Crítica: A Odisseia
A Odisseia
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Nacionalidade e Lançamento: Reino Unido, Estados Unidos, 2026
Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Travis Scott, Robert Pattinson, Corey Hawkins, John Leguizamo, Mia Goth, Himesh Patel, Charlize Theron, Zendaya, Jon Bernthal, Bill Irwin, Lupita Nyong’o, Samantha Morton.
Sinopse: Adaptação do poema épico de Homero, o filme acompanha a longa e perigosa viagem de regresso a casa de Ulisses, rei de Ítaca, após a Guerra de Troia. Nesta viagem de 10 anos, ele encontra deuses, monstros e desafios intermináveis, enquanto tenta reunir-se com a esposa e recuperar o seu reino.
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Mais uma vez, Nolan está interessado em um homem torturado por suas próprias escolhas. Se em Oppenheimer existe a bomba atômica, em A Odisseia existe o Cavalo de Troia. A oferta de paz em nome de Atena que se transforma em banho de sangue, anarquia e vinte anos de fúria dos deuses, em contraste com a invenção científica que representa, até hoje, a arma mais letal que o mundo já viu. Ambos os longas estão profundamente interessados na repercussão psicológica e emocional das escolhas dos seus protagonistas; homens, líderes, em controle de qualquer situação, que fatalmente se tornam vítimas da própria obstinação.
Odisseu (Matt Damon), assim como Oppenheimer (Cillian Murphy), não alcança seu objetivo com a sensação de dever cumprido. Pelo contrário, ambos cruzam a linha de chegada em meio a um vazio existencial provocado pelo ódio e pela guerra que inevitavelmente envenenam suas almas. Contudo, para mim, apenas um desses filmes consegue embarcar o personagem (e o espectador) em uma jornada tão empolgante quanto tecnicamente primorosa, conciliando seu habitual realismo com uma fantasia que nunca havia abraçado dessa forma. Quando Nolan compreende que não existe nada mais real do que as ideias que criamos para nós, seja para nos punir, seja para nos honrar, chega ao filme que eu nunca pensei que ele seria capaz de fazer.
“A face… a fleet… a war… a man… a thought… a trick…”

Em A Odisseia, o mesmo canto que abre e encerra o filme apresenta uma ideia, um mito, sobre Odisseu e a Guerra de Troia que vai além do próprio homem. Em forma de canção, o herói será eternizado, e tudo o que foi por ele vivido será para sempre honrado. Mas, entre o início e o fim, o que acompanhamos é uma jornada essencialmente humana, de um homem que pode (ou não) ter criado esse tormento em sua própria cabeça.
Quando Nolan transforma Atena em uma manifestação psicológica da culpa carregada por Odisseu, ele se permite trabalhar com a ideia de que toda a jornada pode ser retratada sob uma lente fantástica, uma vez que parte da premissa de que nada é real e, logo, tudo também pode ser. Se estou certa sobre isso, é uma forma no mínimo curiosa de se convencer a trabalhar elementos fantásticos pela primeira vez em sua filmografia. Mas, se foi isso que o fez ter tanto esmero em cenas como a de Polifemo e das sereias, não sou eu quem vai reclamar. O que quer que Nolan tenha dito a si mesmo para abrir mão, em parte, de um realismo que sempre me entediou, vou embarcar porque deu certo.
O apego exagerado à razão em seus filmes, para mim, sempre foi sinônimo de algo anti-cinema. Só de pensar em ter um orçamento imenso à sua disposição e usá-lo não para tentar transpor o inimaginável, mas para alimentar fetichismos inócuos de uma realidade quase sempre tão sem graça, sem vida e sem cor, me dava calafrios. A Odisseia me surpreendeu porque ele não só abraça a mitologia do texto original, como incorpora gêneros que eu não esperava que pudesse absorver, como o body horror na excelente cena dos porcos.
Nesse filme, a dificuldade que sempre teve de retratar personagens femininas, de ir além da caricatura histérica ou do tropo narrativo da mulher na geladeira, é atenuada por uma Penélope (Anne Hathaway) forte, com autonomia sobre suas vontades e constante insubordinação aos homens que a cercam, e por Circe (Samantha Morton), que quase rouba o filme para si com uma cena de apenas dez minutos e um monólogo excepcional, cheio de ódio e emoção.

Por outro lado, a insistência em diálogos expositivos ainda me irrita em seus filmes. Qual a necessidade de três cenas seguidas anunciando a partida de Telêmaco em busca de notícias do pai? Ou de reforçar a Lei de Zeus em pelo menos cinco momentos diferentes? Mas, como a trilha minimalista, pontual e acertada de Ludwig Göransson parece alinhar a experiência da obra à de uma canção filmada, pela primeira vez esse vício se torna tolerável.
Contornados ou atenuados dos meus principais incômodos com o cinema do diretor, me parece que os caminhos traçados por Amnésia, Insônia, Dunkirk, A Origem, Oppenheimer e tantos outros parecem ter sido feitos para preparar Nolan para essa adaptação. É como se tudo que ele já tivesse experimentado antes chegasse ao seu ápice em um filme que se encaixa perfeitamente nos seus temas, mas que ainda é um desafio enorme em dimensão (longa duração, muitos personagens e linhas temporais que se entrecortam), tecnologia (inteiramente filmado em IMAX) e narrativa (adaptação de um clássico complexo e denso).
As melhores cenas que ele já fez estão aqui. Não tenho dúvida de que a sequência de Hades e a do Cavalo de Troia, por exemplo, podem entrar para a história do cinema com louvor. O melhor e mais interessante relacionamento de um protagonista também está aqui, assim como a ligação que ele possui com a família, com o próprio lar. Os maiores percalços e tormentos já enfrentados por seus personagens também pertencem a Odisseu. Todos os caminhos levam à Odisseia. É realmente como se estivéssemos presenciando sua maturidade como diretor.

No entanto, nada disso quer dizer que o filme não tenha suas fraquezas. O elenco, por exemplo, tem grandes acertos como Damon, Pattinson e Morton, mas também reúne atores que parecem bem abaixo de seus colegas, como Tom Holland, Zendaya e Charlize Theron. Dos grandes nomes, me parece que esses três atuam em piloto automático durante boa parte do tempo, e a diferença em relação aos colegas se torna perceptível.
A montagem, nos primeiros minutos, é medíocre. Entupida de cortes, atropela a introdução da história e é um dos principais motivos pelos quais a escolha de não mostrar o rosto de Odisseu em um primeiro momento perde impacto. Às vezes, é justamente a montagem que evidencia que algumas cenas foram gravadas diante de um espelho, por conta das câmeras IMAX, quando os close-ups nem sempre funcionam porque fica perceptível quem não está, de fato, olhando para o interlocutor.
E a sobriedade dos seus filmes ainda é uma marca da sua filmografia que me incomoda. Mesmo abraçando uma dose considerável de fantasia, muito maior do que eu esperava para ele, ainda existe uma necessidade de ancorá-la, visual e esteticamente, ao realismo, à razão. Seja no uso das cores, no figurino ou na direção de arte, em geral, tudo volta para a negação de uma suspensão de descrença que ainda torna seu cinema, pelo menos para mim, difícil de amar.
De todo modo, é admirável que Nolan faça dois filmes anti-guerra consecutivos em um período no qual observamos o multilateralismo ruir e a Organização das Nações Unidas, por exemplo, perder cada vez mais sua força, que já era questionável. Uma pena que essa crítica seja uma das últimas coisas que as pessoas ditas “anti-woke” vão conseguir extrair da obra. Mas, desses, já sabemos que nada podemos esperar.
Nota: 4 /5