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Crítica: Devoradores de Estrelas

Devoradores de Estrelas
Direção: Phil Lord, Christopher Miller
Roteiro: Drew Goddard
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2026
Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz, Lionel Boyce, Milana Vayntrub, Ken Leung.
Sinopse: Enviado a dezenas de anos-luz da Terra para investigar o motivo pelo qual o Sol está morrendo na Via Láctea, o professor de ciências do ensino fundamental Ryland Grace precisará recorrer aos seus conhecimentos científicos para resolver esse enigma o mais rápido possível e impedir a extinção da humanidade. Será que ele fará tudo isso em meio à solidão do espaço?

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A ficção científica permite que a humanidade se olhe por meio de um espelho e reflita, por meio deste, sobre suas próprias crises e ansiedades. A fantasia, por sua vez, atinge a mesma finalidade, ainda que não parta de uma premissa realista para fazê-lo. Ambos os gêneros, juntos, têm a missão de entreter ao mesmo tempo que instigar o pensamento crítico e permitir, assim, que floresça no espectador a fagulha da esperança. São gêneros literários e cinematográficos que apenas parecem distantes, mas estão muito mais próximos em espectro do que se imagina.

Em Devoradores de Estrelas (2026), sci-fi e fantasia não apenas coexistem como se complementam — e parte disso é graças à comédia. O humor corporal de Ryan Gosling como Dr. Grace é fundamental para a nossa suspensão de descrença quando uma rocha-aracnídeo se torna seu melhor amigo alienígena no espaço. No filme, Grace é um biólogo e professor de ensino fundamental que se afastou da academia após ser ridicularizado e desacreditado pela sua pesquisa, cuja tese defendida era de que a vida em outros ecossistemas não precisaria necessariamente de água para se desenvolver.

Quando o Sol passa a ser “devorado” por um ser astrofágico desconhecido, sua pesquisa é resgatada pela Dra. Eva Stratt (Sandra Huller) e ela o convida — ou está mais para uma intimação — a dar uma olhada no material. A “olhada” se transforma em oportunidade para Grace trabalhar ativamente no Projeto Hail Mary (cujo significado em inglês seria algo entre “Ave Maria” e “uma última tentativa desesperada”). É onde ele permanece até ser pressionado a fazer a única coisa que jamais faria… e aí já é spoiler demais para dar por aqui.

Fato é que, diante dessa premissa realista e calcada em uma aparente verossimilhança científica, o primeiro terço do filme se apresenta como uma ficção científica clássica. Às expensas de um humor mais desinibido (Gosling é um mestre em fazer isso), não há grandes diferenças entre esta e qualquer outra lançada na última década. Quando acorda de um coma induzido no espaço, Grace está completamente sozinho, não sabe o próprio nome e nem tem ideia de qual é a sua missão. Desorientado, a câmera. Contudo, conforme a memória é retomada (e o filme se estrutura nesse bate e volta entre presente e passado, por meio de flashbacks), a narrativa do herói vai sendo construída.

A jornada do Dr. Grace é essencialmente a mesma de filmes e livros de fantasia; é como se Luke Skywalker de Star Wars: O Despertar da Força ressurgisse com seu R3D2. Só que aqui trata-se de Dr. Grace com seu amigo alienígena chamado Rocky. Em ambos os casos, é uma dupla de melhores amigos que, em que pese suas naturezas diferentes, se une enquanto tenta salvar o mundo, aventurando-se pelo espaço.

Nesse sentido, me parece que Devoradores de Estrelas resgata uma pureza e ingenuidade fantasiosas as quais, mesmo correndo o risco de soar infantil ou sentimentalista, irão permitir que reconheçamos nessa abordagem arriscada para os tempos de sobriedade atuais uma familiaridade e valor de nostalgia que se destacam. Ainda que não reconheçamos de imediato de onde vem essa simpatia pelo filme, pode ser que esteja ali no subconsciente de quem assiste, provocando uma série de emoções boas de serem vividas em uma sala de cinema. Especialmente em um mundo em colapso.

Da homenagem a 2001: Uma Odisseia no Espaço na cena em que Grace flutua pelos glitters cor-de-rosa da linha de petrova à cena em que Sandra Huller canta Sign of Times de Harry Styles no karaokê, esse é o tipo de obra que consegue fixar imagens ou cenas inteiras na memória de quem assiste. São momentos como esses, e também como os de Gosling suspenso no ar em um ato heroico de recuperar o material da superfície de Adrian e a emocionante cena de despedida de Rocky, que ajudam a explicar o tamanho sucesso de público do filme de Phil Lord e Chris Miller.

Embora o orçamento tenha sido surreal, cerca de 200 milhões de dólares, não vejo nada extraordinário nos efeitos especiais e acredito que a força desse filme realmente mora na maneira como conta uma história original a partir do livro de Andy Weir e não tem receio de convergir gêneros para se tornar especial.

O filme embarca em uma premissa aparentemente realista e coloca essa percepção em crise quando, com outros recursos como a trilha sonora de Daniel Pemberton, surpreende o espectador em busca da fantasia. Parece que Hollywood volta a enxergar imenso valor nisso, resgatando a ideia de que, às vezes, quando vamos ao cinema, principalmente no meio da era do streaming, tudo que buscamos é flutuar: estar perto o suficiente do chão para acreditar e próximo o suficiente do céu para se permitir imaginar.

Nota: 4 /5

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