Crítica: A Alegria É a Prova dos Nove - FIM Cine - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Crítica: A Alegria É a Prova dos Nove – FIM Cine

A Alegria É a Prova dos Nove
Direção: Helena Ignez
Roteiro: Helena Ignez
Elenco: Helena Ignez, Ney Matogrosso, Amjad Milhem, André Guerreiro Lopes, Arthur Alves dos Santos, Barbara Vida, Dan Nakagawa.
Sinopse: Jarda Icon dá aulas sobre como as mulheres podem obter seu próprio orgasmo. Com o seu grupo de discípulas e amigas, desenvolve projetos feministas e artísticos autossustentáveis.

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No enlace da memória, o presente reflete o passado. Entre as ruínas de quadros com molduras vazias, pinturas e fotografias se confundem, espalhadas na areia como se esperassem a maré levar. A Alegria É A Prova dos Nove de Helena Ignez, filme que marca o seu retorno às telas depois da pandemia, divide-se em capítulos com pouca ou quase nenhuma ligação entre si, cheio de cortes secos e situações cotidianas da minoria revolucionária brasileira que irão elucidar um Brasil diverso em temas e em cores.

O filme, além de ser dominado pela forte influência vanguardista do Cinema Novo (algo comum aos seus títulos anteriores), especialmente no estilo de Rogério Sganzerla, seu ex-companheiro, do Teatro Oficina em termos de uma representação teatral, do cinema enquanto um palco e os atores enquanto expressão de uma presença mítica, apresenta também a imagem da própria Helena como forma inseri-la tanto como protagonista tanto como coadjuvante de sua própria história, algo que me lembrou a forma como Agnes Varda lidou com sua própria imagem e os temas que lhe eram caros pós anos 2000.

A fim de discutir o hoje a partir de uma visão de confluência com o passado, Ignez chama o amigo de longa data, Ney Matogrosso, para passear pelas experiências que cultivaram quando mais jovens e acabam ambos traduzindo no filme, por meio dessa interação afetuosa e nostálgica, uma forma de refletir o que o futuro guarda para essa nova juventude revolucionária em um cenário marcado por conflitos políticos, extremismo e comportamentos reacionários. A Alegria É a Prova dos Nove é a resistência e a demonstração plena do florescimento, ainda que em condições adversas, de uma nova visão sobre amor, relacionamentos, sexualidade e sociedade.

No ambiente criado pela diretora, todos os temas irão caber, todos os sujeitos e seus dilemas são caros. A partir de uma narrativa que prioriza mulheres e demais minorias de várias idades, Ignez irá construir um local de acolhimento, afeto, diversão e reflexão. O que acontece diante das câmeras não parece ser ficcional, tampouco documental. Mora no meio. Em dado momento, perde-se de vista a linha que separa ambos (se é que esta existe de fato) e tornar-se impossível, também, demarcar a distinção exata daquilo Ignez irá prezar mais, de legalização da maconha a poliamor, de luta sindical à feminismo e libertação sexual das mulheres, de transsexualidade no Brasil à visibilidade assexual: tudo importa.

Como o céu e o mar formam a imensidão da eternidade, Ignez não se limita a nada. O diálogo entre o passado e futuro está, inclusive, no uso de câmera e na inserção de diferentes mídias, alguns momentos, há uso de drones e telas de webcam, enquanto em outros uma câmera antiga filma com seu aspecto granulado um zoom in que nos levará a um plano médio simples e o qual, por fim, revela o acesso a um tempo visivelmente passado, ainda que reflita diretamente no hoje. Este é um dos pilares fundamentais para que o filme seja compreendido em sua integridade enquanto uma reflexão para o mundo, mas bem mais para si mesma. Uma viagem para dentro de suas próprias divagações e formas de fazer cinema, que emite para nós, ultimamente, uma preocupação que vem a ser externa: a continuidade da democracia e do pensamento revolucionário como base para o progresso, sempre.

Essa democracia pode parecer uma franca bagunça à primeira vista, contudo à medida que o filme se desenvolve percebemos que sua construção episódica e sua aparente ilógica diante de tamanha não-linearidade, como disse, apenas traduz um fluxo de pensamento, tão natural quanto estar na mente de Helena Ignez por 100 minutos. O cinema aqui se faz enquanto uma instalação de arte, com composições de cena ora visivelmente bem pensadas, ora aparentes frutos do acaso, e monólogos viscerais, verdadeiramente inesquecíveis, uma contradição em si mesmo que possui seus momentos de baixo impacto ao lado de alguns outros os quais, com certeza, estão à frente do seu tempo.

A Alegria É a Prova dos Nove tem seus altos e baixos, e dificilmente agradará a todos. Mas é notório que Helena Ignez, assim como todas as mulheres que estão na arte para revolucionarem, não se importam se hoje não a compreendem em sua integralidade ou se sua personalidade as fazem menos ou mais queridas. O que importa mesmo é a autenticidade como base dessa revolução. Falar por aqueles que pouco recebem voz é outra parte do processo, mas antes também é preciso ouvir a si mesma e observar o mundo. Ao fim e ao cabo, Alegria é Ignez nos mostrando seu processo, de ontem e de hoje, facetas divertidas e disruptivas de suas memórias do passado e seus desejos para o futuro, em imagens fortes e cheias de personalidade as quais contribuem para eternizá-la – ainda mais.

  • Nota
3

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