Robocop (1987) pode ser o futuro do Brasil
Robocop é daqueles filmes brilhantes em várias frentes diferentes muito particulares que se completam numa coisa só. Como blockbuster de ação é empolgante e brutal o tempo inteiro naquilo que tem de mais direto, claro e primitivo: seu sentimento épico e de crescimento da ação (em muitas sequências que contaram com a direção de Monte Hellman na segunda unidade).
Se propõe a grandes discussões e grandes críticas sociais (e é bastante inteligente em como faz isso), mas também goza com a brutalidade, com a vingança, com o espetáculo de um blockbuster oitentista, com a sua lógica de exceções individuais e com a vitória do homem da lei solitário e a sua parceira diante dos malfeitores.
Frases de efeitos, heróis estoicos oitentistas, mocinhos e vilões bem demarcados, bandidos satânicos cartunescos, gangues multiétnicas e violência extrema.
Também é plenamente um filme de “contrabando”, no qual Paul Verhoeven, o estrangeiro, consegue colocar a sua acidez política e a sátira altamente irônica do seu nojo pela doença estadunidense e os símbolos estadunidenses pra dentro da própria máquina industrial de cinema americano, alimentando ela ao mesmo tempo que alimenta a sua crítica. O mundo não mudou e aqueles que Verhoeven satiriza continuam governando os Estados Unidos nas figuras de gente como o Trump, governam São Paulo nas figuras de gente como o Tarcísio, governam o Brasil, querem tomar o Brasil pra si como Flávio Bolsonaro e estão em toda as esferas de poder do capitalismo em todo mundo.

As inserções comerciais televisivas canastronas e o noticiário, tudo tão tipicamente estadunidense, tipicamente artificial, todas as caracterizações de um exagero vulgar, partem de um olhar atento de Verhoeven para as idiossincrasias do que existe de nojento, tosco e patético numa sociedade doente, altamente consumista, opressora e idiotizada no que ela tem de “tradicional”.
Algo encenado sempre tanto como farsa e como algo direto. O policial que vira o braço metálico da junção entre iniciativa privada e a força bruta do Estado, a segurança pública como “propriedade” dos poderosos, dos empresários magnatas corruptos, hedonistas – bem ao estilo de e viciados em cocaína tão criminosos quanto os bandidos com que eles colaboram, greves e instituições em crise ocupadas por algumas “boas exceções”, mas que são facilmente ofuscadas. A privatização como um caminho pra um inferno, o neoliberalismo como a face do demônio e trabalhadores como meros joguetes. Os Estados Unidos como uma terra grotesca de seres grotescos.
E ao final também é um estudo de personagem individual e melancólico infestado por uma tristeza do começo ao fim ao falar de um homem em busca da sua própria identidade morta e “despertado” ao virar esse trabalhador frio e metálico das forças de um país maldito perdendo tudo que ele tinha antes. Resta a tristeza solitária e uma única relação com uma trabalhadora isolada. O uso da câmera subjetiva ao mostrar o ponto de vista Murphy, a câmera livre, veloz e a eminência das figuras de Dick Jones no banheiro e dos ataques em primeiro plano traduzem um filme que está igualmente entre diferentes lugares: o épico, a ironia e uma dor emocional permanente.