Crítica: Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
Direção: Jane Schoenbrun
Roteiro: Jane Schoenbrun
Nacionalidade e Lançamento: Canadá, Reino Unido, Estados Unidos, 2026.
Elenco: Jack Haven, Hannah Einbinder, Jasmin Savoy Brown, Aren Buchholz, Florence Barrett,Kevin McDonald, Jordana Summer, Ryan McEwen.
Sinopse: Uma cineasta queer é contratada para dirigir uma nova parte de uma franquia de terror. Ela fica obcecada com a possibilidade de escolher a “final girl” do filme original, e e isso resulta em um frenesi de mania psicossexual.
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Após o desktop movie de terror e coming-of-age, We’re All Going to The World’s Fair, e o sucesso de Eu Vi o Brilho da TV, Jane Schoenbrun presta homenagem ao gênero slasher com um filme que é mais do que metalinguístico: parece autobiográfico.
Acampamento Miasma, que teve sua estreia mundial na abertura da Un Certain Regard, no Festival de Cannes 2026, conta a história de uma jovem realizadora de cinema, Kris (Hannah Einbinder), que decide fazer um remake de uma aclamada franquia de slashers dos anos 70. Ciente das problemáticas envolvendo gênero e sexualidade nos filmes que tanto ama, a protagonista é contratada para dirigir a prequel que pode levar a problemática franquia para o lado “woke”, pronta para ser reaproveitada por uma nova geração de fãs.
Como parte da produção para o seu filme, ela decide visitar a primeira final girl da franquia, Billy Presley (Gillian Anderson). A atriz, que mora isolada no acampamento abandonado do primeiro filme, encarna uma espécie de Norma Desmond, de Crepúsculo dos Deuses: uma estrela que hoje vive reclusa, habitando o fantasma do passado de seu próprio estrelato.
Por essa breve introdução, fica claro que Acampamento Miasma explora a metalinguagem a todo instante, de citações diretas a filmes como o próprio Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, e Psicose, de Hitchcock, até figuras da própria indústria. A metalinguagem faz parte da construção de uma obra cujo um dos pontos centrais se concentra em tecer uma crítica à própria indústria, ao escancarar as suas problemáticas históricas em relação ao machismo, à homofobia e à transfobia nos slashers, ao mesmo tempo em que se utiliza da essência voyeurista da sétima arte para se referir aos aspectos desses filmes que despertam o desejo e provocam o prazer em olhar.
Outrossim, a metalinguagem também dá vazão a uma certa autorreferência por parte de Jane Schoenbrun, que, como uma pessoa jovem e não binária, utiliza sua protagonista e suas contradições para tecer comentários acerca de próprias experiências, as quais parecem transitar entre o prazer e a culpa, com os aspectos problemáticos que esses filmes já representaram para um dos seus públicos historicamente mais cativos: a comunidade LGBTQIA+.

Apesar de nada sutil (essa não é uma característica dos filmes de Jane, se você já os viu), é, sim, complexo. Diria que até que é “cabeçudo”. Não por conta da metalinguagem trabalhada, mas sim pelas referências a estudos de gênero e sexualidade, que acenam diretamente para um público-alvo bastante específico — vide a citação direta a Ray Blanchard como diretor da franquia Camp Miasma — e, principalmente, pelo comentário que, para mim, é o mais interessante e central aspecto da obra: o prazer em olhar, o voyeurismo.
Nos slashers, o corpo feminino estava sempre a serviço do desejo masculino, com objetos fálicos e cortantes perfurando seus corpos, não raro desnudos e altamente sexualizados em tela. Ao mesmo tempo, os comportamentos desviantes dos vilões tinham a ver com desejo sexual reprimido ou uma inadequação social (não custa lembrar que, em O Massacre da Serra Elétrica, Leatherface se vestia de mulher e ocupava, vez ou outra, o lugar de referência feminina em uma família composta apenas por homens, por exemplo).
Em Acampamento Miasma, somos levados a refletir sobre a violência contra corpos femininos e corpos de pessoas trans nas telas, enquanto Jane subverte o próprio subgênero que homenageia e desloca o male gaze que historicamente sempre lhe pertenceu. A final girl, Billy Presley, quando a conhecemos, não é a garota idealizada, virginal e pura, daquele filme, tampouco está interessada em encarná-la.
O vilão da franquia Camp Miasma, “Little Death” ou “Pequena Morte”, recebe esse nome em referência direta à petite mort, expressão francesa utilizada como metáfora poética e filosófica para o orgasmo. O gozo como morte é personificado no filme e, a partir disso, as linhas que entrelaçam desejo, prazer, violência e culpa tornam-se tênues — tanto para a protagonista quanto para o próprio filme (e, nesse momento, acredito que para Jane também).

O cinema tem um canal direto com o inconsciente, que, por sua vez, move os desejos dos espectadores em direção a alguma coisa e, às vezes, a algo que nem eles sabem explicar. O assassino não é de verdade; nada daquilo passa de uma fantasia sexual que deve ser e é, ultimamente, livre. É o que explica os aspectos técnicos que inserem a história em uma espécie de mundo paralelo: uma encenação, vários filmes dentro de um filme.
A direção faz dessa característica intrínseca ao cinema — a possibilidade de transitar entre aquilo que habita o inconsciente e aquilo que é elaborado no consciente — um trunfo da sua história. O fato de as personagens desejarem tão profundamente e gozarem com a possibilidade de se verem fora do próprio corpo é a materialização do desejo do espectador, que encontra correspondência na própria caracterização da “Pequena Morte”. Sua “cabeça”, similar à câmera do cinema, torna-se o próprio dispositivo por meio do qual podemos observar, estar em primeira pessoa, ser presa e caçador. Tudo ao mesmo tempo.
É aí que Acampamento Miasma parece encontrar sua maior potência: no entendimento de que o cinema não apenas representa nossos desejos, mas também nos permite experimentá-los, projetá-los e, eventualmente, libertá-los. A liberdade de amar quem quiser, de ser quem quiser, de se desprender das amarras que te impedem de gozar e de se entregar à morte como quem se entrega à vida é uma arma poderosa.
E Acampamento Miasma é sobre tudo isso: uma confissão, uma homenagem e uma crítica. Aspectos que estão sempre sendo tensionados na obra, mas que servem para elevar o diálogo entre a racionalização e o sentir. O spoiler é que, no fim, o sentir vence.
Nota: 4 /5