Crítica: Cabo do Medo (2026)
Cabo do Medo (2026)
Criação: Nick Antosca
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2026
Elenco: Amy Adams, Javier Bardem, Patrick Wilson, Joe Anders, Lily Collias, CCH Pounder.
Sinopse: Um casal feliz enfrenta uma ameaça crescente quando um conhecido assassino do passado, Max Cady, é libertado da prisão e busca vingança.
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A classe média precisa que suas conquistas sejam asseguradas, pois diferente dos milionários, ela pode perder tudo a qualquer momento. Se não fizer a manutenção corriqueira da renda, ou seja, trabalhando e se alienando, ela está mais perto da pobreza do que da riqueza. Assegurar as conquistas dentro do capitalismo requer esforço e conchavos desagradáveis para manutenção do pequeno poder.
Existem diferenças dos acessos de classe entre Brasil e Estados Unidos. As igualdades estão na forma como lidam com o moralismo tipicamente capitalista e a pouca ética quando os próprios interesses estão em risco. Cabo do Medo, nova minissérie da Apple TV+ — que têm como produtores executivos Martin Scorsese e Steven Spielberg — , explora os segredos, hipocrisias e conchavos íntimos de uma advogada e um promotor que condenaram um criminoso sem apresentar todas as provas que poderiam livrá-lo da sentença.
Remake do filme de mesmo nome lançado em 1991 por Scorsese — adaptado do romance Os Violentos (1957) do escritor John D. MacDonald — , a releitura troca o gênero dos personagens. No lugar do advogado, temos a advogada Anna Bowden (Amy Adams), casada com o promotor Tom Bowden (Patrick Wilson). O assassino continua sendo Max Cady, vivido na performance aterrorizante de Javier Bardem que, depois de anos preso, volta para aterrorizar o casal que o condenou.
Adaptado para TV por Nick Antosca com contribuição de outros roteiristas e diretores, ao longo dos dez episódios assistimos uma vingança em banho maria. Conduzir um suspense de reviravoltas e segredos, expondo as mentiras do casal protagonista com sua família feliz — eles possuem dois filhos adolescentes — cria um cenário macabro de desestruturação familiar, sem perder de vista o desaparecimento da ética e o desmanche da estética feliz suburbana.

Impressiona os acréscimos em relação ao filme de 1991. O que Scorsese fez em duas horas de forma ousada, Antosca utilizou quase dez para aprofundar os dilemas morais. A condenação de Max Cady nasceu da mentira e omissão de sua advogada, Anna, para logo depois da condenação se casar com o promotor. São mudanças consideráveis: Anna que era esposa e coadjuvante, agora protagonista e advogada, se envolve amorosamente com Cady; o assassino que era um nacionalista radical, virou um imigrante espanhol; entre outras.
No conjunto, as adaptações no texto original forjam um emaranhado de suspeitas e medos da classe média estadunidense sob Donald Trump. O medo da substituição por imigrantes, teoria da conspiração difundida pelo movimento MAGA, ocupa a quase literalidade na minissérie. Cady alega ter perdido sua família quando foi preso, embora tenha sido acusado da morte da esposa grávida de seu filho. Parte da sua vingança, constroi ao se infiltrar na família Bowden e trazer para si os filhos dos advogados. Ele tenta substituir a família, e funciona.
Esse tipo de retaliação traz problemas graves. Todo vingativo que atua, suja as mãos. E todo aquele que revida, suja mais. Não há saídas positivas. Max tenta encontrar culpados exclusivos para uma vida de traumas que ele mesmo não reconhece ter nascido de sua própria história. Com pai violento e madrasta pior, sua vida de cachorro fez dele um sujeito tão violento quanto seus algozes infantis. Ele poderia até não ter matado a esposa, mas violentou e abusou de tantas outras mulheres. E na sua vingança, instrumentalizou a própria filha para ajudá-lo.
O peso das mentiras da advogada, apenas contribuíram para uma punição pior, porém, como retratado no enquadre final, apenas um tribunal seria capaz de condená-lo, e não sua advogada, que estava acobertando um deslize grave. O jogo de gato e rato que se entrelaça ao extremo, pune quem era um adendo à falsa imagem de família bem-sucedida que Anna e Tom construíram, inclusive à revelia dos próprios filhos que diziam tanto amar.
As assimetrias com o padrão classe média passa a ser o termômetro moral. O medo de perder tudo, especialmente quando construído em cima de atropelos éticos, cria uma paranoia difícil de conter, fazendo com que a eleição de inimigos imaginários seja a saída. Atualmente são os imigrantes latino-americanos, assim como após as torres gêmeas foram os muçulmanos. A guerra cultural se ocupa em criar cidadãos de bem e a escória. A binaridade dos culpados e inocentes, numa sociedade que se vê espremida entre a pobreza e a extrema pobreza. Quem mais perdeu renda depois da crise de 2008?

Cenas do destino, podemos dizer, tanto Amy Adams como Patrick Wilson protagonizaram filmes com temáticas semelhantes e se mostraram competentes. Adams com o ótimo Animais Noturnos (2016), do brilhante Tom Ford, e Wilson em Pecados Íntimos (2006) de Todd Field. Em ambos, suspense e drama são linhas mestras e os atores fazem tipos morais quase idênticos aos da minissérie. A diferença importante mora na violência. Enquanto os filmes trabalham sutilmente a violência psicológica, Cabo do Medo, quando precisa, utiliza da violência extrema para produzir o controverso gozo de satisfação.
A sensação de regozijo com a violência brutal está intimamente ligada ao fato de não haver inocentes em cena. Em nenhuma delas. Mesmo os filhos adolescentes, Natalie (Lily Collias) e Zach Bowden (Joe Anders), tão novos já carregam seus fantasmas. Não vale a pena torcer. São todos falíveis em certa medida. Provavelmente sem saber, a minissérie reflete sobre as consequências das violações éticas para se manter num padrão social respeitável. O caçador de hoje, pode ser a caça amanhã.
A vingança, tema central do livro e das três adaptações cinematográficas — Círculo do Medo (1962) foi a primeira — continuou sendo o prato principal, que aqui não parece tão frio como informa o ditado. Sem equívocos dignos de nota, Nick Antosca construiu um projeto arrojado. Bom elenco, texto consciente e referências bem posicionadas ao filme de Scorsese, contribuíram para a consistência dos dez episódios — oito estariam de bom tamanho. E se não faz avanços e joga seguro, pelo menos Cabo do Medo parece ter capturado o pânico da classe média suburbana de se ver confrontada com inimigos políticos imaginários para não precisar reconhecer a própria mediocridade.
Nota: 4 /5