Crítica: Primetime – 50ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Crítica: Primetime – 50ª Mostra de São Paulo

Primetime
Direção: Lance Oppenheim
Roteiro: Ajon Singh
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2025
Elenco: Robert Pattinson, Skyler Gisondo, Merrit Waver, Phoebe Bridges, Matthew Maher.
Sinopse: A dramatização do período em que o controverso apresentador de televisão e jornalista Chris Hansen comandou o polêmico programa de televisão To Catch a Predator, responsável por expor pedófilos.

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“Eu não quero ser uma má pessoa” – Dan Plum (Skyler Gisondo).

Já acostumado a interpretar personagens alterados, histriônicos e intensos, Chris Hansen é um prato cheio para Robert Pattinson fazer mais um tipo desses nessa produção. O apresentador sensacionalista e jornalista “caçador de podofilos” é o principal ponto da tese do filme de pessoas ruins que perseguem pessoas ruins, mas ao mesmo tempo Primetime não é exatamente o veículo esperado para demonstrar os talentos de Robert Pattinson em algum estudo de personagem que se debruce pela sua psique. Isso está no filme em alguma medida mas o personagem insano de Pattinson sempre é cercado por uma nevoa sombria que o distancia propositalmente do espectador.

Junto com a própria construção formal do filme, o Chris de Pattinson é mais uma força da natureza do que qualquer coisa, tão em surto quanto a própria construção visual estilizada do filme. Vemos vários traços da sua personalidade perturbadora e vemos cena a cena como ele é um obcecado, sombrio e performático, mas o filme prefere tratar a sua mente como uma espécie de grande mistério e ele mais como uma materialização astral de um mal–estar específico. O filme, tão vendido em cima da figura de Pattinson, reserva grande parte do seu filme a dar o coprotagonismo para a história de Dan Plum (Skyler Gisondo), um ator que entra para o programa de Chris interpretando uma “isca” para pedófilos. Para salientar ainda mais a estranheza do filme, esse arco de personagem de Dan, por mais que tratado como central pelo filme, nunca realmente chega a uma conclusão transparente já que o filme parece o levar a uma transformação como um novo “Chris” que logo é interrompida no seu final. 

Primetime se assemelha aos projetos de toda uma turma do audiovisual estadunidense contemporâneo formada por Nathan Fielder, os irmãos Safdie, John Wilson, Mary Bronstein e Ronald Bronstein. O diretor Lance Oppenheim é codiretor do documentário You Can See Everything junto com Fielder e teve uma série produzida por Benny Safdie, e é chocante o quanto é possível encontrar traços tanto de projetos como The Curse, Marty Supreme e outros desses realizadores em Primetime. Essa postura visual agressiva, esse olhar bizarro e distorcido pros Estados Unidos e pra cultura popular tipicamente estadunidense, escalações de elenco atípicas que vão de Phoebe Bridges até o CEO da NBC interpretar ele mesmo e as inserções em tela de programas de televisão da época.

O melhor do filme está justamente em como Oppenheimer, o seu fotografo David Bolen e o seu montador Daniel Garber usam a técnica do seu filme nos diferentes formatos de câmera, as diferentes texturas visuais, a alta saturação das cores como se fossem explosões, a iluminação ultra estilizada e quente, as sobreposições do rosto de Pattinson e os enquadramentos que mudam constantemente cena a cena para criar uma espécie de sonho febril que cerca os personagens dentro de suas insanidades. As interpretações de Pattinson (cada vez mais parecido com James Woods enquanto ator), Gisondo e Merritt Wever – maravilhosa – como diferentes fontes dessa loucura histriônica que acompanha o filme dão ainda mais força para os seus objetivos centrais que devoram tudo e todos quanto estão em cena.

Talvez o que enfraqueça um pouco Primetime seja a dificuldade do filme em querer lidar ao mesmo tempo também com aspectos mais convencionais da sua própria trama fazendo com que sua narrativa fique um pouco truncada em simbologias e recursos mais óbvios de arcos de personagem e filmes de investigação que são muito menos interessantes do que as frentes mais estranhas e bizarras que o filme oferece. E que não parecem estarem em diálogo.

Isso se junta com a falta de uma diferenciação mais clara do filme para outros projetos que ele faz parte e a falta de um diálogo mais orgânico entre essas duas partes porque quando o filme diz o que diz sobre as divagações loucas de Chris sobre “o espírito pedófilo da India” ele parece algo muito especial, mas quando se foca em ser o típico filme — impulsionado esteticamente — sobre mídia e a sociedade as coisas ficam num território mais simplório.

Nota: 3 /5

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