Crítica: O Diário de Uma Camareira - 50ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Crítica: O Diário de Uma Camareira – 50ª Mostra de São Paulo

O Diário de Uma Camareira (Mostra de SP – acompanhe a cobertura)
Direção: Radu Jude
Roteiro: Radu Jude
Nacionalidade e Lançamento: França, Romênia, 2026
Elenco: Ana Dumitrașcu, Mélanie Thierry, Vincent Macaigne, Marie Rivière, Louen Bouteiller, Arnaud Baudoin, Ilinca Manolache.
Sinopse: A vida de uma jovem empregada romena trabalhando numa família francesa burguesa.

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É sempre um prazer, para mim, ver o senso de humor de Radu Jude em atividade, e aqui não é diferente. Dos piores aos melhores, seus filmes sempre conseguem me arrancar fortes risadas, e existe algo muito particular na maneira como ele trabalha o humor, frequentemente levando as situações ao limite do absurdo, do constrangimento e do grotesco. Mesmo quando seus resultados são mais irregulares, há uma capacidade de encontrar o cômico em situações inesperadas, explorando justamente aquilo que existe de mais vulgar, exagerado e desconfortável nas relações humanas.

Também estão presentes várias das coisas que já se tornaram costumeiras em seu cinema: a produção precária, o humor hiperescrachado, vulgar, a escatologia, o comentário social, o teatro, a câmera distante e a filmagem estática. Jude parece ter desenvolvido um vocabulário formal e humorístico bastante reconhecível, uma espécie de conjunto de procedimentos aos quais retorna constantemente para construir suas observações sobre a sociedade. Existe uma relação muito particular entre a artificialidade e desleixo proposital da encenação e a maneira direta com que seus filmes abordam determinadas questões, como se o próprio aspecto precário – que segue um pensamento formal claro – e teatral da realização fizesse parte do comentário. O humor surge muitas vezes desse choque entre a seriedade dos assuntos tratados e a absoluta falta de cerimônia com que o diretor decide abordá-los.

É interessante como essa combinação continua funcionando em diversos momentos e esse filme no geral é competente. O humor de Jude possui uma disposição para o exagero que, quando encontra a situação certa, pode ser verdadeiramente hilária. Há uma liberdade no modo como ele constrói suas cenas, sem muito interesse em preservar qualquer tipo de elegância ou sutileza convencional, apostando frequentemente no desconforto, na vulgaridade e no absurdo como ferramentas de observação. E mesmo quando suas escolhas parecem deliberadamente grosseiras, existe uma intenção crítica por trás dessa aparência, uma maneira de aproximar o riso de questões sociais e comportamentais que talvez não sejam tratadas com o mesmo interessante através de uma abordagem mais convencional.

Porém, mesmo sendo engraçado — e o que é engraçado às vezes é hilário —, sinto que o filme acaba caindo num mal que me parece cada vez mais crescente nos trabalhos de Jude: a repetição de procedimentos que não necessariamente expandem as bases do filme. Existe uma diferença entre reconhecer uma assinatura autoral e perceber que essa assinatura começa a funcionar como uma espécie de repertório fechado, no qual os mesmos recursos são retomados sem que sua utilização produza necessariamente novas possibilidades. A câmera distante, a encenação teatral, o humor escatológico e as provocações sociais continuam presentes, mas nem sempre sinto que a combinação entre esses elementos esteja encontrando algo novo ou aprofundando aquilo que já havia sido estabelecido.

O problema não está exatamente na repetição em si, afinal, a recorrência de determinados procedimentos faz parte da construção de qualquer filmografia autoral, mas na sensação de que eles começam a operar de maneira automática, sem que cada nova utilização acrescente muito à experiência. Em certos momentos, parece que já conhecemos tão bem os mecanismos do humor e da encenação de Jude que o filme passa a depender da eficácia imediata desses recursos, sem conseguir desenvolver uma dinâmica que os transforme ou os coloque em novas perspectivas.

No fim, continuo gostando do que Jude faz e reconhecendo a força de seu senso de humor, mas também começo a sentir um certo cansaço diante de seu método. É uma impressão curiosa, porque aquilo que continua me fazendo rir é também parte daquilo que começa a me afastar de seus filmes: a familiaridade com uma forma de fazer cinema que, por mais engraçada e provocativa que ainda seja, parece cada vez menos interessada em descobrir novos caminhos para si mesma.

Nota: 3 /5

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