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Crítica: Ursinho Pooh: Sangue e Mel

Ursinho Pooh: Sangue e Mel
Direção: Rhys Frake-Waterfield
Roteiro: Rhys Frake-Waterfield
Elenco:  Nikolai Leon, Maria Taylor, Craig David Dowsett, Chris Cordell, Natasha Rose Mills, Amber Doig-Thorne, Danielle Ronald, Natasha Tosini, Paula Coiz, May Kelly, Danielle Scott
Sinopse: Após serem abandonados por Christopher, que foi para a faculdade, Pooh e Piglet matam qualquer um que se atreva a se aventurar no Bosque dos Cem Acres.

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A esperteza por trás da ideia de um filme como Ursinho Pooh: Sangue e Mel, tem menos a ver com a premissa – “o que aconteceria se os adorados personagens infantis popularizados pelas animações da Disney fossem inseridos em um filme de terror slasher?” – e mais a ver com sua visão mercadológica. Ao ter suas primeiras imagens e premissa reveladas, o filme logo causou certa comoção na internet por conta de uma ideia supostamente absurda e subversiva. “Quem não assistiria a esse filme, mesmo que por curiosidade?”. Ao invés de “esperteza”, talvez a melhor palavra seja “oportunista”: Sangue e Mel só existe porque o livro “Ursinho Pooh” original, de A.A. Milne, entrou em domínio público em 2022, ou seja, agora que a Disney não possui mais os direitos exclusivos à obra, qualquer pessoa pode utilizar esses personagens sem algum tipo de processo judicial. Porém, tais personagens apenas podem ser retratados como eram no livro original, sem as adições trazidas pela Disney, como a voz característica de Pooh ou sua camiseta vermelha.

Essas razões mercadológicas são, provavelmente, as únicas motivações que o diretor Rhys Frake-Waterfield – que também roteiriza o filme – encontrou para justificar a existência do ruim Sangue e Mel. O que o que se vê na tela é um filme de uma ideia só, que não parece ao menos tentar justificar essa única ideia de forma criativa. Um longa desconjuntado, que parece se esforçar para tornar sua narrativa minimamente coesa. Existe uma precariedade em todos os elementos em cena que não pode ser culpabilizada apenas pelo baixo orçamento: cenas mal iluminadas, decupagem e fotografia sem muita lógica narrativa, atuações amadoras, utilização de trilha sonora proeminente que tenta martelar urgência dramática incondizente com os elementos diegéticos aliada a uma montagem confusa. É tudo unanimemente ruim. Não estamos falando de um terror assumidamente trash.

A premissa do filme é exposta até de forma interessante, através de uma animação embalada por narração em off que conta a história do humano Christopher Robin (Nikolai Leon), o urso Pooh e os outros animais da floresta. Após servir de companhia para as criaturas durante a infância, Christopher cresceu e foi para a faculdade, abandonando-os. Sozinhos e sem alimento, Pooh, Leitão e os outros bichos se tornaram selvagens, devorando o burro Ió e jurando nunca mais deixar nenhum humano entrar na floresta. Essa exposição é o elemento mais interessante do filme muito provavelmente por ser o único momento no qual algum tipo de criatividade é exercitada, o único momento no filme que causa algum tipo sensação estimulante, e o baque que temos do efeito chicote entre essas sequências em animação (mesmo que restringidas pelo orçamento) e o filme live action – mal executado e amador – que se segue é latente.

A ideia de tornar Pooh e Leitão em slashers nunca soa aproveitada porque não existe caracterização. À parte de uma cena ou outra na qual Pooh come mel, o que se tem aqui são slashers genéricos que poderiam ser substituídos por qualquer outro personagem sem muitos problemas. As coisas parecem como são: dois homens vestindo máscaras de borracha inexpressivas e mal feitas. O filme até tenta disfarçar o caráter precário do baixo-orçamento, como as citadas máscaras mal feitas, mas Waterfield e seu diretor de fotografia, Vince Knight, não parecem ter a mínima ideia de como iluminá-las no quadro, resultando em imagens que, além de falharem em passar a sensação pretendida pelo diretor, resultam em composições visualmente feias e amadoras.

Prezar por caracterização e uma certa polidez por vezes pode parecer exigência desnecessária quando se trata de um terror B, mas Ursinho Pooh – Sangue e Mel se impede de se divertir com seu próprio conceito ao abraçar uma incompreensível seriedade tonal, auxiliada por uma trilha sonora dramática e constante. Ao invés de assumir seu potencial trash, o filme investe em seriedade, nos negando qualquer potencial de diversão. Isso é bem exemplificado numa cena de morte na qual uma garota tem sua camisa arrancada antes de morrer, revelando seus seios. Se essa nudez abrupta poderia ser vista em outra produção pelo viés de uma certa extrapolação da violência e nudez que o exploitation traria consigo como tropo, em Sangue e Mel ela apenas soa incômoda, pois seu diretor não tem a mínima ideia de como filmá-la, de como trabalhar convenções e de como inseri-las ou desenvolvê-las em seu filme. Não se pode dizer também que existe um male gaze de fato, pois a cena é mal iluminada, mal filmada, mal coreografada e mal editada. Não vemos direito o que está acontecendo.

Momentos como esse apenas evidenciam que não há muito propósito ou intenção por trás das escolhas tomadas por Waterfield em todos os processos desta produção. As coisas acontecem no roteiro ruim, mas não parece haver o mínimo esforço para materializá-lo. Parece um mal entendimento do que um filme de terror pode ser, com pessoas que não possuem a mínima ideia do que faz um filme do tipo interessante, portanto convenções superficiais são replicadas sem muito entendimento do porquê elas estão ali. Adicione uma violência contra a mulher que se torna um tanto incômoda e temos um filme que falha em praticamente tudo que propõe, se é que ele propõe algo além de ser um possível caça-níqueis para se aproveitar de fãs de terror a procura de alguma excentricidade cinematográfica. Parece ter funcionado – o filme já arrecadou mais de US$ 5 milhões mundialmente para um orçamento de US$ 100 mil. É como diz aquele ditado popular: todo dia saem de casa um malandro e um otário. Quando os dois se encontram, sai negócio.

  • Nota
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