Crítica: A Fabulosa Máquina do Tempo – 49º Festival Guarnicê de Cinema
A Fabulosa Máquina do Tempo – 49º Festival Guarnicê de Cinema
Direção: Eliza Capai
Roteiro: Daniel Grinspum, Eliza Capai
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 2026.
Sinopse: Documentário sobre meninas que se equilibram entre a vida difícil de suas mães e os sonhos futuros, passando para a adolescência em um lugar onde os homens ainda superam as mulheres em status.
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Quantas e quais são as mulheres que têm o direito de sonhar? Pelas desigualdades do nosso país, nas mais diferentes esferas, se pararmos para pensar na quantidade de meninas e jovens mulheres que não tiveram (e ainda não têm) o direito de imaginar uma vida melhor, ficaríamos surpresos com a condenação que seus corpos recebem de maneira tão precoce.
Em 2022, dados do Unicef apontaram que o Brasil ocupava o 4º lugar no ranking de países onde há mais casamentos infantis (fonte: Agência Câmara). Não raro, assim que menstruam, meninas são obrigadas a casar com homens muito mais velhos e levadas a crer que precisam abandonar a infância para sustentar a família. Muitas são obrigadas a encenar uma realidade que não desejam e que nunca lhes coube, porque se veem sem qualquer saída diante da caixa que foi designada a elas antes mesmo de nascerem. Como uma espécie de sentença.
Eliza Capai, desde o “Incompatível com a Vida”, já tinha me ganhado pela forma como enxerga a complexidade da existência do corpo feminino em sociedade e como são muitas as camadas que lhe atravessam, independentemente da posição que ocupam socialmente. Um corpo que, naquele documentário de 2022, é coagido a aceitar um sofrimento que não pediu e que agora, em “A Fabulosa Máquina do Tempo”, é um corpo em processo de autodescoberta que tenta se libertar do que até hoje parece caber a ele.
A partir de uma viagem para Guaribas, no início dos anos 2000, ora conhecida como a cidade de menor IDH do Brasil, a diretora passa a refletir sobre as mudanças provocadas pelo programa social Bolsa Família naquela localidade ao longo dos anos que havia sido escolhida como projeto-piloto do programa social. Mais de 20 anos depois, ela retorna ao município, que a essa altura já havia saído da classificação, para pôr mães e filhas frente a frente e refletir sobre o que mudou nas vivências de mulheres no espaço de apenas uma geração.
Entre o faz de conta e o documentário, algo que faria Eduardo Coutinho (Jogo de Cena, Cabra Marcado Para Morrer) orgulhoso, penso eu, é a forma como Capai borra as linhas entre a ficção e a não-ficção ao colocar as próprias meninas para atuarem em esquetes que pensam um futuro menos machista e controlador. Em resumo, mais empoderado para meninas e mulheres. Garotas com média de idade entre 6 e 12 anos brilham em cenas que ironizam o papel da mulher na sociedade patriarcal, ao passo que provocam o espectador a pensar as múltiplas camadas que tentam exercer controle sobre seus corpos: a família, a religião, a escola, a biologia e a sociedade.
Com muito domínio do que faz, me agrada que Capai conduza o filme como quem entra de cabeça na brincadeira de criança. O faz-de-conta existe livre o suficiente para que o filme se permita passear por diferentes gêneros cinematográficos, da comédia à ficção científica, com intensos momentos dramáticos, e misturar de diferentes modos do cinema documental (participativo, observativo, reflexivo) com uma narrativa ficcional bem equilibrada por um roteiro que é cortado pelas passagens do tempo e reflexões bíblicas sobre o que é a mulher.
Em um ano em que a violência contra a mulher bate recorde, A Fabulosa Máquina do Tempo é um grito de resistência a favor do direito de mulheres sonharem com um horizonte melhor, mas ainda é um filme cuja esperança é atravessada por uma melancolia, que não tem como ser diferente quando se é mulher: nossos dias melhores sempre terão uma sombra da dúvida. Será que elas vão conseguir o que sonham? Será que as circunstâncias não mudarão o rumo de suas vidas? Será que seus corpos serão controlados? São perguntas que ficam conosco conforme os créditos rolam, com imagens de meninas que logo SÃO o nosso futuro. Um futuro melhor, eu espero.
Nota: 4,5 /5