acolher a todos e gerar empatia? Não sei. Talvez, para muita gente, nada seja mais importante do que gritar o nome da artista preferida daquela série incrível e aplaudi-la em pé.

Acredito que o mais importante é dividir espaço com pessoas do bem e somar energias boas. Nada melhor que sorrir, viver pequenos mundos de fantasia e se deixar encantar por personagens e histórias. Definitivamente, nada melhor que encontrar os amigos que conhecemos pela internet e poder vencer a barreira da distância física que nenhuma conexão conseguirá derrubar. Que ninguém nunca se esqueça de que as histórias são mais importantes que os objetos, e que as pessoas são mais importantes que as marcas.

Equipe do Cinem(ação) (Henrique, Rafa, Dani) em foto com Germana Viana (que gravou podcasts como o da Mulher-Maravilha)
Foto “oficial” do Cinem(ação) na CCXP!
Crossover com o Loggado! Daniel Cury, Marcio Zanon, Leandro Chaves, Henrique Rizatto, Rafael Arinelli e Edu Sacer
Henrique, Wendy, Igor, Rafa, Dani

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