Reflexões sobre Adorável Vagabundo (1941) e o ano eleitoral. - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Reflexões sobre Adorável Vagabundo (1941) e o ano eleitoral.

Adorável Vagabundo, do diretor Frank Capra, é um filme interessante de ser assistido em 2026, especialmente em época de eleições. O diretor, amplamente conhecido pelo clássico de Natal A Felicidade Não se Compra e por pelo menos outra meia dúzia de filmes que fizeram parte da Hollywood clássica, introduz uma espécie de fake news décadas antes de o termo ser eleito palavra do ano pelo dicionário Collins, em 2017, e passar a ser cada vez mais estudado por pesquisadores ao redor do mundo.

Em Meet John Doe, título original que, diga-se de passagem, é anos-luz superior ao brasileiro, Capra conta uma história de fake news e política. Só que, nesse caso, uma espécie de fake news “do bem”, se é que isso é possível. Ann (Barbara Stanwyck) é uma repórter prestes a perder seu cargo quando seu chefe comenta sobre a necessidade de reportagens mais polêmicas e sensacionalistas. É então que ela tem a ideia de escrever uma carta falsa para o jornal, assinada como John Doe — algo como “João da Silva” ou “Zé Ninguém” —, na qual seu eu lírico anuncia um suicídio para o próximo Natal, em protesto contra a corrupção e a pobreza.

O burburinho que a carta cria é tamanho que toda a população do país, incluindo o Estado, aqui representado por políticos profundamente corruptos, passa a querer saber quem é o tal Zé Ninguém. O que começa com uma carta para inflar a popularidade do jornal se transforma em uma série de outras cartas, necessitando da contratação de um homem para representar esse tal John Doe, que passa a ser interpretado por Gary Cooper. O combinado com o “ator” é apenas um: no dia do seu suposto suicídio em protesto, sumiria da face da Terra com a ajuda do próprio jornal que o fabricou.

Certo é que, pouco a pouco, o tal Zé Ninguém se transforma em um movimento nacional. Surgem centenas de grupos pelo país dispostos a defender os ideais de John Doe com unhas e dentes. O homem, até então fabricado por Ann e pelo jornal e interpretado por um homem comum contratado para isso, deixa de ser apenas uma assinatura em uma carta em defesa dos trabalhadores, contra a corrupção e a pobreza, para se tornar uma ideia que contagia o país em torno de um único propósito: justiça pelos que mais precisam.

E é aí que a coisa fica mais interessante: aquilo que começou como uma mentira fabricada para aumentar a circulação do jornal passa a existir independentemente de quem a criou. John Doe deixa de ser apenas um personagem inventado e se transforma em uma ideia capaz de mobilizar pessoas e, justamente por isso, também passa a ser disputado e instrumentalizado por interesses políticos.

Mais do que passar uma mensagem política, Capra em suas obras parecia mais interessado em retratar o homem comum e o poder da ética individual diante de instituições corrompidas. O que acontece em John Doe é muito parecido com A Felicidade Não se Compra, mas, enquanto este último traz uma mensagem mais cristã, ligada aos princípios da caridade e da fé, John Doe é de fato muito mais político-social em sua mensagem humanista e vocal em torno dos problemas que a sociedade capitalista sempre condensou em sua estrutura.

Duas cenas da sequência inicial do filme chamam atenção: um berçário cheio de bebês que parecem o mesmo, com um movimento de câmera que avança lentamente e deixa apenas um deles em evidência, o nosso John Doe, e a cena seguinte, em que a frase “imprensa livre significa um povo livre” é derrubada da fachada do jornal, assim que este é adquirido por outra pessoa. Ambas estabelecem no filme, desde cedo, a ideia desse homem comum que irá confrontar e derrotar o cinismo e a injustiça no mundo, como também o comentário sobre o poder da imprensa e da sociedade quando mobilizadas em torno de um mesmo objetivo.

O tom esperançoso de Capra neste filme me toca profundamente, mas, voltando ao começo, assistir a Adorável Vagabundo em plena época de eleições brasileiras e caso Vorcaro é uma experiência agridoce. Como eu gostaria que uma fake news “do bem”, como a ideia de um John Doe, voltasse a ter força em um país tão adoecido com ideais de extrema-direita.

Ainda existe espaço para algo como uma “fake news do bem”? Existe a possibilidade de uma mentira (ou um equívoco) que una e não nos divida ainda mais? Porque, afinal, a mentira que cria John Doe também escapa das mãos daqueles que a inventaram. O que acontece quando as pessoas passam a acreditar na mentira e a defendê-la e transformá-la em alguma coisa maior do que aqueles que a criaram, se para algo que não é nefasto?

Adorável Vagabundo faz parecer como se a ética do homem comum e a própria racionalidade que permitiria que a classe trabalhadora se enxergasse como iguais, e não com o ódio de classe que tanto contaminam os votos este ano, fosse uma possibilidade. Queria que Capra me despertasse, com esse filme, não um sentimento de inveja da ficção, mas talvez um vislumbre de possibilidade de futuro. Um futuro menos doloroso. Bem capaz que tenha me despertado de tudo um pouco, mesmo. Pois ver esse filme nesse momento é um misto de desejo de que o cinema ocupasse o espaço da realidade e a frustração eterna da impossibilidade do meu próprio desejo alucinado. É de doer, mas eu ainda tento acreditar que é doendo que a gente aprende. Ou algo parecido com isso.

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