Crítica: Miss Marx – 44ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação)

Crítica: Miss Marx – 44ª Mostra de São Paulo

“Miss Marx” é um filme esquemático, portanto, didático.

Ficha técnica:
Direção: Susanna Nicchiarelli
Roteiro: Susanna Nicchiarelli
Nacionalidade e Lançamento: Itália, Bélgica, 5 de setembro de 2020 no Festival de Veneza (44ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: Brilhante, inteligente e livre, Eleanor é a filha mais nova de Karl Marx. Ela está entre as primeiras mulheres a vincular feminismo e socialismo, e participa ativamente das reivindicações das trabalhadoras pelos direitos das mulheres e pela abolição do trabalho infantil. Em 1883, porém, Eleanor conhece Edward Aveling e sua vida é destruída por uma apaixonada, mas trágica história de amor.

Elenco: Romola Garai, Patrick Kennedy, John Gordon Sinclair, Felicity Montagu, Karina Fernandez, Oliver Chris, Philip Gröning.

O rock que entoa os primeiros momentos de “Miss Marx” já indica que a cinebiografia da filha de Karl Marx se dará com base em visões atuais acerca de fatos do final do século XIX. É o que vemos. Romola Garai dá um tom altivo e verborrágico à sua Eleanor, que aparece pela primeira vez no filme durante o enterro de seu pai.

Aparentemente bastante fiel à vida da ativista marxista (embora eu não tenha conhecimento suficiente para bater o carimbo), o filme da cineasta italiana acaba jogando uma lupa sobre a relação entre Eleanor e seu companheiro Edward Aveling, com quem viveria por muitos anos mesmo sem ser casada – denunciando sua visão de mundo dissonante do conservadorismo da época.

Interessantemente representada por um diálogo da peça “Casa de Bonecas” (de Henrik Ibsen, autor traduzido pela própria Eleanor), a relação da protagonista com Aveling surge como um paradoxo na vida da ativista, já que reflete o modelo de sociedade contra o qual ela sempre lutou.

Neste ponto, “Miss Marx” é feliz ao rechear sua trama de elementos que colocam em xeque os conceitos patriarcais e machistas que permeavam até mesmo os ambientes mais afeitos ao marxismo – e permeiam até hoje! O filme também não hesita em mostrar o quanto ela foi indulgente com o estilo de vida do companheiro, mostrando que lutar por uma causa política não significa conseguir levar a cabo todas as nuances dela para sua vida.

Enquanto assistia ao filme, pensei no quanto ele seria ideal para se exibir em escolas: é extremamente didático. É nesse ponto que paradoxalmente vive o maior problema de “Miss Marx” enquanto obra cinematográfica: é esquemático em inúmeros momentos. Podemos citar a sequência em que ela vê uma mulher pobre muito sofrida; os diálogos impossíveis de serem mais explicativos; a queda de Aveling ao fundo justamente quando ela fala sobre ele; e a bandeira dos Estados Unidos aparecendo na tela apenas para indicar a viagem da protagonista.

Os discursos que sintetizam a luta marxista, ditos muitas vezes com Eleanor olhando para a tela, poderiam ser uma escolha narrativa interessante, mas perdem força devido ao momento da narrativa em que surgem e por tornarem o filme ainda mais simplório. Já que “Miss Marx” é do tipo de filme para se exibir em escolas, ao menos passa de ano. E se os professores de História e Sociologia não forem proibidos de exibi-lo aos alunos, saberemos que nossa sociedade saiu da recuperação.

  • Nota
3

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