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Crítica: Copan (2025)

COPAN
Direção: Carine Wallauer
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 2025
Sinopse: No coração de São Paulo, o gerente por 30 anos do edifício Copan, que abriga mais de 5.000 moradores, luta para manter sua posição, enquanto uma disputa maior se desenrola fora do prédio, com a disputa pela presidência do Brasil.

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Nada está tão ruim que não possa piorar, diz o ditado. Sensação que tomou conta das eleições deste ano. Passado o resultado em que a extrema-direita tomou conta do Senado e da Câmara dos Deputados, fica difícil ter esperança dado o cenário que se avizinha. Quem poderia imaginar que o candidato envolvido com o pior tipo de gente estaria na frente no segundo turno e, esse mesmo candidato, ser filho do ex-presidente que tentou dar um golpe de estado no Brasil quatro anos atrás. O Brasil realmente tem suas idiossincrasias que só quem vive nesta terra tem capacidade de entender. E ultimamente têm ficado mais difícil. 

Os conflitos políticos tradicionalmente reservados aos embates nas casas legislativas e mídia, nos últimos anos tomaram os espaços públicos e privados. A invasão sorrateira e silenciosa das disputas baseadas em costumes, valores e ideologia, de repente serviram de pretexto para brigas familiares, disputas entre vizinhos que conviviam com alguma harmonia e, no pior dos casos, a violência política. O microcosmo ideal para observar querelas entre o público e o privado, em que todas as mudanças sociais costumam ser expressas nas suas múltiplas formas seria um condomínio. 

Em Copan (2026), documentário que estreou em maio, vencedor do Festival É Tudo Verdade e que recentemente chegou às plataformas de aluguel digital, a diretora Carine Wallauer explora as linhas, ângulos e espaços sem-lugar de um dos edifícios mais famosos do Brasil, cartão postal de São Paulo. Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e inaugurado em 1966, seus 32 andares hoje comportam aproximadamente cinco mil moradores. A diretora aproveita para captar a eleição de condomínio desta mini-cidade — maior que algumas cidades do Brasil — que aconteceu perto das eleições presidenciais de 2022.

A tal da polarização (insira aqui a vírgula sonora do podcast Medo e Delírio em Brasília), está presente nas ruas do país e dentro da eleição de síndico do prédio. Contudo, diferente das eleições majoritárias, para o Copan só havia um candidato, o famoso Affonso Celso Prazeres de Oliveira, hoje falecido, aos 86 anos. A disputa registrada pela diretora se deu por videochamada, com pouquíssimas pessoas, um dos motivos da discórdia entre os moradores e o síndico. O que chamou a atenção, foi o uso das palavras de ordem, seja do candidato ou dos moradores, para expressarem suas vontades ou descontentamentos. Exatamente como acontece no debate público atual.

Paralelo a reunião, Wallauer filma o edifício com grandeza e solidão, impressionando pela precisão da captura das imagens e imponência da obra. Seus espaços vazios ou que levam a lugar nenhum, levantaram comparação com o badalado terror de atmosfera Backrooms: Um Não Lugar (2026), lançado na mesma época. Escadas infinitas, corredores circulares e outras manifestações arquitetônicas típicas da obra de Niemeyer que causam fascínio e angústia praticamente na mesma proporção. 

Outra linha seguida pela diretora, foi o corpo administrativo que precisa gerenciar uma cidade dentro de outra cidade. Apesar do autoritarismo do síndico e por parte de alguns moradores, Affonso foi o responsável por modernizar a gestão do Copan, assim como a revitalização e formas diversas de fazer do icônico concreto curvado de Niemeyer um atrativo para lojas, bares, restaurantes e outros chamarizes. Obviamente o maior ganho acabou sendo o aumento do aluguel para os proprietários. Distante disso, acontecem diálogos entre porteiros e zeladores, por exemplo, sobre as visões políticas do Brasil, fragmentadas entre as candidaturas de Lula e Bolsonaro. Alguns moradores, filmados dentro de seus apartamentos, reforçam didaticamente essa divisão.

Em tese existem três filmes: o arquitetônico, o embate entre moradores e síndico e o debate entre funcionários. A ideia de Wallauer, parecia ser convergir os temas e daí surgir um filme espelho das estruturas sociais brasileiras. A execução, todavia, traz duas notícias: uma boa e uma ruim. A boa notícia foi a compreensão da diretora — que foi moradora do Copan — do valor cultural, político e social do edifício, somado à arquitetura aparentemente misteriosa, costurada com finas linhas entre o valor dos funcionários que naquele lugar trabalham. A ruim aparece quando tenta fazer da eleição do síndico outro reflexo da sociedade.

A melhor parte de Copan reside na cena final, quando ao som de KL Jay —  responsável pela trilha sonora —, a câmera se afasta captando a grandiosidade na imensidão noturna de São Paulo enquanto luzes vermelhas de sinalização piscam com os funcionários no topo. Ao longo do projeto há bons momentos de moradores e do concreto esculpido. Porém, a verdadeira marca está nos incontáveis planos fixos de diálogos entre funcionários que fazem a cidade vertical funcionar. Não há surpresa quando nos deparamos com o simples fato — de difícil reconhecimento público —- de que quem faz funcionar a estrutura Brasil, continuam sendo aqueles que não tem condições financeiras de morar num cartão postal e que, ironicamente, mantêm ele funcionando em perfeitas condições para ser capturado com sensibilidade e beleza.

Nota: 3 /5

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