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Crítica: Fjord

Fjord
Direção: Cristian Mungiu
Roteiro: Cristian Mungiu
Nacionalidade e Lançamento: Romênia, França, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Suécia, 2026
Elenco: Sebastian Stan, Renate Reinsve, Lisa Carlehed, Ellen Dorrit Petersen, Lisa Loven Kongsli, Henrikke Lund-Olsen.
Sinopse: Uma família romena recém-instalada na Noruega é alvo de uma investigação dos serviços sociais e acaba enfrentando o sistema judicial local.

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A Palma de Ouro de Cannes 2026 diz muito sobre o momento em que foi entregue. Fjord, de Cristian Mungiu, segundo filme do diretor a conquistar o prêmio máximo do festival, acompanha uma família conservadora de origem romena que, instalada na Noruega, passa a ser investigada pela forma como cria os filhos.

Quando a filha do casal aparece na escola com marcas de agressão, o conselho tutelar e a polícia norueguesa entram em cena. A investigação logo ultrapassa a violência física e alcança o restante da rotina familiar: regras rígidas, proibição de redes sociais e de opções de lazer, leituras bíblicas diárias e obrigatórias.

Interpretados por Sebastian Stan e Renate Reinsve, os protagonistas aguardam o julgamento que decidirá se irão para a cadeia e se perderão a guarda das crianças. Enquanto isso, o longa tenta tensionar o conflito entre conservadorismo e progressismo que atravessa o mundo hoje, personificado no embate entre a interferência do Estado na autonomia dos pais e o melhor interesse das crianças. O interesse de Mungiu está em discutir um debate de escala global a partir de um microcosmo bem definido.
Pelo que foi descrito até aqui, potencial não faltava a Fjord. Além de um tema em sintonia direta com o zeitgeist, Mungiu tem reconhecida habilidade em lidar com assuntos espinhosos e eticamente desafiadores para o espectador. No entanto, existem filmes que funcionam melhor na teoria, e este é um deles.

Ainda na primeira hora, fica claro que a tese não se sustentará por muito tempo. Os argumentos de ambos os “lados” logo passam a girar em círculos, sem jamais abraçar a complexidade que o debate exige. Os personagens que orbitam o núcleo principal parecem existir apenas como contraponto, sem outro propósito além de escancarar as diferenças entre a indomável e destemida Noora, filha do casal vizinho, e os irmãos Elia e Emmanuel que são os filhos do casal protagonista.

As cenas de tribunal, em que o potencial parecia ser ainda maior, não passam de um amontoado de falas que já haviam sido ditas, de diferentes maneiras, ao longo do filme. Para um tema capaz de despertar tantas paixões, Fjord consegue ser apático. A frieza aparece também na forma: com exceção das paisagens deslumbrantes e de uma fotografia azulada que acerta ao imprimir certo distanciamento, nenhuma escolha do diretor parece colocar o filme à altura do debate que propõe. Os longos planos e o tom observacional não conseguem criar tensão nem propor reflexão; parecem existir apenas para alongar cenas que já se estendem além do necessário.

Fjord está sempre na iminência de fazer um ponto com o tema “importante” que aborda, mas algo o puxa para trás quando está quase “chegando lá”. Talvez, na ânsia de não tomar partido, a direção tenha esquecido que ainda precisava fazer um filme para ser assistido, e não apenas comentado.

O final, aliás, joga um balde de água fria em quem esperava uma conclusão mais significativa, e chega depois de um tempo de tela excessivo que, mais uma vez, se resume à inércia. Consigo entender por que o júri premiou a obra, talvez poucos filmes da competição dialogavam tão diretamente com as tensões do presente. O que não consigo compreender é a aclamação da crítica, que também lhe deu o prêmio da Fipresci, a um filme que pode ser resumido como limitado. Limitado pela maneira como aborda o próprio tema, limitado pela maneira como filma a própria tese. Arrisco dizer que é um daqueles prêmios que, com os anos, perderão importância, porque quiseram ter mais significado do que substância.

Nota: 2,5 /5

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