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O melhor monólogo do cinema está em um filme extremamente silencioso

Sombras da Vida (A Ghost Story) é um filme pouco citado pelos cinéfilos, mas quem o viu sabe que um dos melhores monólogos do cinema está dentro dele

Sombras da Vida não é um filme para qualquer um. E não quero dizer isso em forma de arrogância intelectual. Tecnicamente, do roteiro à direção, ele não foi feito para o grande público. É um filme que nasceu para ficar escondido e ser encontrado no catálogo sem a menor pretensão de ver algo extraordinário. Entretanto, o que torna Sombras da Vida inesquecível não é apenas sua história sobre a morte: é um monólogo de aproximadamente cinco minutos que surge depois de quase uma hora de filme.

Imagine assistir a um filme sobre a morte e, nos primeiros quinze minutos, o protagonista morrer. Sombras da Vida é isso. Ao invés de acompanharmos os últimos momentos de um ser humano vivo, acompanhamos sua existência como fantasma, revisitando tudo o que conquistou em vida. Conquistas que se resumem a uma simples casa interiorana e ao amor incondicional por outra pessoa.

É justamente aí que o filme brilha.

Na tentativa de explicar nossa insignificância diante do universo e nossa busca constante por controlar o tempo e tudo o que perdura nele, somos colocados diante de um fantasma que não consegue aceitar a própria morte. A casa, que antes era uma conquista de um casal apaixonado, torna-se cenário para tantas outras famílias que passam a habitá-la ao longo dos anos. E o fantasma continua lá, calado, observando, tentando de alguma forma pertencer a um lugar que já não é mais seu.

Depois de cinquenta e oito minutos de filme, enquanto o fantasma permanece obcecado pelo que restou daquela casa que ainda acredita poder possuir, vemos jovens festejando na sala de estar e na cozinha. As vozes e risadas dão lugar àquele que, em aproximadamente cinco minutos, consegue resumir exatamente o que entendo por humanidade – e que, para mim, todos deveriam ouvir pelo menos uma vez.

Com uma cerveja na mão, um homem questiona os amigos sobre qual a importância de fazermos coisas extraordinárias se, no fim, tudo um dia será esquecido. Pode demorar um pouco mais, caso você seja uma figura pública de influência, ou um pouco menos, caso tenha escolhido uma vida recatada entre os mais próximos. De qualquer modo, o esquecimento é inevitável.

Porém, há uma ambiguidade citada durante o monólogo: existe algo maior que nos torna humanos. Quando fazemos algo, não fazemos apenas por nós ou pelos outros; fazemos porque acreditamos na eternidade. Eternidade essa que pode ser nomeada como Deus ou apenas como a continuidade da vida no universo.

Para mim, existe algo de extrema profundidade aí: é justamente entender que, mesmo dentro da nossa pequenez diante de um vasto universo inexplorado, existe algo de extraordinário na tentativa humana de ser eterno, embora saibamos o tempo todo que isso nunca será possível.

E talvez a eternidade esteja na arte. Naquela música de Beethoven que, daqui a milhões de anos, possa ser escutada por acaso e sentida da mesma maneira de quando foi composta. Ou na receita de bolo de fubá que sua bisavó lhe ensinou, que você passará aos seus filhos, e eles aos seus netos.

Sombras da Vida nos ensina algo tão primitivo, mas que esquecemos no percurso: a arte de realizar algo, seja uma melodia, uma escrita ou uma pintura, nada mais é do que uma forma de o ser humano, em uma vida extremamente frágil e rápida, eternizar algo tão pessoal que um dia, quando menos esperar, talvez seja lembrado.

Ou, como o homem na mesa diz em meio à conversa:

“90% da humanidade desaparecerá, de uma só vez (…) E voltaremos a ser carniceiros, caçadores e coletores. Mas talvez haja alguém que um dia cantarole uma melodia que todos costumavam saber.”Sombras da Vida está disponível para aluguel ou compra na Prime Video.

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