Crítica (2): A Última Casa
A Última Casa
Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Matthew Robinson
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2026.
Elenco: Wagner Moura, Greta Lee, Noah Alexander Sosnowski, Emma Ho, Riley Chung, Gabriel Barbosa.
Sinopse: Ann, Jason e seus dois filhos ficam confinados dentro da própria casa. Enquanto uma força desconhecida transforma o lar em uma espécie de prisão, todos ficam perdidos e sem entender a origem dessa ameaça. Os membros da família tentam manter a esperança e encontrar uma maneira de sobreviver, mas a falta de água, comida e outros recursos essenciais faz com que o desespero tome conta do ambiente.
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De forma muito óbvia, a premissa de A Última Casa remete ao isolamento social que todos atravessamos durante a pandemia de COVID-19. Uma família se vê trancada em casa contra a própria vontade, sem internet ou qualquer outro meio de comunicação que não seja um quadro de giz, usado para se comunicar com a vizinhança, que também se encontra na mesma situação.
A diferença entre o filme e aquilo que vivemos durante a pandemia está na relação estabelecida entre causa e efeito. Enquanto fomos confinados por um vírus letal, em A Última Casa temos monstros gigantes semelhantes a espécies superinteligentes de polvos, que invadem as casas por meio de túneis de esgoto subterrâneos. A escolha faz sentido quando descobrimos que a grande tragédia do filme está no avanço do mar sobre a terra e não exatamente na chuva, que traz esse “novo normal”, para usar uma expressão pandêmica, para a vida daquela família.

Louis Leterrier, diretor francês responsável pelo longa, admitiu a influência da pandemia na premissa do filme e comentou a inspiração para o roteiro escrito por Matthew Robinson. A Netflix não apenas financiou a ideia, como escalou dois atores de enorme sucesso para os papéis principais: Greta Lee (Treta e Vidas Passadas) e Wagner Moura (Narcos e O Agente Secreto).
As más notícias são que, a despeito do bom trabalho desenvolvido por Lee e Moura, os atores não são suficientes para salvar uma direção que não consegue encontrar o tom de sua própria premissa ambiciosa. A Última Casa mistura thriller psicológico, filme de monstro e filme de ação, mas parece incapaz de decidir o que fazer com qualquer uma dessas possibilidades. São tantas as ideias lançadas pelo filme que nenhuma delas consegue se desenvolver suficientemente, e o resultado é um amontoado de plots atropelados por um roteiro fraco e uma montagem frenética e deslocada.
Penso que, se estivesse nas mãos de um cineasta como John Carpenter, a premissa poderia servir à construção de uma ameaça progressivamente mais concreta, em que o isolamento e a presença dos monstros produzissem tensão entre os personagens, como em O Enigma de Outro Mundo. Se estivesse nas mãos de M. Night Shyamalan, talvez a história encontrasse outro caminho e transformasse a ameaça externa em uma ferramenta para explorar as relações entre os personagens e entre a família, sobretudo.
Leterrier não faz nada disso. Pelo contrário. O diretor tem dificuldade até em pontos elementares, como filmar a casa como um espaço geograficamente importante para o desenvolvimento da história e para a conexão entre os próprios personagens. A câmera não flui por esses espaços com o controle esperado de um filme que trabalha uma premissa de confinamento. A casa, que deveria ser simultaneamente abrigo, prisão e extensão da própria família, raramente assume qualquer uma dessas funções de maneira convincente.

Ao mesmo tempo, o filme vai afundando seus personagens em dramas cada vez maiores e mais complexos, mas que surgem de formas progressivamente mais banais, como a mordida de esquilo na filha do casal, que leva a uma infecção grave. Os conflitos parecem existir menos como consequências orgânicas das circunstâncias e mais como obstáculos que o roteiro precisa introduzir para manter a história em movimento, o que é cansativo.
O clímax é um problema também: uma longa sequência filmada de tal maneira que entender o que está acontecendo se torna uma dor de cabeça à parte. A montagem, que já vinha atropelando os acontecimentos, abandona de vez qualquer tentativa de construir tensão espacial ou dramática, e ao invés de orientar o olhar, o desorienta.
Para encerrar tudo isso, a solução para os problemas da família é embarcar em uma jornada marítima: ficar preso por mais tempo, agora em um barco no meio do oceano, procurando outros sobreviventes, provavelmente para abrir espaço para um segundo filme. Quem sabe A Penúltima Casa?
Nota: 2 /5