Crítica: O Outro Lado das Redes - 50ª Mostra de SP - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Crítica: O Outro Lado das Redes – 50ª Mostra de SP

O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning, 2026)
Direção: Aaron Sorkin
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Jeremy Allen White, Mikey Madison, Jeremy Strong, Wunmi Mosaku, Betty Gilpin, Bill Burr, Billy Magnussen
Sinopse: Frances Haugem, uma jovem engenheira no Facebook, se une a Jeff Horwitz, um jornalista do Wall Street Journal, para denunciar os segredos mais bem guardados da rede social.

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Um grande problema de se fazer um filme baseado em acontecimentos reais ligados a tecnologias recentes é a chance nada desprezível de ele ficar muito velho, muito rápido. Estou escrevendo esse texto bem no meio do intervalo entre primeiro e segundo turno das eleições presidenciais e, se você estiver engajado na campanha digital, sabe que a Meta estáo interferindo diretamente em conteúdos publicados em duas redes sociais. E o que isso tem a ver com O Outro Lado das Redes?

O longa é uma continuação de A Rede Social, de 2010, dirigido por David Fincher. Aquele filme mostrava como foi a criação do Facebook por um Mark Zuckerberg à época estudante de Harvard, como a rede cresceu e os imbróglios envolvendo a divisão de ações da empresa. O ágil roteiro de Aaron Sorkin, acompanhado da trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, chegou a vencer a categoria de Roteiro Adaptado do Oscar do ano seguinte.

O mesmo Sorkin retorna nesse novo projeto, agora como roteirista e diretor, e tratando de questões diferentes. Ele esperou por anos até que tivesse uma nova história que rendesse uma boa sequência, e a encontrou no que ficou conhecido como “The Facebook Files”, quando uma engenheira, junto com um jornalista do Wall Street Journal, denunciaram a alteração do algoritmo da rede social, de forma que esse passasse a priorizar o engajamento através da disseminação de informações falsas e discurso de ódio. A denúncia rendeu uma série de reportagens que foram ao ar em 2021.

O Outro Lado das Redes é um thriller investigativo dividido em duas linhas do tempo. Na primeira, que começa em 2019, acompanhamos a denunciante, Frances Haugen (Mikey Madison), uma funcionária que acredita que o Facebook pode fazer bem à sociedade e, por isso, não quer prejudicar a empresa, mas enxerga as práticas algorítmicas causando o efeito oposto ao que ela espera. Ela decide contar o básico ao jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), mas hesita em dar informações demais para não se prejudicar. O filme se desenrola nos encontros discretos, no dia a dia de Haugen na empresa, nas novas descobertas e alterações de políticas, sempre privilegiando a liberdade de expressão visando o lucro máximo.

Já na outra linha do tempo, vemos Mark Zuckerberg (em uma interpretação metódica e exagerada de Jeremy Strong) ensaiando para fingir que não é um robô fantasiado de ser humano, se preparando para uma audiência no senado estadunidense, em 2021, que tratou do papel do Facebook na desinformação eleitoral. Ele é auxiliado por Raya (Wunmi Mosaku), especialista em gestão de crises, e Charlie (Bill Burr), um personagem fictício, antigo investidos do Facebook e que agora serve como conselheiro para Mark. Para a audiência, ele serve como a pessoa com quem Mark vai discutir, defendendo suas ideias de forma bem expositiva para garantir que vamos entender tudo.

O Outro Lado das Redes acaba sendo uma recontagem de fatos que não envolve muita emoção. Diálogos explicam como Mark enxerga seu negócio (uma praça pública, onde todo mundo pode dizer o que quiser), a falta de habilidade de Horwitz com tecnologia rende mais explicações (pra nós), a ganância por ter sempre mais dinheiro, que já aparecia muito no filme anterior, permanece. Tudo é muito procedural e evita-se ousar. Nem o nome de Trump é citado durante a invasão do Capitólio – segundo Sorkin, para “evitar ser político”. Mas isso lá é possível num assunto desses?

No fim das contas, enquanto A Rede Social foi um filme afiado, O Outro Lado das Redes é didático. Vale para entender como empresas de tecnologia operam e manipulam, deixando a ética de lado se isso significar mais lucro. Mas, cinco anos depois do Facebook Files, o que mudou? Para melhor, nada. Em março desse ano a Meta foi julgada junto com a Google, em outro processo, agora por negligência em relação ao vício em redes sociais. Mark Zuckerberg acumula falhas, mas nenhuma o derrubou.

O Outro Lado das Redes termina em tom pessimista, e, por enquanto, é esse tom que se mantém na vida real. Vamos de regulamentação? O Outro Lado das Redes está em cartaz na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, curiosamente junto com o documentário Musk, sobre outro magnata da tecnologia que tem tão poucos escrúpulos quanto Mark Zuckerberg.

Nota: 2,5 / 5

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