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Crítica: Feito Pipa

Feito Pipa
Direção: Allan Deberton
Roteiro: Camila Agustini, André Araújo
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 2026
Elenco: Yuri Gomes, Teca Pereira, Lázaro Ramos, Carlos Francisco, Georgina Castro, Beatriz Carwile, Luan Vasconcelos, Nathyel Martins, Manuela Paulino.
Sinopse: Um menino de 11 anos sonha em ser jogador de futebol, mas enfrenta preconceito por sua personalidade delicada. Morando com a avó doente, ele tenta protegê-la a todo custo para não ter que ir morar com seu pai intolerante.

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Me impressiona a quantidade de filmes brasileiros falando sobre envelhecimento esse ano. Dentre eles, Feito Pipa, para mim, é o melhor.

É o que, apesar do tom quase poético, demonstra de maneira mais realista como é estar perto de alguém que você ama muito envelhecendo e se perdendo de si mesmo. Com toda a dor e raiva que chegam para quem está junto acompanhando o processo como um espectador passivo.

Gugu é um menino de 11 anos que vive no interior do Ceará com a sua avó materna. Uma criança cheia de energia, que ama jogar futebol e é talentoso nisso. Só que ele também gosta de dançar e usar maquiagem, o que faz com que ele sofra bullying de alguns colegas. Sua mãe morreu e, apesar do contato constante que ele tem com seu pai, o relacionamento dos dois não é tão bom. Especialmente porque seu pai não consegue aceitar que seu filho goste tanto de coisas que não considera como masculinas.

De um dia para o outro, Gugu vê a sua avó, que sempre foi cheia de vida, começar a ter falhas de memórias. E aos poucos isso vai se agravando. E aí a vida que ele conhecia começa a se desfazer. Como uma criança de 11 anos pode ser capaz de lidar com uma doença tão avassaladora como o Alzheimer?

Gosto de como o filme aborda tantas situações, como o bullying, a demência, a masculinidade dentro da comunidade negra; mas não parece querer tanto militar sobre inúmeras pautas sérias ao ponto de ficar desequilibrado. Tudo vai surgindo de maneira fluida e natural. Porque é pelo olhar de Gugu. Que muito novinho, ainda enxerga o mundo com certa inocência infantil.

Me interessa a representação de pai feita pelo Lázaro Ramos. Me parece com vários pais negros nordestinos que eu convivi. Que performam um tipo muito específico de masculinidade e que mal sabem lidar com a própria dor e também com o próprio amor. São reflexo de uma sociedade doente que os adoeceu também. E por isso mesmo não conseguem demonstrar e repassar afeto da forma que seus filhos precisam. Eles entregam o máximo que podem. E isso ainda é muito pouco.

Acredito que o cinema pode e deve ser mágico, mas também pode existir magia na realidade. E é justamente quando Feito Pipa se permite fugir um pouco do tom absurdamente fincado na realidade que ele perde um pouco da sua força.

Ainda assim, a cena final é belíssima e traz esperança. Mesmo que seja tão absurdamente distante do que é o trauma de acompanhar quem se ama desaparecendo lentamente dentro de si.

Nota: 4,5 /5

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