BLACK MIRROR S04XE06: Black Museum

BLACK MIRROR S04XE06: Black Museum

Black Museum é o desfecho da quarta temporada de Black Mirror. Um bom episódio, mas aquém da capacidade estabelecida anteriormente.

Ficha técnica:

Direção: Colm McCarthy
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Douglas Hodge, Letitia Wright, Daniel Lapaine, Aldis Hodge, Alexandra Roach, Babs Olusanmokun, Emily Vere Nicoll, Yasha Jackson, Amanda Warren
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2017 (29 de dezembro de 2017)

Sinopse (Netflix): Numa estrada deserta, uma viajante se depara com um museu. Na coleção, objetos raros do mundo do crime – e uma chocante atração principal.

O que assusta mais em Black Mirror: a tecnologia ou o ser humano? Pode o aparelho ser o real responsável pela mazela do indivíduo (ou da sociedade)? Ou somos nós, pessoas ordinárias, que causamos o nosso próprio flagelo, enquanto a tecnologia é utilizada como uma mera desculpa?

Essa dúvida é, a meu ver, a força motriz de Black Mirror. E em Black Museum, o último episódio da quarta temporada da série antológica de ficção científica (e suspense e terror), essas indagações ganham mais peso. A começar pela trama.

Nish (Letitia Wright) para num posto de gasolina desativado e isolado no meio de um árido, quente e rochoso deserto de alguma cidade estadunidense. Enquanto espera seu carro carregar, ela vê um prédio, logo ao lado, com um curioso letreiro: Rolo Haynes’ Black Museum (Museu Negro de Rolo Haynes, em tradução livre). Rapidamente é recebida por Rolo (Douglas Hodge) que começa o nefasto tour pelo museu de artefatos criminológicos autênticos.

A própria ideia de um museu de horrores já é curiosa. No episódio, ele funciona de diferentes maneiras. A primeira, uma das mais incômodas, é o nosso fascínio pelo macabro, pela dor alheia. Aqueles que assistiram aos outros episódios da série encontrarão no instigante cenário artefatos dos capítulos anteriores. Podemos classificá-los, também, como pequenos easter eggs, brindes para o espectador assíduo e atento. Mas é possível ir além. A curiosidade com a qual reparamos em cada objeto, o prazer que sentimos ao identificar cada item, ao absorver seus valores simbólicos nós coloca, de certa forma, como visitantes voluntários daquele museu de horrores. Com exceção da presença, também decidimos ir até aquele mostruário sinistro e observamos com curiosidade cada peça usada para o mal de outra pessoa. Ficamos intrigados. Somos fascinados pelo horror diante nossos olhos. Direta ou indiretamente, apoiamos e sustentamos esse museu. Queremos mais. E recebemos.

(Não entrarei em mais detalhes da trama para não dar qualquer spoiler)

O episódio pode ser dividido basicamente em três partes, três histórias narradas por Rolo. A primeira é sobre um protótipo, a origem do horror que seguirá (e a trama visualmente mais impactante). Um aparelho que permite que uma pessoa sinta o que a outra está sentindo. Como tudo em Black Mirror, à primeira vista, trata-se de uma maravilha tecnológica que ajudará o mundo. Porém não tarda a mostrar seus malefícios (mais precisamente, ser mal utilizada). As duas histórias subsequentes são evoluções dessa tecnologia. Não é preciso dizer que conforme ela se transforma, o aspecto negativo cresce exponencialmente.

A tecnologia é uma ferramenta. E como tal, é meramente reativa a nós. Em Black Mirror a utilização de cada ferramenta tecnológica expõe um lado quase inerente da humanidade, um anseio egoísta e grandiloquente. Cada episódio utiliza a tecnologia como catalisador para quem nós realmente somos. E em Black Museum há um resumo disso. O museu é um lembrete dos nossos horrores e como reagimos a ele com mais curiosidade do que com incômodo. A sensação de observar o mal (e causá-lo) sem consequências é um anseio em repouso que espera apenas uma “motivação”, uma justificativa. Não é preciso que ela seja real (estamos na era da pós-verdade), apenas precisa estar à disposição. O desejo de vingança, a justiça pelo sofrimento, está acima dos fatos.

Embora seja uma análise tão pertinente quanto interessante, Black Museum apenas reutiliza tão proposta já abordada na série. Episódios como o genial Shut Up and Dance (terceiro episódio da terceira temporada) já explorou esse terreno de maneira muito mais pungente e ácida. O falso senso de justiça através da dor e desprezo foi abordado com mais eloquência e cria um quebra-cabeças emocional ético que (pelo menos pra mim) incomoda até hoje. Enquanto isso, Black Museum (escrito por Charlie Brooker, criador da série, adaptando o conto Pain Addict, de Penn Jillette, da dupla ilusionista Penn & Teller) utiliza a mesma premissa, mas sem a mesma elaboração ambígua e, consequentemente, sem o mesmo peso. A proposta é beira o maniqueísmo.

Isso não significa que o episódio não tenha valor. As histórias possuem variados elementos de horror bem construídos e assustadores. Do físico ao psicológico, o terror causa o incômodo almejado, tudo isso ancorado por uma boa montagem, atuação e fotografia. O uníssono dos elementos técnicos dão ao episódio o vigor que o subtexto do roteiro não conseguiu.

Black Museum é a conclusão da quarta temporada de Black Mirror. O final, embora ainda tenha elementos angustiantes (diluídos pela argumentação rasa), não consegue atingir às altas expectativas construídas anteriormente. Talvez não seja tanta culpa do episódio, mas também excepcional qualidade das temporadas anteriores. Não decepciona, mas fica longe de empolgar.

PS: Se você, como eu, ficou curioso com o conto que inspirou o episódio e pretende procurá-lo, não perca seu tempo, também como eu. Ele não foi escrito. 

Publicamos críticas de todos os episódios de Black Mirror no Cinem(ação). Aqui estão as demais:

 

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