O fim de Spider-Noir e um novo momento das séries de TV
Recentemente boa parte do público e da mídia foi pega de surpresa com o fim da série Spider-Noir pelo Prime Vídeo, uma vez que ela foi sucesso de público e, principalmente, de crítica, contabilizando indicações importantes ao Emmy. Uma nova temporada era questão de tempo ou de lógica, mas eis que o comunicado da Amazon surpreende e diz que a série foi encerrada e não terá sequência, decisão que foi defendida pelo protagonista Nicolas Cage, dizendo que a mensagem da série já havia sido passada e não haveria nada de novo para contar em novas temporadas, por isso mesmo, o ciclo estava fechado.

A serenidade e a tranquilidade com que foi feito o anúncio mostra uma certa coesão no meio de quem produz séries atualmente, pois, até pouco tempo atrás quanto mais audiência, indicações e prêmios uma série recebia, maior a vontade do estúdio de seguir produzindo e gerar lucro em cima da obra, o que acabava levando a um desgaste e andamento torto de algo que começou bem e poderia ter acabado antes, se fossem usados apenas critérios artísticos para definir a continuidade, exemplos de casos de séries que foram além do que deveriam e acabaram de forma melancólica são muitos (nunca vou superar os rumos de The Walking Dead, inclusive).
Por isso mesmo, nesse mundo de interesses em volta de uma série, parece cada vez mais maduro, tanto da parte dos produtores, quanto da parte do streaming, encerrarem a história que já havia sido muito bem concluída em uma ou em poucas temporadas e não insistir em temporadas que poderiam se tornar cansativas e desgastar a imagem da série junto ao público e crítica.

Os streamings têm, de certa forma, buscado respeitar um pouco mais o limite criativo de uma obra e deixado que o público veja e reveja o que há de bom nela, inclusive, o que ocorreu com Spider-Noir me levou a ver de forma mais ampla que o planejamento da produção de séries nos streamings esteja mudando de forma silenciosa, por exemplo, a HBO tem tido mais cuidado com o universo de Game of Thrones, as séries derivadas já têm nascido com prazo para encerrar e limite narrativo definido pelos livros do quais são derivados; já a Amazon, com o universo de Senhor dos Anéis, se propôs a um rigor e cuidado extremo para contar a história dos apêndices da obra seminal de Tolkien, de forma que seja bem amarrada em temporadas pré-definidas visando ter um produto mais coeso; e até a Netflix, notabilizada por ser uma máquina de cancelamento de séries e de descartar materiais com alto potencial, tem investido muito mais em minisséries que contam com apenas uma temporada, numa estratégia diferente, que conta com fechamento de contrato de grandes nomes do universo das séries como Ryan Murphy, para produzir várias obras ao invés de uma obra apenas que dure inúmeras temporadas.
A sensação que dá é que essa correção de rumo tem sido bem direcionada pelas empresas e é muito bem-vinda para quem consome séries. Fico triste com o fim da série do Spider, mas feliz que o que foi feito foi respeitado e isso é o que importa: que venham novas histórias e com semelhante qualidade, numa ideia de que menos é mais e melhor para todo mundo.