Crítica: Cinquenta Tons de Cinza

Crítica: Cinquenta Tons de Cinza

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As imagens são assépticas. A cidade é neutra, a sala de estar do bilionário Christian Grey é limpa e sem nenhum toque de personalidade, e as cenas de sexo são embaladas por um sadomasoquismo que tenta ser feito com cenas fortes, mas acaba perdendo a graça na tentativa de evitar “chocar” o grande público.

Baseado no best-seller de E. L. James, o filme “Cinquenta Tons de Cinza“, dirigido por Sam Taylor-Johnson conta a história de Anastasia Steele, uma jovem que acaba tendo que entrevistar o bilionário Christian Grey, que acaba se apaixonando/obcecando por ela.

Mesmo sem ter lido o livro, estou certo de que a diretora tentou seu melhor. Há, aqui e ali, uma tomada minimamente inspirada, uma negociação ao pôr-do-sol (por qual motivo, nunca saberemos), e até um certo ar de “canastrice” que pelo menos nos faz rir. Afinal, não há como levar “Cinquenta Tons de Cinza” a sério. Desde a péssima atuação de Jamie Dornan como Christian Grey até a perfeita imitação que Dakota Johnson faz de Bella, a protagonista da “saga” Crepúsculo.

Por falar na obra dos vampiros que brilham, até mesmo aqueles que não sabem que E. L. James escreveu seu livro como um tipo de “homenagem” a ‘Crepúsculo’, conseguem perceber as semelhanças. Afinal, trata-se da história de uma mulher que, repentinamente, perde toda a sua individualidade para se doar ao macho alfa dominante (neste caso, literalmente) e , ainda por cima, exigente – e estou sendo muito bonzinho com estes adjetivos.

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Como se não bastasse, Christian Grey é um personagem tão irreal quanto seu correspondente que bebe sangue e brilha sob a luz do sol. Afinal, ele foi adotado aos 4 anos, sofreu na infância e desenvolveu seu “gosto peculiar” como uma forma de sublimar seus “demônios internos”, em uma sequência de explicações indecifráveis até para os melhores psicólogos. Ainda assim, o filme bem poderia ser um drama interessante caso criasse uma relação dos dois lados de Grey como um “Dr Jekyll e Mr Hyde”. Mas passa longe. O personagem é completamente sem sentido, já que parece estar apaixonado por Anastasia, e parece que seus ditos “desejos sexuais” são algum tipo de obrigação penosa.

Com diálogos ridículos e irreais, além de personagens secundários tão desinteressantes quanto os protagonistas, “Cinquenta Tons de Cinza” é uma masturbação que não chega ao seu gozo final. É totalmente perceptível que as cenas de sexo repetidas ocorrem de forma artificial – e provavelmente apenas refletem o que está no livro – e ainda mantém uma trama rocambolesca cercada apenas por uma dúvida (imbecil) da protagonista, cujo desenrolar nunca revela plenamente os problemas de Grey ou a solução da jovem que acabou de descobrir os prazeres da carne.

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Se o filme ainda se prestasse a discutir questões importantes para o mundo em que vivemos, talvez teria seu valor. No entanto, assim como seu “primo” infanto-juvenil, “Cinquenta Tons de Cinza” presta um desserviço às mulheres, que tanto lutam por independência. Afinal, nunca a personagem feminina consegue ser realmente independente e fazer o que deseja, e o simples fato de Christian se propor a obtê-la como uma propriedade faz com que a trama reforce valores da sociedade que apenas resultam em crimes de assassinato, chamados erroneamente pela mídia de “passionais”.

Desta forma, sem questionar patologias e sem apresentar uma trama coesa – que culmina em uma sequência indigna de ir ao ar, na qual Anastasia aceita sofrer as piores “punições” para depois sair chorando -, “Cinquenta Tons de Cinza” nem mesmo abusa das cenas de sexo, que sequer conseguem chocar alguém.

Por isso, o filme é asséptico. Assisti-lo é como fazer sexo em uma mesa de cirurgia, gelada e impessoal. E como se isso não bastasse, ele é interrompido repentinamente.

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