“Sex Education”: Sexo, Pudor e Escola

“Sex Education”: Sexo, Pudor e Escola

Pênis, vagina, masturbação, menstruação, sexo oral, nudes, virgindade, tesão e homossexualidade  – estes são temas que por mais evoluída que seja nossa sociedade, ainda são tabus na comunicação entre pais e filhos e entre professores e alunos. 


Segundo um estudo feito pela Federação Internacional de Planejamento Familiar, dentre os países que compõem a América Latina, o Brasil fica em última posição quando o assunto é a introdução desses temas nas escolas.  Um dos motivos para essa pífia abordagem do tema nas escolas é a ausência do MEC (Ministério da Educação) no debate acerca da educação sexual e a falta de legislação específica. A socióloga Jacqueline Pitanguy, da ONG Cepia, diz o seguinte sobre o tema: “Não sendo obrigatório, fica muito a mercê, porque não há a obrigatoriedade com um currículo devidamente aprovado, feito por especialistas. Na realidade, o que se vê no Brasil é que são pouquíssimos os cursos que tratam efetivamente de educação sexual e de reprodução. Você pode ter através da biologia, mas não como uma matéria em si. Porque é muito mais do que o funcionamento biológico do corpo, a educação sexual tem a ver com cidadania, com direitos humanos”.


Uma pesquisa feita pela Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o laboratório Pfizer, mostra que os jovens brasileiros têm iniciado a vida sexual entre os 13 e 17 anos. Outros dados coletados na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), em 2015, revelam que dos adolescentes do 9° ano do Ensino Fundamental sexualmente ativos, 33,8% disseram não ter usado camisinha na última relação sexual. Apesar disso, 7 em cada 10 afirmaram ter recebido informação a respeito na escola. Estas pesquisas mostram empiricamente que há uma necessidade de acabar com esses tabus e falar abertamente sobre sexo com jovens, seja na escola com professores e alunos, seja em casa com pais e filhos. 


Toda essa introdução serve para contextualizar a série Original Netflix – “Sex Education” que entrou no catálogo na rede de streaming no dia 11 de Janeiro de 2019 chamando a atenção, não apenas de jovens atraídos por uma temática sexual (por vezes confundida com erótica) mas também por adultos que ainda sentem-se constrangidos ao tocar no assunto com seus filhos e/ou filhas. A séria mostra uma tradicional escola britânica, com os já tradicionais problemas da juventude, porém, com diversas camadas que vão sendo apresentadas aos poucos conforme os episódios vão passando. 


A série começa com um jovem inseguro quanto a sua capacidade de sentir tesão, Otis, que sendo filho de mãe sexóloga, acaba se tornando acidentalmente uma espécie de terapeuta sexual dentro da escola. Naturalmente o fato de Otis ser virgem e ter seus próprios problemas sexuais são grandes empecilhos para sua nova atividade, porém com ajuda de artigos encontrados na internet e do livro escrito pela própria mãe, Otis consegue ajudar as pessoas que o buscam para serem orientadas. Desta forma “Sex Education” mostra que não basta apenas termos a informação, afinal ela está disponível. É preciso orientação.

Asa Butterfield e Gillian Anderson: mãe e filho tentando manter a comunicação


Diversos personagens surgem com os mais diferentes problemas ou conflitos, não tendo com quem conversar já que a escola não tem essa abertura (tendo inclusive dificuldades em anunciar a compra de produtos higiene pessoal para as alunas da escola). Da mesma maneira os pais não tocam no tema em casa fazendo com que alunos e alunas recorram ao jovem Otis que conta com a ajuda de Maeve para organizar as consultas.


A pluralidade da série faz com que diversas temáticas possam ser abordadas com por exemplo um jovem negro e LGBTQI+ que sendo de família religiosa precisa lidar com o medo de se assumir perante o pai. Ou mesmo uma jovem que teve sua “orientação” baseada apenas em pornô e tenta reproduzir isso em suas relações, negando a si própria o prazer do sexo. Alias, esse tema foi um dos que mais me chamou a atenção por não ter sido explicitado, colocando-o nas entrelinhas.


A série não tem pudor algum de abordar temas ainda controversos como abordo, masturbação feminina e sexo oral, sempre tratando o assunto com naturalidade, o que por vezes pode se tornar raso. Um exemplo é quando a série aborda o aborto. Ela o faz da maneira mais maniqueísta possível colocando um casal de religiosos fanáticos e estúpidos como o contraponto à decisão de uma personagem que deseja praticar o aborto. Esse tipo de abordagem se contrapõe aos producentes debates que a série levanta sem necessidade de chavões “lacratórios”. 


Outra qualidade que a série traz, mas por vezes esbarra em suas próprias contradições é na quebra de estereótipos. Enquanto temos uma quebra do estereótipo do garoto branco popular ao colocar um negro filho de mães lésbicas, ainda temos o jovem desengonçado que se apaixona pela jovem atraente, que por sua vez vê o garoto como amigo mas depois vê que ele pode ser algo mais enquanto ele passa a gostar de alguém que a série coloca como igual a ele impedindo que o casal fique juntos mas alimentando a possibilidade de ficarem mas não sem antes passarem por esses obstáculos e clichês, clichês e mais clichês.

Asa Butterfield e Emma Mackey interpretando o casal que não escapa do clichê


Esses altos de baixos da série são amenizados pelo fato da série ter apenas 8 episódios, o que a torna menos suscetíveis à inchaços e personagens inúteis, o que não significa que não tenha nenhum. Nos últimos episódios somos apresentados a um personagem que tem apenas uma função na série: justificar de forma rasteira mudanças drásticas no roteiro. É quase um ex-machina inverso, que insere arbitrariamente um dilema que mudará o rumo da história.


Um outro tema que foi abordado com muita naturalidade e ótimos momentos mas que se resolve de forma rasa é o bullying sofrido pelo personagem Eric (possivelmente o mais bem desenvolvido da série). Eric é gay, negro, excluído e tem Otis como seu único amigo. O roteiro até trabalha bem o personagem que é de longe o mais carismático, porém de novo cai no clichê no negro gay ser o alívio cômico que reage aos maus tratos como se fosse apenas uma brincadeira, fazendo-nos rir na cena seguinte como se nada não passasse de uma brincadeira.


Quando roteiro dá uma virada no arco de Eric em um momento poderoso e emblemático, em poucos minutos volta ao ponto inicial com uma resolução no mínimo preguiçosa que dependendo da forma como será abordada na segunda temporada, pode se tornar uma triste passada de pano para justificar atitudes covardes e agressivas. 


Apesar de parecer que a série derrapa mais do que acerca, “Sex Education” foi uma grata surpresa por abordar temas que por meios curriculares não serão tratados tão cedo no Brasil. É uma série que poderá abrir o espaço para o debate assim como fizera “13 Reasons Why” que na segunda temporada corrigiu diversos erros da anterior. Que bom a Netflix, uma plataforma com amplo poder de engamento tem se preocupado em produzir conteúdo que geram debate e fomentam uma melhor comunicação. 

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