Crítica: Dia D
Dia D
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2026
Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo
Sinopse: Se você descobrisse que não estamos sozinhos, se alguém te mostrasse, isso te aterrorizaria?
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Quem ouve o podcast do Cinem(ação) deve ter passado pelo episódio em que comentamos Devoradores de Estrelas. Em certo momento, debatemos se Andy Weir, autor do livro que daria origem ao filme, foi inocente ao imaginar uma colaboração entre governos muito diferentes para enfrentar uma ameaça mundial. Particularmente, acho que nesse caso foi mais otimismo do que inocência, mesmo por que, depois temos um vislumbre da situação em que o planeta Terra se encontra e não é exatamente das melhores. Pensei nessa conversa depois de assistir Dia D: quem cumpre o papel de inocente no cinema de ficção científica esse ano, até o momento, é Steven Spielberg.

Dia D marca o retorno de Spielberg à temática alienígena, a qual ele havia trabalhado pela última vez em Guerra dos Mundos, de 2005. Esse novo filme, porém, carrega mais similaridades com E.T.: O Extraterrestre (1982) e Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), sendo visto por algumas pessoas até como uma sequência não-oficial desse último. O roteiro é de David Koepp em sua quinta colaboração com o diretor, com base em uma história imaginada primeiro pelo próprio Spielberg.
O filme começa como um thriller de conspiração, com o personagem de Josh O’Connor, Daniel Kellner, encurralado por Noah (Colin Firth) e um bando de agentes que querem recuperar um “artefato”. Daniel exige que eles devolvam sua namorada, Jane (Eve Hewson), nessa troca, e temos aí a primeira de algumas cenas de fuga e perseguição. Daniel está agindo junto com um grupo de ex-funcionários da empresa onde trabalhava, liderado por Hugo (Colman Domingo), que pretende mostrar ao mundo uma verdade há décadas escondida pelo governo.
Em outro núcleo, conhecemos Margaret (Emily Blunt), a “moça do tempo” de um jornal local no Kansas que quer ser promovida a âncora. Ela vive com o namorado, Jackson (Wyatt Russell), que tem dificuldades de acompanhar o ritmo da moça, sempre pronta para mudar para outro lugar se não estiver conseguindo atingir seus objetivos no atual. Naquele café da manhã, Margaret recebe uma visita inesperada e, a partir daí, começa a falar em outras línguas sem perceber e a ler sentimentos e acontecimentos em pessoas, sem que elas digam uma palavra. Na previsão do tempo daquele dia, Margaret fala em uma língua ininteligível para a maior parte da humanidade, exceto para Daniel. E os dois vão se encontrar. Mas, em um filme de 145 minutos, vai demorar um pouco pra isso acontecer…
Pelo lado positivo, Dia D reúne muitas das características que tornam o trabalho de Spielberg tão marcante. Em um filme repleto de cenas de ação grandiosas mescladas com momentos mais intimistas, a história é contada, em grande parte, na forma como a câmera dança nos cenários, acompanhando a coreografia dos atores em cena. Além disso, temos os tradicionais personagens comuns encarando situações extraordinárias, suas respostas emocionais, a iluminação que acompanha uma grande revelação, memórias da infância. Tudo isso é acompanhado pela trilha sonora de John Williams, que saiu da aposentadoria para uma 30ª colaboração com Spielberg. Mas, então, qual é o problema?
Todas essas características acabam um tanto apagadas quando o roteiro as transforma em um amontoado desconjuntado de clichês e conveniências. É divertido acompanhar as repetidas fugas e perseguições, mas vilões que parecem estar em uma esquete dos Trapalhões quebram o clima de tensão. O tal artefato, que a princípio parece perigoso e instável, aparece e some segundo as necessidades dos personagens, seja para ficarem invisíveis, seja para acender lâmpadas.

A situação em que nossos protagonistas se encontram acontece enquanto o mundo está à beira da terceira guerra mundial, o que é apresentado em passagens em noticiários ou com pessoas estocando comida em um mercado. O segredo que Daniel e companhia querem revelar ao mundo pode mudar os rumos da humanidade, mas a urgência do conflito é um pano de fundo tão superficial que parece que os dois assuntos nunca se encontram. Há, ainda, diálogos excessivamente didáticos, às vezes explicando algo que estamos vendo em tela, enquanto discussões interessantes, como o papel da religião ou do Deus católico em um mundo que sabe que alienígenas existem, são resolvidas com uma frase.
Dia D é mais bem sucedido quando trata da mídia. A pergunta que a sinopse traz, questionando como seria se a humanidade descobrisse a verdade sobre a existência de vida fora da Terra, é quase uma pegadinha: não é isso que o filme vai responder. A questão é como uma notícia dessas é dada pela mídia. E volto ao começo desse texto, quando falei sobre a inocência: ambientar o filme no presente, quando notícias vêm de todos os lados o tempo todo, verdadeiras ou não, e contar que “passar no jornal das nove” seria o suficiente para mover as pessoas, é algo difícil de comprar. Talvez Spielberg veja na TV a mídia “oficial”, a mais confiável, mas o mundo veria dessa forma?
Mas, por mais que o filme não tenha conseguido me fisgar, vi muita gente emocionada na saída da sessão. Acredito que Spielberg, por mais piegas que soe em Dia D, continua sendo muito competente em tocar o público, em fazer as pessoas se identificarem tanto com o ser humano comum quanto com os alienígenas capturados por agências governamentais estadunidenses. Pode não ser esse o filme que vai unir todos os povos, mas uma mensagenzinha de esperança nunca é demais.
Nota: 2,5 / 5