Cem Anos de Solidão: série acerta no épico e nos detalhes de García Márquez
Gabriel García Márquez rejeitou diversas propostas de adaptação para o cinema do seu clássico. Ele sabia que não era possível colocar em duas horas um épico do tamanho de Cem Anos de Solidão e temia a “americanização” de seus personagens. Acompanhar as seis gerações dos Buendía e a gama de Aurelianos e José Acádios demandaria tempo. Anos depois da morte do colombiano ganhador do Nobel de Literatura, os herdeiros aceitaram a proposta da Netflix.
Lançamento em duas partes, a primeira em 2024 e a segunda agora em agosto, encerra a jornada com 16 episódios, tempo adequado para a quantidade de eventos extraordinários acontecidos na deslumbrante Macondo. Fica perceptível a grandiosidade e o esmero da equipe de produção, chefiada pela direção de Laura Mora Ortega, Alex Garcia Lopez e Carlos Moreno. Composta majoritariamente por colaboradores colombianos, de técnicos a atores — uma das exigências de García Márquez que foi mantida pelos herdeiros —, a série avança pela história de forma linear para facilitar o entendimento do espectador.

O livro, na verdade, começa com o coronel Aureliano Buendía (Claudio Cataño) na frente do pelotão de fuzilamento enquanto recordava da primeira vez que seu pai o levou para conhecer o gelo. Depois saberemos que o mesmo coronel iniciaria 32 guerras e perderia todas. Teria diversos filhos espalhados pela Colômbia e todos morreriam assassinados. Os fantasmas da destruição nunca deixaram de perseguir o coronel, amargurado com tamanha derrota e fracasso de seus idealismos. Marca que perseguirá todos os homens Buendía.
Guerras civis, peste da insônia, chuva de flores amarelas anunciando a despedida do patriarca que morreu amarrado numa castanheira e uma chuva que durou quatro anos, onze meses e dois dias, marcam o início e o fim de Macondo. O narrador onipresente, àquele que assiste tudo, sabe tudo, inclusive dos sentimentos dos personagens, se mostra narrativamente necessário para dar o tom e guiar a história. O ponto alto desta narração, embora didática, acaba sendo a poesia encantada como no livro.
A primeira parte sofre com a introdução, mas um sofrimento necessário. Como às coisas não tinham nome, era preciso apontar para nomeá-las. De início, entendemos que os eventos acontecerão ao redor dos homens Buendía, a começar pelo fundador de Macondo, José Arcádio Buendía (Diego Vásquez), que sai fugido de sua terra natal depois de ser perseguido exaustivamente pela assombração de Prudêncio Aguilar, assassinado por ele num duelo. Percebemos, porém, que quem mantinha aquela enorme família de pé eram as mulheres, especialmente a matriarca Úrsula Iguarán (Marleyda Soto). Os homens ficaram obstinados e ensimesmados, perdendo a noção de preservação. Caíram em desgraça, enlouqueceram, morreram de maneira deprimente.

A história nasce a partir do temor do incesto. O casamento de Úrsula e José Arcádio sofre resistência. Eles eram primos. A mãe de Úrsula diz que caso tenham filhos, a criança nasceria com rabo de porco. Apesar do fantasma da maldição, nasce José Arcadio (Édgar Vittorino), o primeiro de Macondo, Aureliano e Amaranta. José Arcádio se encanta por Pilar Ternera (Viña Machado), a mulher que apresenta a vida sexual para os Buendía, conhecerá todos eles, será uma das últimas moradoras do povoado e a única que saberá diferenciar um José Arcádio de um Aureliano, independente da geração. Nasce assim, a tradição de filhos fora do casamento. José Arcadio foge com os ciganos. Aureliano vira coronel. Amaranta, recusa o amor e diz saber o dia e a hora de sua morte.
Macondo será atravessada pela religião, pelas ideologias políticas, a briga entre liberais e conservadores, o imperialismo norte-americano com a companhia bananeira e outras destruições e construções, dando fim a liberdade idealizada pelo fundador. Marcada pelas transformações do mundo, um dos épicos episódios da primeira parte, acaba sendo uma das guerras perdidas pelo coronel Aureliano. A violência, o horror da batalha e as esperanças morrendo no olhar de Úrsula vendo seu filho perdido nas ilusões, assim como o patriarca José Arcádio, enfurnado no quartinho com suas criações e alquimias ensinadas pelo amigo Melquíades (Moreno Borja) antes de se entregar a loucura.
Na segunda parte, a comoção acontece quando o massacre de 3000 trabalhadores, homens, mulheres e crianças, a mando da companhia bananeira, celam o fim de Macondo. O exército, mancomunado com o império, atacou trabalhadores que reivindicavam melhores condições de trabalho. García Márquez referenciou diretamente o massacre das bananeiras, ocorrido em 1928 no país. O número de mortos nunca foi oficialmente divulgado. Recentemente movimentos sociais e historiadores retomaram a necessidade de lembrança do trágico evento. A American Fruit Company de fato existiu e nunca foi responsabilizada, muito menos o exército colombiano.
Implícito está a relação do progresso com a destruição. Os irmãos gêmeos, Aureliano Segundo e José Arcádio Segundo — ambos interpretados por Julián Román — , levam o progresso moderno ao povoado. Contudo, aparecem a exploração dos recursos naturais, os trabalhos análogos à escravidão e o entreguismo tipicamente latinoamericano. A sindicalização, uma nova guerra liderada pelos Buendía, assim como aconteceu com o coronel, que nesta altura já não passa de um mito esquecido, repete as mesmas angústias, as violências, o abandono, a solidão.

Quem sobreviveu e viu passar diante dos olhos a repetição amaldiçoada da família, foi Úrsula. Alertava as novas gerações sobre os erros do passado e a única que percebeu a repetição das tragédias, amores proibidos e relações próximas demais do incesto. Melquíades, o mago, havia escrito pergaminhos indecifráveis, que condenou a clausura os Aurelianos. “O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas.”
De mágico pouco tinha a literatura de García Márquez. E a série tampouco fomenta essa ilusão. Claramente ilustra como se fossem pinturas toda a sorte de paisagens, imagens, desventuras e aventuras da crendice popular. Remédios, a Bela, tinha um encanto incomum, matou homens que disputavam sua beleza sem nunca a terem tocado. Subiu aos céus, no meio dos lençois brancos. Amaranta, solitária, morreu depois de tecer sua própria mortalha, levando junto centenas de cartas dos vivos para os mortos. Rebeca, quando aflita e angustiada, comia terra úmida do quintal. Morreu sozinha. Mama Úrsula, sempre solitária numa casa repleta de gente, deixou o recado aos dois dos últimos da estirpe: Buendías não podem casar entre si.
Para latinoamericanos não há novidade. Numa terra de benzedeiras, padres exóticos, mulheres virgens que despertam desejos proíbidos, amores disputados entre irmãos, maridos que se ausentam, homens que fazem guerra para atender seus delírios falocêntricos, filhos que repetem e repetem como a cobra que come o próprio rabo, começam o épico e o detalhe da cultura latina. Claro que há magia. Magia no narrar, no explorar territórios nunca antes vistos, suicídios fracassados ou bem sucedidos que mudam a história de uma nação.
Ao terminar de ler o livro, ou assistir a série, que em nada se parece uma obra típica da Netflix — e não poderia haver elogio maior do que esse —, percebemos que o tempo precisa funcionar em outra lógica. Os criadores do audiovisual sabiam disso ao não se render ao pastiche da técnica ou da forma vigente. O respeito aos personagens que se resumem no épico destino sem fim.

A obsessão ou desejo proíbidos dos agregados, fruto da obsessão dos homens, ajudam a construir a ruína. Inúmeros personagens que seria impossível falar de todos. Registre-se a fanática religiosa Fernanda Del Carpio (Carla Baratta), que com sua censura e negação carola, irá fomentar o amor proibido de Aureliano Babilônia e sua tia Amaranta Úrsula, concretizando finalmente o fim da estirpe. Eles terão longas noites de amor, sem saber que eram sobrinho e tia. Amaranta Úrsula, ao descobrir a gravidez, tenta verificar se eles eram parentes consanguíneos, mas não há registros. Para ela, Aureliano Babilônia sempre foi o bastardo encontrado pela mãe Fernanda numa cesta durante as chuvas.
Se Gabriel García Márquez ficaria satisfeito com o que fizeram do seu épico, dificilmente saberemos. Do início ao fim, fizeram o que podiam, com simplificações e adaptações possíveis. Nos minutos finais, vemos a literalidade. Ignorando o aviso de Úrsula no leito de morte, quando Aureliano Babilônia recebeu em seus braços o “animal mitológico” que saíra do ventre de sua tia morta, Macondo se torna “um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados pela cólera do furacão bíblico.” Aureliano não sairia mais daquele quarto e via, diante dos olhos, que todos os novos e antigos acontecimentos estavam previstos nos pergaminhos de Melquíades agora decifráveis. Por fim, percebeu “que tudo que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra.”