Crítica: O Samurai e o Prisioneiro - 50ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Crítica: O Samurai e o Prisioneiro – 50ª Mostra de São Paulo

O Samurai e o Prisioneiro
Direção: Kiyoshi Kurosawa
Roteiro: Kiyoshi Kurosawa
Nacionalidade e Lançamento: Japão, 2026
Elenco: Masahiro Motoki, Masaki Suda, Yuriko Yoshitaka, Munetaka Aoki, Ryota Miyadate, Tasuku Emoto, Joe Odagiri, Yūsuke Santamaria.
Sinopse: Conflitos e redes de intrigas de lordes no Japão Feudal.

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Um filme sobre investigações de mise-en-scène. Já somos jogados num mundo em andamento, como se os acontecimentos anteriores à nossa chegada pouco importassem, ou melhor, como se não houvesse necessidade de apresentá-los. O filme parece existir independentemente da nossa presença, e cabe a nós observar seu funcionamento, suas relações e os movimentos que acontecem dentro dele.

Pouco importa a trama, pouco importa quem são aqueles vários personagens individualmente, o conteúdo do que eles falam ou mesmo o que estão fazendo em termos estritamente narrativos. O que importa para Kiyoshi Kurosawa é ir observando. Existe uma espécie de distanciamento em relação aos acontecimentos, como se o diretor estivesse menos interessado em conduzir o espectador por uma sequência de conflitos dramáticos do que em permitir que ele acompanhe o desenvolvimento de uma situação, percebendo aos poucos as relações de força, as tensões e as particularidades daquele universo. É um cinema que encontra boa parte de seu interesse na própria observação.

O ritmo varia entre o lento, o misterioso e o calmo, com pontuais explosões que interrompem essa aparente tranquilidade. Os bastidores da guerra são apresentados através de um filme de samurai bastante atípico, mais cerebral, com uma postura intelectual muito particular de seus personagens e até bastante irônico. Há uma espécie de racionalização dos conflitos, uma preocupação com reuniões, conversas, estratégias e planejamentos que desloca o centro de interesse da ação propriamente dita. A guerra parece acontecer tanto na organização das ideias quanto no campo de batalha, e o filme encontra justamente nesses momentos de preparação e discussão uma maneira muito própria de construir sua atmosfera.

Mesmo quando marcado por uma ação mais forte, o filme parece preservar sua natureza introspectiva. As explosões de violência não representam necessariamente uma ruptura com aquilo que vinha sendo construído, mas funcionam como manifestações pontuais de uma tensão que já estava presente nas imagens, nos diálogos e nas relações entre os personagens. Existe uma contenção muito particular na maneira como Kurosawa organiza esses acontecimentos, evitando que o filme se transforme num espetáculo de ação convencional.

É interessante como ele se centra tanto em reuniões e planejamentos de vários samurais enquanto procura constantemente ângulos variados dentro de espaços reduzidos. A mise-en-scène parece estar sempre investigando as possibilidades de um mesmo ambiente: as posições dos corpos, a disposição dos personagens dentro do quadro, os vazios entre eles, as composições específicas e os diferentes tempos de duração de cada plano. As panorâmicas que permeiam esses encontros também são fundamentais, pois reorganizam continuamente nossa percepção daquele espaço e das relações que se estabelecem nele. Há uma atenção muito grande à geometria das imagens, à maneira como cada personagem ocupa determinado lugar e como os movimentos da câmera revelam novas configurações dentro de uma mesma situação.

Tudo isso é particularmente curioso considerando a escala da produção, a maior que Kiyoshi já teve. Existe uma dimensão grandiosa no universo apresentado, mas Kurosawa frequentemente prefere restringir nosso olhar a ambientes fechados, conversas e pequenos deslocamentos. É como se a grandiosidade da guerra fosse percebida através de seus mecanismos internos, de seus bastidores e de suas estruturas de organização. O filme encontra uma escala própria ao observar esses espaços, fazendo com que aquilo que poderia parecer pequeno ou burocrático adquira uma dimensão quase monumental através da composição e da duração dos planos.

Me parece algo próximo de um filme de samurai que fosse feito por alguém como Otto Preminger. Há essa relação com um cinema de observação, de organização espacial e de encenação dos conflitos através das relações entre os personagens, em que a câmera parece possuir uma inteligência própria para acompanhar os acontecimentos sem precisar enfatizar constantemente sua importância dramática. A ironia e a postura cerebral dos personagens também contribuem para essa impressão, afastando o filme de uma abordagem mais tradicionalmente heroica ou sentimental do gênero.

Curioso, portanto, um filme tão pouco catártico, que suaviza tanto a catarse ao longo de sua duração, ir terminando numa crescente emocional que leva até aquele plano final lindo. Depois de passar tanto tempo construindo uma experiência baseada na contenção, na observação e numa certa distância em relação aos personagens, Kurosawa encontra uma maneira de fazer com que tudo aquilo adquira uma dimensão emocional muito maior justamente no momento em que o filme se aproxima do fim. É como se a emoção, tão cuidadosamente reprimida durante todo o percurso, finalmente encontrasse espaço para emergir. E o plano final consegue sintetizar essa experiência de maneira belíssima, sem precisar abandonar a discrição e a inteligência formal que orientaram o filme desde o início.

Nota: 4 /5

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