Crítica: O Pitch – 49º Festival Guarnicê de Cinema
O Pitch – 49º Festival Guarnicê de Cinema
Direção: Joaquim Haickel, Coi Beluzzo
Roteiro: Joaquim Haickel
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 2026.
Elenco: Áurea Maranhão, Breno Nina, Tássia Dhur, César Boaes.
Sinopse: Um diretor de cinema e sua produtora buscam realizar o pitching de uma história que foge dos padrões do cinema brasileiro.
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A partir de uma premissa interessante e inusitada, de juntar trabalhos anteriores e atribuir a estes uma nova dimensão, Joaquim Haickel escreve e dirige o filme O Pitch, uma produção 100% maranhense em que personagens irão tentar convencer dois produtores de fora do estado a escolherem seus filmes.
Os pitches, que são apresentados no decorrer da trama por personagens interpretados por nomes já conhecidos do audiovisual maranhense, como Tássia Dhur e César Boaes, por exemplo, são nada mais que os próprios curtas-metragens do diretor, que ganham uma nova camada a partir de um roteiro que propõe colagens entre essas imagens de trabalhos antigos e o filme que se passa no tempo presente, O Pitch, que inclui, dentre outras coisas, as ilações vividas pelos protagonistas Breno Nina e Áurea Maranhão.
Do ponto de vista da metalinguagem, O Pitch é um filme extremamente interessante. Seu subtítulo, “uma declaração de amor ao cinema”, faz jus à premissa e à maneira como é construído, com a criatividade do baixo orçamento sendo utilizada como ponto de partida para que imagens que antes existiam como narrativas autônomas agora pudessem ser integradas, ressignificadas, em um filme completamente diferente.
Os curtas-metragens que compõem o longa passam por um processo de reescrita complexo e inevitável à medida que as mesmas imagens mudam de contexto. O que era documentário, por exemplo, passa a ser uma ficção pela força de uma narração. É o tipo de filme que eu geralmente gosto, justamente pela ideia de poder brincar com a linguagem, mas a complexidade desse tipo de proposta, no entanto, sempre depende muito de um elemento essencial para funcionar em sua plenitude, o qual, neste filme, não está em sua melhor forma: a montagem.

Com um roteiro tão atravessado (e enriquecido) pela metalinguagem e pelo enlace entre as diferentes linhas temporais, esses aspectos poderiam ter sido mais bem refinados, a fim de que o espectador sentisse menos incômodo com os cortes abruptos e a própria fluidez entre as cenas. Não sinto que exista uma atenção suficiente a esse aspecto, e esse é um dos pontos que mais gera insatisfação, comprometendo inclusive o ritmo da obra.
Além disso, a dinâmica entre Breno, Áurea e Tássia durante a última sequência me impede de comprar o final que somos levados a comprar enquanto plateia. Nas atuações, algo não fecha sobre a maneira como Dhur age para com Áurea e a forma como Breno se insere dentro daquele aparente triângulo. O que parece haver entre as duas é muito mais uma impaciência fruto de uma antipatia do que uma tensão sexual, per se. É por isso que o final parece tão deslocado: mais do que um aparente “teste do sofá”, o que não se desenvolve bem é a relação entre as duas e, justo por isso, o desfecho parece tão jogado, podendo ser facilmente confundido com algo puramente fetichista.
O que realmente eleva a obra, para mim, está nas atuações, com destaque para Áurea Maranhão, que, como protagonista, cai de cabeça na proposta do filme, interagindo com os colegas de cena e, especialmente, com Breno Nina de forma natural e surpreendentemente espontânea, além do coadjuvante Alberto Danuzio, que faz um personagem com uma das linhas mais bonitas do roteiro e cujo curta-metragem mais me agrada (com direito a Neville D’Almeida e uma história bem Brasil dos anos 70, um Dama do Lotação à maranhense).
No mais, me parece que o filme funciona melhor quando o fator surpresa dos curtas está do seu lado (ou seja, quando o espectador não é familiarizado com nenhuma das obras anteriores do diretor e pode usufruir da experiência de vê-las, mesmo que com interrupções, pela primeira vez) do que quando já se conhece e já se entende a proposta do aproveitamento. Também pode funcionar melhor quando se está disposto a ignorar as escolhas de montagem, focando unicamente na experiência que o elenco está disposto a entregar.
A verdade é que um bom roteiro, sozinho, não faz um filme. Existe um processo de reescrita da obra que passa pelo roteiro, pela direção e, finalmente, pela montagem, etapas que precisam estar coordenadas para que a proposta inicial se sustente até o resultado final. Ainda que a decupagem já esteja prevista no roteiro, cinema é, sobretudo, imagem em movimento e, justo por isso, as escolhas da direção e da montagem são fundamentais para que aquilo que existe no papel encontre sua melhor forma na tela. Em O Pitch, é justamente nessa passagem entre uma ideia bastante interessante e sua realização que sinto que o filme perde um pouco de sua força.
Nota: 2,5 /5