Crítica: Assim Desse Jeito – 44ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação)
Assim Desse Jeito - 44ª Mostra de São Paulo

Crítica: Assim Desse Jeito – 44ª Mostra de São Paulo

“Assim Desse Jeito” (Just Like That) é o retrato de uma mulher que finalmente encontrou liberdade.

Ficha técnica:
Direção: Kislay
Roteiro: Kislay
Nacionalidade e Lançamento: Índia, 5 de outubro de 2019 no Festival de Busan (44ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: Quando a sra. Sharma perde o marido, a expectativa é de que ela vá morar com o filho e os netos. Porém, a mulher quer viver sozinha. Ela deixa de ir ao templo, compra coisas para si sem se preocupar com as despesas, torna-se amiga de uma jovem que tem metade de sua idade, e passa mais tempo com a moça do que com os familiares. Quando a sra. Sharma decide aprender a fazer bonecas com um alfaiate muçulmano chamado Ali, toda a comunidade, incluindo a própria família, lentamente se volta contra ela.

Elenco: Mohini Sharma, Harish Khanna, Sadhna Singh, Shivam Sharma, Trimala Adhikari.

Não tem como não adorar a senhora Sharma. Ela está cansada e apática no velório do marido, e também está cansada. Mas é simpática e bem-humorada à sua maneira. Muito provavelmente está cansada de ter passado uma vida inteira servindo o homem com quem construiu sua vida. Agora, o que ela quer é paz.

Mas a sociedade indiana não é muito afeita à ideia de uma mulher idosa vivendo sozinha. Se fosse seguir a cultura do país, a senhora Sharma certamente se cansaria ainda mais ao cuidar dos netos e do filho. Mas vemos em suas atitudes que ela só deseja permanecer no apartamento, remobiliar o local e mudar os hábitos. Para os outros, parece uma mudança repentina, à qual se refere o título.

“Assim Desse Jeito” fala sobre o lugar da mulher na cultura indiana, o machismo sistêmico e os dramas da classe média do país. Nada tão diferente do Brasil. O sofrimento da mãe (nora da protagonista), que não teria nada para postar no Facebook se tivesse um smartphone; a vizinha que grita por ter enlouquecido após uma experiência traumática; e o momento finalmente livre da vida da protagonista são elementos que denunciam o quanto as mulheres não encontram outra perspectiva que não a de ser dona de casa.

Os netos da protagonista repetem os mesmos padrões quando o irmão controla as relações da irmã, enquanto o pai da família sofre com a pressão para ser o provedor. Enquanto isso, a viúva aproveita seus dias com tranquilidade e chega a gastar dinheiro com experiências novas, que incluem passeios no shopping e salões de beleza – sempre com fotos de mulheres jovens e brancas nos cartazes.

Com tais elementos e uma condução que alterna os espaços, dando tempo de tela a diversos personagens, “Assim Desse Jeito” se torna delicado ao se demorar na protagonista em seus momentos de sono e de reflexão.

Mesmo com comentários realistas a respeito da realidade indiana – chegando a mostrar até mesmo o sentimento pessimista do país e as relações entre hinduístas e muçulmanos – “Assim Desse Jeito” nunca deixa de ser um singelo olhar sobre uma senhora, suas vontades e desejos. É por isso que a tranquilidade que ela conquista acaba sendo uma ilha de otimismo em meio a acontecimentos duros da trama.

Enquanto o nome da cidade muda e um novo futuro se desenha, quem já viveu muito precisa apenas de paz.

  • Nota
4

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