Os streamings e o fim do cinema
*artigo escrito por Wesley Fernandes
O ano era 2020 e o mundo mergulhou numa pandemia. Os streamings vinham numa crescente, mas naquele momento uma nova realidade se apresentou e, de repente, o streaming representava o futuro acontecendo. Com isso, os estúdios de Hollywood começaram a investir pesado no desenvolvimento de plataformas, bem como em elaborar seus catálogos para aquele novo momento que, naquele contexto, era o futuro sendo antecipado.
Nesta corrida, Disney+ foi lançado, HBO Max veio ao mundo, Apple anunciou streaming e Amazon anunciava a expansão do serviço Prime Vídeo. Com isso, estava montada a ideia de que o streaming se tornaria definitivamente o audiovisual número 1 do mundo. Logo, a especulação era de ganhar novos assinantes a todo custo, além de experimentos sociais no audiovisual com o serviço de pagamento para ver filmes que ainda estavam no cinema.
Muito dinheiro foi investido por parte dos estúdios, a classe artística tentava entender como seria a questão das exibições e a ideia era clara: assim que a pandemia acabasse a realidade seria outra. E foi. Os cinemas sentiram logo a mudança de costumes e custou muito a ver o público voltar às salas — não é à toa que devemos ter números parecidos nas bilheterias de cinemas ao período pré-pandemia apenas em 2026, caso as projeções se confirmem — por outro lado, as gigantes do entretenimento passaram a buscar formas de ampliar as assinaturas de streaming e foi feito de tudo, inclusive dizer que talvez fosse o fim do cinema em médio prazo. Mas seria isso possível?
Me peguei pensando sobre desde a época e nunca me desceu essa tese. O tempo tem dado mais amostras de como foi uma leitura equivocada do mercado e como os streamings acabaram se tornando superestimados nesse ponto. A gente pode pegar o recorte dos últimos anos com o cinema voltando a ter público e mostrando que, na verdade, talvez a pandemia tenha coincidido com uma virada no gosto do público por blockbusters, mas isso é outro assunto.
Para falarmos dos streamings especificamente, o argumento é olhar pra trás na história.
Sempre que surge uma nova tecnologia, sempre se fala do fim da anterior, pegando o rádio como exemplo, seu fim foi anunciado desde o surgimento da TV, há mais ou menos cem anos. De lá pra cá, não só o rádio continua bem vivo, como também segue em certa expansão, com o mercado aquecido em 2025 e grandes empresários adquirindo novas estações de rádio no processo de ampliação de negócios e da estabilidade que o setor tem tido nos últimos tempos.
Podemos citar no audiovisual ainda o surgimento do serviço home vídeo nos anos 1980 e tudo o que se falava sobre o impacto deles no cinema: era só aguardar alguns meses para assistir ao filme no conforto do lar. Mas o que se viu foi que o crescimento do home vídeo não fez com que o cinema sequer chegasse perto de acabar ou sofrer qualquer ameaça.
No final das contas, o novo vem e sempre virá, para somar e ocupar o seu espaço. Esse “novo” muda e agita o mercado, mas para dizimar um segmento precisa de muito mais. O caso do streaming, pelo menos na leitura deste que vos escreve, veio apenas para ser a versão moderna das locadoras e, principalmente, da TV a cabo. Até a forma que os serviços de streamings tomaram nos últimos anos sinalizam essa ocupação do lugar dos canais de TV paga ou modernização dos mesmos.
Não é à toa que os streamings já estão alugando suas obras para passar temporadas na concorrência, como uma das formas mais simples de diversificar os negócios e manter fluxo de arrecadação mais realista. Ambições que eram projetadas em 2020 para lucros exorbitantes deram lugar a um crescimento mais orgânico e uma disputa até mais parelha, com a Netflix vendo seu reinado ameaçado, graças ao redirecionamento de rota das concorrentes.
O streaming tem agora dilemas bem mais modestos, como o de mostrar ao público que não está se tornando uma nova TV a cabo com seus preços cada vez maiores e inúmeros serviços, além de buscar eventos ao vivo para competir com a TV aberta, há 6 anos a especulação era fantasiosamente outra. O tempo dirá qual será a dos streamings no final das contas, mas uma coisa é certa: o lugar do cinema seguirá sendo dele, enquanto ápice de experiências e momentos únicos na vida de quem gosta de filmes e o streaming seguirá se desenvolvendo, mas a sua maneira e dando possiblidades de maneira talvez mais intimista e nesse percurso encontrará novos desafios, mas nenhum deles será o de acabar com o cinema.