A Odisseia: o que esperar do encontro da realista arte de Nolan com a mitologia de Homero?
*artigo escrito por Wesley Fernandes
Quando foi anunciado que Christopher Nolan adaptaria uma das obras máximas de Homero, um pensamento logo me ocorreu: como isso pode dar certo? Ambos são artistas e pensadores que, inicialmente, pensamos logo que são antagônicos, já que Nolan tem sua arte marcada pelas narrativas sombrias e realistas, com roteiro onde todos os detalhes tem um porquê e uma explicação, sem muito espaço para o inexplicável, enquanto que Homero é o principal nome da literatura da Grécia Antiga, responsável por inserir em sua obra detalhes sobre os principais eventos da antiguidade grega, porém, a sua narrativa é cercada de humanos com poderes de deuses e divindades mitológicas que passeiam e influenciam nos eventos humanos, sendo o autor uma das principais influências de autores de fantasia como Tolkien e Martin.

Diante deste inicial antagonismo de pensamentos me debrucei novamente sobre a Odisseia de Homero, depois de mais de 15 anos do meu primeiro contato com o livro, para ver quais caminhos que Nolan poderia seguir na obra e, não é que é bem possível que dê certo? O livro escolhido pelo diretor narra a viajem de volta de Ulisses para a sua casa após a guerra de Troia, onde, ao todo, o herói está há cerca de 20 anos fora de casa, passando 10 anos na guerra e mais 10 anos tentado reencontrar seu lar. É justamente esse o ponto central que Nolan poderá explorar melhor: o do homem e sua angústia e batalhas para voltar para casa, esse arco dramático é muito real, humano e cinematográfico. Foi o que vi que pode ser um importante pilar para o filme, já que o livro se sustenta em cima deste sentimento do protagonista e de como ele canaliza toda a sua força para este retorno, lutando contra todas as adversidades e muitas tentações, uma vez que Ulisses é um herói muito bem visto e até cobiçado por divindades.
Outro ponto que Nolan poderá usar muito a seu favor na narrativa são as batalhas ocorridas que envolvem ciclopes, deuses mitológicos, sereias e grandes navios, um prato cheio para o diretor desfilar sua capacidade de construir grandes cenas de ação e aventura, inclusive a passagem de Ulisses pela ilha dos ciclopes certamente será uma das mais marcantes, dado o potencial de ser explorada como uma bela cena de ação, bem como cheia de drama para o protagonista.

Mas tem um ponto que não consegui vislumbrar relendo a obra de Homero: como Nolan irá explicar os deuses mitológicos atuando o tempo todo no destino de Ulisses? E é aqui que pode ser um ponto de debate sobre as escolhas que o diretor pode fazer, pois na Odisseia o autor não se dá muito ao luxo de explicar as motivações ou os porquês de os deuses atuarem na tentativa de influenciar na vida dos homens e nem por que se relacionam de forma tão próxima com eles. Será que o diretor vai abrir mão desta explicação? E se for explicar, será que essa explicação não poderia tornar o roteiro um pouco arrastado? Ou ele vai apenas humanizar os deuses em suas características físicas (coisa que Homero também faz em seu livro) sem explicar tanto seus poderes e personalidades divinas? No livro, os deuses estão o tempo todo entre os humanos e disfarçados passeiam entre eles, já no Olimpo debatem abertamente sobre o futuro deles, tentando impor suas vontades entre si. Apesar de isso tudo ser relatado no livro, Homero não explica muito a ira de Poseidon, a afeição de Atena com o protagonista e nem porque Zeus atua de forma quase indiferente a tudo, bem como as discórdias que existem entre os deuses.
Essas são perguntas que só serão respondidas após a estreia do filme, onde finalmente mataremos a curiosidade sobre esse casamento artístico do pai das obras de fantasia com o diretor que preza pelo sombrio e realista e pelas explicações detalhadas. Minha ansiedade de historiador e meu lado cinéfilo apaixonado aguardam muito para ver como tudo isso se dará.