Crítica: Minotauro – 50ª Mostra de São Paulo
Minotauro
Direção: Andrey Zvyagintsev
Roteiro: Simon Lyashenko, Andrey Zvyagintsev
Nacionalidade e Lançamento: França, Letônia, Alemanha, 2026
Elenco: Jeon Do-yeon, Sul Kyung-gu, Zo In-sung, Cho Yeo-jeong.
Sinopse: Nos bastidores do conflito da Rússia e da Ucrânia, um empresário russo descobre estar sendo traído pela esposa.
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Cannes Bait. Nada além disso. Minotauro é, antes de qualquer coisa, um filme tecnicamente bem encenado, bem fotografado e bastante consciente daquilo que pretende produzir visualmente. Existe nele aquele tratamento gélido e distanciado das coisas, uma espécie de assepsia estética que parece querer encontrar na frieza das imagens uma correspondência direta com a frieza moral de seus personagens e do universo social que os cerca. É um filme que sabe construir atmosferas, que compreende a importância dos espaços, dos gestos e dos pequenos detalhes, e que encontra alguns de seus melhores momentos justamente quando se dedica a observar o funcionamento da burguesia russa, suas relações de poder, seus códigos de comportamento e suas formas particulares de administrar a violência.
Gosto especialmente da maneira como o assassinato é trabalhado e, sobretudo, do que esse acontecimento desencadeia. Há um interesse genuíno na materialidade desajeitada do crime, nos seus detalhes e nas consequências que se espalham pelo universo dos personagens. É quando o filme se aproxima dessa dimensão mais concreta, quase burocrática, atrapalhada, animalesca, da violência que ele parece encontrar alguma vida própria. Existe algo de interessante em observar como um acontecimento brutal é absorvido, negociado e incorporado por um determinado círculo social, como a violência deixa de ser um acontecimento excepcional para se tornar mais um elemento na manutenção de uma estrutura de privilégios. Nesse sentido, a premissa oferece possibilidades bastante férteis, tanto narrativas quanto sociológicas.
O problema é que Minotauro parece ter uma dificuldade enorme em confiar naquilo que apresenta. Existe uma necessidade quase permanente de reafirmar sua importância, de sublinhar suas próprias intenções e de deixar muito claro que estamos diante de uma obra que pretende dizer alguma coisa sobre o mundo. Suas demarcações políticas aparecem de maneira excessivamente calculada, como se o filme temesse que o espectador não fosse capaz de reconhecer sozinho as implicações daquilo que está vendo. Tudo precisa adquirir uma dimensão maior, tudo precisa apontar para alguma metáfora, tudo precisa participar de um discurso que parece já vir pronto antes mesmo de as imagens existirem.
Essa insistência acaba produzindo um efeito bastante contraditório: quanto mais o filme tenta se afirmar como uma obra de grande envergadura política e simbólica, mais sua construção parece mecânica e simplificadora. O que poderia funcionar como observação social transforma-se em comentário ilustrativo; o que poderia permanecer ambíguo é rapidamente convertido em alegoria; e aquilo que poderia ser descoberto pelo espectador precisa ser constantemente anunciado pelo próprio filme. Há uma espécie de arrogância nessa postura, uma confiança exagerada na importância das próprias imagens, como se a simples disposição de determinados elementos visuais, políticos e narrativos fosse suficiente para produzir profundidade.
O filme é um remake de A Mulher Infiel (La Femme infidèle) do Claude Chabrol que já havia sido refilmado nos Estados Unidos por Adrian Lyne em Infidelidade (Unfaithful). O filme é obcecado por apresentar diferenciação entre os projetos, uma justificativa de porque esse remake está acontecendo, mas na realidade o que acontece é que o remake é construído de maneira tão fácil e tão ostensiva que acaba revelando justamente o contrário daquilo que pretende demonstrar. Em vez de encontrar uma perspectiva verdadeiramente particular sobre esses universos, Minotauro parece preocupado demais em sinalizar que não é exatamente aquilo que já conhecemos. É como se o filme confundisse distanciamento estético com originalidade, e demarcação política com elaboração intelectual.
No fim, acaba caindo numa vala comum de certo cinema de festival europeu: formalmente competente, visualmente austero, politicamente autoconsciente e excessivamente interessado em oferecer ao espectador a sensação de estar diante de algo importante. É um cinema que parece conhecer muito bem os códigos de prestígio que precisa mobilizar, mas que nem sempre consegue encontrar alguma coisa de realmente particular para dizer através deles. A frieza das imagens, a composição calculada dos planos e a gravidade dos temas terminam funcionando quase como garantias antecipadas de relevância, quando deveriam ser apenas instrumentos para alcançar alguma coisa que ainda não foi dita.
O mais frustrante é que existe uma boa premissa no centro de tudo isso. Uma premissa direta, interessante e capaz de sustentar uma investigação muito mais incisiva sobre violência, classe e poder. Mas o filme parece tão empenhado em transformar essa premissa numa grande afirmação sobre si mesmo que acaba perdendo de vista aquilo que tinha de mais promissor. Seu melhor está justamente no que há de mais simples e concreto em sua proposta, e não na camada de significados que insiste em sobrepor a ela. No final das contas, Minotauro quer ser muito mais do que consegue ser. E talvez seu maior problema seja justamente esse: a necessidade de parecer um grande filme termina impedindo que ele seja um filme verdadeiramente interessante.
Nota: 2 /5