Crítica: Nova Ordem – 44ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação)

Crítica: Nova Ordem – 44ª Mostra de São Paulo

“Nova Ordem” é um filme potente que escala rápido, tal qual um golpe de estado.

Ficha técnica:
Direção: Michel Franco
Roteiro: Michel Franco
Nacionalidade e Lançamento: México, 10 de setembro de 2020 no Festival de Veneza (44ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: Enquanto a Cidade do México ferve com protestos, um casamento luxuoso da elite mexicana dá errado. Uma revolta inesperada abre caminho para um violento golpe de Estado. Visto pelos olhos de Marianne, a jovem e simpática noiva, bem como dos criados que trabalham para sua família, o filme mostra o colapso de um sistema político, enquanto ele é substituído por algo ainda mais angustiante. Nessa nova ordem, tanto ricos quanto pobres são aprisionados por uma lógica militar, onde os mais ricos financiam involuntariamente sua própria perda de poder.

Elenco: Naian González Norvind, Diego Boneta, Mónica del Carmen, Fernando Cuautle, Eligio Meléndez, Darío Yazbek.

Nova Ordem - 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Assim como os enfermos do hospital, os ricos também são rapidamente tirados do conforto. Não demora para toda a história de violência escalar rapidamente em “Nova Ordem”, filme de Michel Franco (Depois de Lúcia) que ganhou o Leão de Prata no Festival de Veneza.

“Nova Ordem” já apresenta as tensões entre classes sociais logo no começo. O ex-funcionário a pedir dinheiro, a empregada que come um canapé enquanto os prepara, o atraso da juíza para a festa devido ao “trânsito”, a convidada que chega após um ataque, repetindo que “está tudo bem”.

É sintomático que o primeiro ato de “Nova Ordem” comece com uma festa na qual todos tentam fingir que nada está acontecendo. É como a elite geralmente se sente. Apenas com sons de helicópteros, carros de polícia e tinta saindo da torneira, já temos a tensão instalada.

É só após o primeiro ponto de virada que vemos novos cenários, e a violência passa a fazer parte de forma escancarada. O filme não se preocupa em explicar que tipo de golpe ocorreu no país, mas aos poucos vamos pinçando elementos que mostram uma tentativa de revolução popular revertida por um golpe autoritário das elites.

E se a protagonista é Marianne, a jovem rica que acaba sendo prisioneira dos guerrilheiros/sequestradores, são os personagens Cristian e Marta que simbolizam os oprimidos e merecem destaque. São eles que, mesmo de camada pouco privilegiada, não participam da revolução e, assim, acabam sendo o “lado mais fraco” em todas as situações. Opressão que continua a se mostrar até mesmo entre os militares que tomam o poder, quando o diretor opta por desviar sua câmera da narrativa principal para mostrar o motivo da atitude de dois soldados descontentes.

O grande trunfo de “Nova Ordem” está no impacto que Michel Franco consegue dar às cenas de violência, seja porque surgem repentinamente, seja porque a câmera esconde o que se passa na prisão para focar em Marianne e seu sofrimento. Além disso, o longa mexicano consegue mostrar muito bem como se dá o estabelecimento de um estado de sítio do ponto de vista dos mais pobres. Enquanto isso, até mesmo os ricos que mais sofreram continuam a gozar do conforto e da segurança – note como a mulher rica continua a mandar em seus subordinados com altivez e sem sequer considerar as atribuições deles.

Apesar de seu título, o filme é centrado na experiência de personagens que, na verdade, continuam a viver na mesma “ordem” de sempre. Afinal, os lugares ocupados pelas classes sociais continuam iguais, e a personagem rica que tentou – literalmente – se deslocar é a que mais sofre. Na política, muitas vezes a promessa do “novo” se configura apenas em um “velho” que trocou de roupa.

Ao fim, quando a realidade é modificada para evitar colocar em risco o novo status quo desta nação inventada (pero no mucho), as cabeças cortadas não são aquelas prometidas nas pichações do começo. Mas “Nova Ordem” não se propõe a dar respostas. Apenas nos deixa tensos, investidos nos personagens, e questionando quem são os vilões de verdade… se é que existe algum herói.

  • Nota
4

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