Crítica: Valor Sentimental
Valor Sentimental
Direção: Joachim Trier
Roteiro: Joachim Trier, Eskil Vogt
Nacionalidade e Lançamento: Noruega, 2025
Elenco: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning, Anders Danielsen Lie.
Sinopse: As irmãs Nora e Agnes reencontram o pai distante Gustav, cineasta renomado que oferece à atriz Nora um papel em seu novo filme na casa familiar, borrando linhas entre realidade e ficção em meio a feridas emocionais antigas.

No cinema de Joachim Trier, há uma máxima que se confirma filme após filme: a intimidade não precisa gritar para ser ouvida. Valor Sentimental chega como o grande concorrente de O Agente Secreto na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional, empatando com “Frankenstein” e “Marty Supreme” como a terceira produção mais indicada da temporada — nove indicações ao todo. Mas os números, por mais impressionantes que sejam, dizem pouco sobre a experiência de assistir a este filme. Aqui, entramos em um ambiente profundamente familiar, onde a câmera levemente trêmula funciona como testemunha silenciosa de tensões que se acumularam por décadas, onde olhares dizem mais que diálogos inteiros e onde até mesmo a casa conta uma história à parte.
A trama coloca no centro do palco as tensões entre um pai cineasta e suas filhas adultas após a morte da mãe, misturando arte, trauma e uma reconciliação que talvez nunca se complete totalmente. Nora (Renate Reinsve), atriz atormentada por crises de pânico, e sua irmã Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) reencontram o pai Gustav (Stellan Skarsgård), cineasta ausente que decide filmar aquela que pretende ser sua última — ou melhor — obra na casa histórica da família. Seria muito fácil para Trier cair no melodrama, expondo raivas contidas em explosões catárticas entre pai e filhas. Mas não é isso que Valor Sentimental faz. O filme se apropria de seu título de maneira profundamente sensível, colocando em questão justamente o que cada um de nós atribui como valor sentimental: uma caneca? Um quadro? Uma memória gravada em Super 8? Para reforçar esse questionamento, o diretor aposta nos silêncios e atritos cotidianos em vez de grandes confrontos.

A força do filme reside, em grande parte, nas atuações extraordinárias de seu elenco — não por acaso, todos indicados nas categorias de atuação do Oscar. Renate Reinsve é simplesmente brilhante: com um único olhar, ela transmite camadas de vulnerabilidade, mágoa e dúvida que muitos atores levariam cenas inteiras para construir. Stellan Skarsgård captura com precisão cirúrgica o narcisismo e a vaidade envelhecida de um artista que vê o tempo passar, conflitando autoconfiança com medo e insegurança. Inga Ibsdotter Lilleaas surge como o pilar de estabilidade, a caçula mediadora que precisa segurar em si os conflitos familiares para não expandi-los, carregando um peso colossal sobre os ombros. E Elle Fanning fecha esse quarteto como uma atriz sedenta por oportunidade de se provar, mas que, em meio a uma história familiar que não é sua, é provocada a refletir sobre a própria vida. São performances especialmente tocantes, construídas com uma honestidade emocional rara.

A direção de Trier é sóbria e precisa, com uma câmera observadora que habita os espaços domésticos sem invadir, respeitando as pausas emocionais que pontuam cada cena. A residência familiar atua como personagem vivo, repleta de memórias e metáforas — rachaduras nas paredes, ecos de antigas sessões de terapia que a mãe realizava, objetos que guardam histórias inteiras. Em uma cena particularmente intensa, temos o pai conversando com as filhas após a festa de aniversário do neto. Gustav, já alcoolizado, fala mais do que “deveria” e coloca Nora e Agnes em uma posição de desconforto e defesa. Ali é possível ver que, apesar da mágoa e do sofrimento, o amor pulsa na tela — e mesmo em um momento tão constrangedor e incômodo, as filhas sentem o peso das falas do pai sofrendo caladas, com pequenos rompantes de revolta contida. Trier vai além: a posição da câmera revela tudo. Enquanto o pai é filmado de frente, em uma posição de confiança e segurança, Agnes senta-se de lado, corporalmente entre o pai e a irmã mais velha. Já Nora também é filmada de frente, pois é ela quem questiona e responde ao pai. Esses detalhes são construídos de forma delicada e ajudam a trazer o sentimento para além do que é verbalizado.

Mas Valor Sentimental também faz um louvor à arte — e particularmente ao cinema. Trier mostra que aquele pai diretor, visto com tanto brilhantismo por muitos, é especialmente confuso e ambíguo com seus sentimentos. Para entendê-los, ele usa seus filmes como lente de clareza sobre o que vê e sente. Em um diálogo revelador com seu produtor, Gustav diz: “Não estou acostumado com isso. Sempre estive no controle. Eu gostava de não ter controle sobre o que estava fora do meu controle.” Essa frase diz muito sobre o personagem e sua relação com as filhas, mas também sobre um cinema que frequentemente é atropelado pelas tecnologias, mudanças de consumo e conglomerados bilionários. A arte, para o artista, é um escape — ou uma maneira de desconstruir aquilo que ele vê e sente em relação ao mundo. Mesmo em meio ao caos da produção, o artista encontra lógica e constrói discursos que ajudam a humanidade a se enxergar e se entender. Valor Sentimental é um belo filme: íntimo, poderoso e construído para conversar com o público sobre nossas inseguranças e nossas relações mais fundamentais. Existe algo mais necessário que isso em tempos em que o cinema busca sua própria redefinição?
Nota: 4/5