Revendo Planeta dos Macacos do Tim Burton
Planeta dos Macacos (Planet o the Apes)
Direção: Tim Burton
Roteiro: Elfriede Jelinek, William Broyles Jr., Lawrence Konner, Mark Rosenthal, Tim Burton.
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2001.
Elenco: Mark Wahlberg, Tim Roth, Helena Bonham Carter, Michael Clarke Duncan, Paul Giamatti, Estella Warren, Kris Kristofferson, Charlton Heston, Luke Eberl, Cary Hiroyuki Tagawa, David Warner, Lisa Marie, Glenn Shadix, Erick Avari, Evan Dexter Parke.
Sinopse: Um astronauta chamado Leo chega a um planeta comandando por macacos.
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Planeta dos Macacos (Planet of the Apes) do Tim Burton está longe de ser um filme sem alguns problemas graves. O Mark Wahlberg dá uma das piores atuações de todos os tempos impedindo que o peso do seu protagonista no embate central do filme avance, o triângulo amoroso principal fica parecendo como uma demanda burocrática e quadrada de um blockbuster de estúdio pelos envolvidos estarem fazendo um blockbuster de estúdio. É uma covardia o filme não investir como deveria no par do protagonista com a Helena Bonham Carter: o seu personagem não é bem desenvolvido e o Burton claramente não é a melhor pessoa do mundo pra lidar com analogias, com questões temáticas mais delicadas e muita das caracterizações são bastante questionáveis.
Mas a beleza da sua reimaginação de Planeta dos Macacos (Planet of the Apes) está em como existe uma mistura de três filmes diferentes no mesmo longa, o que causa ao mesmo tempo um choque – que se mostra uma junção orgânica – e uma conversa dentro do filme de Burton em que ele dispensa e se desapega da sua estilística costumeira que é tão reconhecível, em como ele entra de cabeça numa outra lógica diferente da sua sem se invisibilizar artisticamente, na engrenagem e funcionamento de um blockbuster sóbrio, se compromete com o seu ritmo ágil, com as suas demandas e em como fazer um blockbuster classicão que nada mais é que um épico direto de aventura e perseguição usando todo o melhor artesanato dos filmes industrias com muita grana de Hollywood pra intensificar essa caracterização.

E não falo só da direção de arte excelente e bastante carregada desse mundo, do valor de produção de um filme épico de enorme orçamento presente em tela, da trilha sonora do Danny Elfman ou da direção de fotografia sóbria mas exuberante e com momentos muito quentes, eu falo também de como Burton faz com que as paisagens magnificas desse mundo em grandes planos gerais, nos enquadramentos mais abertos possíveis, nas fusões suaves de dissolves nas transições quando imagens desaparecem levemente para outras irem surgindo em cima disso e em composições que agrupam e posicionam personagens – e por vezes uma série de personagens – simetricamente no quadro e como tudo isso se tornem um elemento narrativo central.
Justamente porque esse sentimento de deslumbramento é tão forte, tal qual um épico bíblico do Cecil B. DeMille dentro de uma estrutura de um filme do Michael Bay ou do Bryan Singer, porque o filme opera constantemente desde a chegada de Mark Wahlberg até o fim como uma lembrança de uma imponência imagética da vastidão de andanças por um mundo estranho que nunca sai de vista dos personagens ou das observações deles.
E mesmo seguindo uma estrutura simples, direta, ás vezes tão careta ou com cenas de batalha que querem remeter tanto uma violência e uma selvageria em como os personagens se movem e agem, mas são coreografadas e filmadas apenas de um modo comum na sua execução, o peso do épico acaba tendo ressonância pelo comprometimento com isso ser tão constante até em coisas como a cena final com o Abraham Lincoln, que soa impactante mesmo que ela seja tão óbvia e torta enquanto mensagem e colocação dramatúrgica. Porque a imagem de um pesadelo está lá em toda a sua imponência imagética, algo nunca abandonado por Burton e sempre reforçado por ele.
Junta a isso existe o maior toque do Tim Burton como autor que é como ele caracteriza o funcionamento da sociedade dos macacos: aí sim vemos o estilo costumeiro dele se chocando/juntando e conversando com esse outro filme mais clássico: vemos uma sociedade aristocrática no poder que é excêntrica, autoritária, religiosa, hipócrita, cruel e bizarra. Símbolos de poder como o militarismo como ameaças violentas, extremistas, reacionárias e os poderosos como seres patéticos. Um teor satírico típico da sua filmografia, só que aqui bastante suavizado. A personagem de Helena Bonham Carter surge como a típica “outsider” dos filmes de Burton dentro de uma sociedade tradicionalista, indo contra ela.

O fato de os macacos serem racionais, estarem trajados e em posições humanas mas nunca perderem uma caracterização selvagem dando altos pulos, batendo violentamente em seus corpos, se movendo sem parar e abruptamente, gestos brutos, falas brutas, com personagens urrando e falando alto em cenas corriqueiras, acaba dando tanto um teor físico quanto levemente kitsch e brega. Ridículo. Ao mesmo tempo que é bastante bizarro, agressivo e intimidador. Mesmo quando essa sátira da sociedade geral dos macacos sai de cena levando a uma divisão entre as andanças de Mark Wahlberg e apenas as cenas com o Tim Roth, essa noção que Burton coloca viva em tela da não normalidade convivendo com a normalidade acaba sendo presente em toda a lógica e construção do filme pela atenção aos macacos e as suas atitudes nunca sair de vista.
A maquiagem de Rick Baker não é fantástica apenas pelos seus detalhes, mas também evidencia ainda mais a bestialidade dos personagens macacos ou os traços suaves de Helena Bonham Carter diante disso. E aí temos um terceiro filme nessa equação operando junto aos outros: o filme do Tim Roth. Burton faz um filme sobre imponência, sobre um sentimento antiautoritário, sobre mundos e sociedades construídos em cima de mentiras. Se o primeiro ponto se mantém em pé firme, a construção do personagem de Mark Wahlberg e do roteiro nunca permitem que o outros pontos cheguem em suas totalidades mesmo que muitos deles sejam evidente. Mas o que é mais claramente pleno no filme de Burton e orbitando nesses lugares sem dúvidas é o General Thade e a figura de Tim Roth.
Roth rouba completamente a cena e o filme pra si tomando o protagonismo do longa. A divisão de Burton em prol de um contraste entre o foco no filme do Mark Wahlberg e o filme de um vilão nesse lugar de coprotagonista operando nas sombras enquanto persegue o herói evidencia ainda mais o quanto ele tem um verdadeiro fascínio pela figura de Tim Roth e o seu personagem. O vazio e incompetência da interpretação de Mark Wahlberg junto com a fragilidade do desenvolvimento temático do seu personagem fazem que seja ainda mais gritante como Roth toma o filme pra si. Já que ele está no extremo oposto disso. Ele está brilhante e dando tudo de si nesse papel.
O General Thade deve ser um dos vilões mais bem escritos, desenvolvidos e atuados de um blockbuster. Talvez da Hollywood em geral. Ele ocupa uma dimensão muito grande nesse filme. Seu sadismo, sua raiva que não acaba, sua violência, seu preconceito, crueldade, arrogância, sua maldade mesquinha, hipocrisia e rompantes recorrentes de agressividade extrema são enfatizados em todas as cenas que ele se faz presente (metade do filme marcando essa divisão de foco), ao mesmo tempo que ele também age como um garotinho apaixonado nos seus momentos com Helena Boham Carter – mas não tem problema nenhum em machucar o objeto da sua paixão – e um bom filho dedicado a manter o legado da sua família baseado em mentiras.

Alguém muito devotado ao lugar que ocupa numa sociedade, mesmo esse lugar sendo plenamente maligno, perverso e uma oportunidade pra ele ser uma pessoa horrível. Quase um Macbeth na sua fé cega pelo status quo, na sua sede de sangue e na sua busca pessoal por poder. Tim Roth se joga no papel ao máximo enfatizando toda a força bruta do seu personagem, toda a sua intensidade e um fator animalesco nas suas falas, no seu andar e nos seus olhos que sempre parecem prontos pra se romper num surto total. Suas próteses não são um impeditivo ou um mero adereço e sim um instrumento que ele vê para usar em prol da composição de um personagem tratado tanto por ele como por Burton de um jeito muito denso, bestial e sombrio mas também levemente patético.
Se o filme fosse centrado apenas nele, Planeta dos Macacos do Tim Burton seria um filmaço ou talvez até uma obra prima. Porém o filme, mesmo que torto e falho, continua fascinante e belo por achados gigantescos como ele. Achados que sintetizam tudo que o filme tem de melhor. Belíssimo filme.
Nota: 4 /5