Hollywood e a magreza extrema: uma questão de poder - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
Artigo

Hollywood e a magreza extrema: uma questão de poder

Depois de acompanhar os tapetes vermelhos dos maiores festivais de cinema do mundo e as pré-estreias dos maiores lançamentos do ano até aqui, se tornou impossível não observar e questionar a magreza excessiva que toma conta de Hollywood.

(imagem em destaque: cena do filme O Mínimo Para Viver)

Seria fácil dizer que não tem nada de novo. A indústria estadunidense de cinema sempre foi obsessiva por corpos muito magros. E sim, esse tem sido o padrão por muitos anos, mas a verdade é que o que estamos vendo agora tem chegado em um nível ainda mais preocupante. E por incrível que pareça, isso diz muito de como o mundo anda atualmente.

Já faz alguns meses que isso vem me incomodando, mas sendo eu uma pessoa magra, fiquei me perguntando se pegaria bem eu falar sobre esse assunto, se era meu lugar de fala e se deveria trazer o assunto a tona. Só que isso tem se tornado um problema muito sério. E que vai além das atrizes de Hollywood. 

Existe uma grande diferença entre ser magra tendo força física, tônus muscular e existindo de forma saudável e a quase desnutrição que estamos vendo atrizes passando. 

Eu nunca gostei de falar dos corpos das pessoas, especialmente de mulheres. Na verdade, sempre odiei essa prática que é tão comum. Como as pessoas se acham no direito de questionar o peso dos outros, de opinar o quanto acham um determinado tipo de corpo bonito ou feio. Só aumenta essa ideia horrorosa de que nosso corpo é público e qualquer pessoa tem direito a ele. O que não é verdade. Só que quando algo se torna uma questão de saúde pública, é preciso falar. E o que anda acontecendo é exatamente isso. 

No último ano a quantidade de celebridades que emagreceram de maneira drástica, chegando a ficar com os ossos aparecendo foi bem grande. Tem sido fácil de perceber a aparência de completa fragilidade de atrizes que antes, mesmo magras, pareciam ter força, energia. Saúde!

Atrizes naturalmente magras ficaram ainda mais secas. E artistas que lutavam contra a pressão estética aderiram a ela, perdendo completamente qualquer tipo de gordura no corpo. E tudo isso do dia para a noite.

imagem: reprodução (redes sociais – vídeo)

É claro que a moda das canetas emagrecedoras tem relação com isso. Esse boom de emagrecimento não veio com reeducação alimentar e atividade física. Em muitos casos, nem com acompanhamento médico correto. Longe de mim criticar qualquer pessoa que usa Mounjaro ou qualquer outro produto do tipo porque precisa e quando fazem de forma consciente e com acompanhamento médico. Só que a grande maioria dos usuários só quer o resultado rápido, sem pensar nas consequências. 

Muitos afirmam que estamos de volta ao culto extremo da magreza que existia nos anos 2000. Só que eu discordo. Não vivemos algo igual. A coisa agora é pior. 

Talvez soe exagerado. Too woke para alguns. Só que não vejo esse movimento da magreza extrema de hoje em dia acontecendo do nada. Olhando bem como o mundo tem funcionado nos últimos anos, parece algo bastante calculado. 

Nas últimas décadas, mulheres alcançaram espaços que antes não estavam abertos para elas. Também se tornaram mais livres, com menos dependência masculina de toda forma. Apesar de todos os abusos, do machismo, da misoginia, as suas vozes estavam sendo ouvidas em todo o planeta. E com isso, vários movimentos contra a libertação feminina apareceram e se tornaram fortes. 

Homens que assumidamente odeiam mulheres tomando o poder em diversas partes do mundo. Adolescentes que mal saíram da infância abusando de meninas no online e no offline. Muitos casos de feminicídio. E ainda assim as mulheres continuam lutando e resistindo. E a sociedade que sempre tentou e contínua tentando controlar nossos corpos e nossas mentes fez o quê? Usou da sua arma mais poderosa. O universo da beleza. 

Desde muito cedo meninas são bombardeadas com informações e comentários deixando claro que estão abaixo do esperado. Seu corpo não é bom o suficiente, seu cabelo jamais será da maneira esperada, sua pele nunca estará da forma ideal. Criam uma ideia de padrão ideal, mas que nenhuma mulher jamais poderá chegar nele. Porque simplesmente não é realista. É plástico, criado para nos controlar. E com isso a indústria da beleza pode vender inúmeros produtos e procedimentos estéticos para todas as mulheres em busca de uma imagem mais próxima do que a sociedade ditou como o ideal. 

Todas as mulheres possuem algum tipo de insegurança com algo do seu corpo. Mesmo a mais bem resolvida. Porque a sociedade por muitos e muitos anos fez muito bem o seu trabalho de dizer o quanto somos imperfeitas.

imagem ilustrativa: Pexels

E é justamente nessa insegurança coletiva que a sociedade resolveu agir para minar o poder das mulheres, que vinha crescendo exponencialmente. 

Se Hollywood coloca como padrão a magreza excessiva, não aquela saudável, mas a que te deixa praticamente desnutrida, quase sem músculos e sem saúde, o mundo compra. Porque por mais que a indústria do cinema não esteja mais em sua Era de Ouro, ela ainda mantém influência em várias áreas da sociedade. 

E aí várias mulheres se colocam em risco, como as atrizes que admiram. Se elas fazem, por que eu não vou fazer? E com isso enfraquecem e adoecem. Se tornam frágeis, dóceis, como uma parte significativa de homens acredita que mulheres devem ser. 

Não é só uma questão de beleza. A magreza extrema é uma questão de poder. E isso é assustador!

Deixe seu comentário

×
Cinemação

Já vai cinéfilo? Não perca nada, inscreva-se!

Receba as novidades e tudo sobre a sétima arte direto no seu e-mail.

    Não se preocupe, não gostamos de spam.